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Terça-feira, 30 de novembro de 2021

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Exames de sangue ajudam atletas a descobrir o que falta na dieta para melhorar a performance

Revista Go Outside

10 Jun 2013 - 19:00

“ESTOU TENTANDO te ajudar a otimizar seus treinos e a viver mais”, dizo biólogo israelense Gil Blander, fundador da InsideTracker, um empresa de Massachusetts, nos EUA, cujo foco são os exames laboratoriais para analisar os “pontos cegos” nutricionais de atletas. Para isso, bastar enviar US$ 299 e alguns frascos com seu sangue, explica Gil, que ele te mostra como aumentar sua performance, acelerar o metabolismo, reduzir a dor, melhorar o sono e dar uma carga na sua energia. Pode parecer papo de vendedor, mas Gil é um dos pioneiros do que pode ser considerada uma grande evolução no tratamento da saúde e da boa forma. Sua InsideTracker é uma entre as várias clínicas que surgiram nos últimos anos, principalmente nos Estados Unidos, com o objetivo de popularizar a análise baseada no sangue entre os atletas amadores.

A ciência por trás dessa tendência tem fundamento. Nos últimos cinco anos, graças a novas pesquisas e a avanços nos equipamentos de análises, a medicina passou por uma revolução em sua capacidade de identificar e testar os níveis de milhares de indicadores encontrados no sangue, como a vitamina D, o colesterol e o cálcio. Os laboratórios agora conseguem examinar cerca de 3.000 desses biomarcadores, que os médicos podem usar para prever de tudo, de ataques do coração até câncer. Mas nem todos os médicos lançam mão desses exames – muitas vezes, eles só os pedem quando há outros sinais de problemas.

Conforme a tecnologia de análise do sangue vai melhorando e ficando mais acessível, algumas clínicas particulares começam a customizar os programas para clientes que querem saber mais sobre a condição do seu organismo. A maioria dessas empresas atende pacientes que querem descobrir qual é o risco de vir a sofrer de doenças como câncer de mama e esclerose, porém, mais recentemente, profissionais como os da InsideTracker estão focando sua atenção em atletas que desejam melhorar sua condição física usando as dicas nutricionais derivadas dessa hemoanálise.

“Até poucos anos atrás, a tecnologia para esses exames nem existia”, conta Chris Talley, fisiologista norte-americano e fundador da PrecisionFood Works, uma clínica de nutrição localizada na Califórniaque trabalha com atletas amadores e profissionais, incluindo o escocês Danny MacAskill, o astro do bike trial. “Mas agora evoluímos até um ponto onde existem ciência bem sólida e informações acessíveis.”Essa tendência já chegou também ao Brasil, onde centros de medicina esportiva como o Instituto Marazul, em São Paulo, se dedicam a melhorias na qualidade de vida e ao aumento da performance levando em conta análises de sangue de seus pacientes, entre outros métodos. “Estamos trabalhando nisso há alguns anos. É um caminho científico interessante e que tem muito a evoluir ainda”, diz Marcelo Baboghluian, diretor da clínica.

Funciona assim: você escolhe quais biomarcadores quer que sejam analisados. Então seu sangue é coletado em um laboratório e, depois, enviado a um centro de diagnósticos. Em poucos dias, você recebe informações detalhadas sobre sua saúde – de inflamação e danos musculares a deficiências de vitaminas e níveis de colesterol.O que acontece em seguida depende de quem analisa seus dados e o quanto você está disposto a pagar para obter respostas. Há clínicas em que o fisiologista passa duas horas explicando por que alguns biomarcadores podem estar com o nível alto ou baixo, como sua performance pode ser afetada e o que você deve fazer a respeito. Em outros centros, resultados são postados online, de forma mais genérica.

Chris Talley, que cobra cerca de US$ 1.000 para fazer um hemograma completo, conversa com o paciente durante horas. O serviço daInsideTrackeré menos personalizado. Os resultados são postados online, e o programa faz recomendações nutricionais para ajudar a resolver quaisquer deficiências ou nível elevados de um certo biomarcador. No Instituto Marazul, a consulta médica custa R$ 600 e o primeiro encontro dura em média 1 hora, onde são avaliadas as queixas pessoais, histórico familiar, além de ser feita uma análise física completa.

Os conselhos dados aos pacientes variam, dependendo da clínica. Tanto a InsideTrackercomo a Precision Food Works fazem suas recomendações usando fórmulas exclusivas que estabelecem faixas normais para cada biomarcador. A InsideTracker também desenvolveu suas próprias faixas, que variam de acordo com a idade, sexo e nível de atividade, a partir de uma base de dados de mais de 100 mil pessoas saudáveis. Já Chris baseia seu diagnóstico em décadas de experiência trabalhando com atletas profissionais. No Marazul, a partir dos dados recolhidos na consulta, o médico determina quais exames serão necessários. “Cada caso é um caso e terá a prescrição adequada sempre baseada em evidências clínicas”, conta o doutor Marcelo.

De acordo com Gil Blander, são esses parâmetros desenvolvidos especificamente que fazem valer o alto preço que as clínicas cobram por essa análise. Talvez dê para conseguir os mesmos resultados com um clínico geral, mas os conselhos que ele vai te dar provavelmente se basearão em valores de referência genéricos, aplicados igualmente para jovens e atletas velhos.Por exemplo, de acordo com as diretrizes de alguns países, a ferritina, um indicador da quantidade de ferro no sangue, precisa estar com um nível entre 12 e 150 nanogramas por milímetro em mulheres. Se o seu nível estiver nessa faixa, o médico provavelmente nem vai tocar no assunto. Gil, por outro lado, diz que, uma vez que o ferro desempenha um papel importante no modo como o seu corpo metaboliza o combustível, uma queda para menos de 40 nanogramas em mulheres que levam o esporte a sério pode causar um grande impacto em seu desempenho.

Outro biomarcador de particular interesse para os atletas é a creatina-quinase. “Há uma forte correlação entre um alto nível dela no sangue e câimbras e lesões musculares”, explica Gil. Mas os médicos costumam testar os níveis de creatina-quinase somente em pacientes que mostram sintomas de ataque cardíaco, não quando eles estão tentando melhorar sua performance esportiva.

Segundo Chris, da PrecisionFood Works, os esportistas que usam esse tipo de análise podem não sentir que o mundo mudou, mas certamente notarão uma melhora em seu desempenho. Ele cita como exemplo Jonathan Toker, um triatleta e corredor de elite que passou pelo exame de Chris em maio de 2011 e descobriu que era alérgico a lactose e que estava com um nível baixo de ácidos graxos ômega-3, que, acredita-se,ajudam a reduzir inflamações e a regular os hormônios. Chris recomendou que ele cortasse produtos derivados do leite de sua dieta duas semanas antes das competições e que comesse peixe e tomasse suplementos de óleo de linhaça. Jonathan não consegue apontar uma mudança específica em sua performance total, mas diz que sentiu uma melhora em sua saúde geral e em sua capacidade de recuperação. “Estou digerindo melhor a comida e notei que estou me curando mais rápido de lesões”,conta.

SERÁ QUE ESSAS INFORMAÇÕES PERSONALIZADAS podem dar aos amadores uma ajudinha a mais? Se você é do tipo de pessoa que já tem um treinador e se consultou com um nutricionista para aperfeiçoar a dieta, a análise do sangue é o próximo passo. “A medicina pode ser curativa, preventiva e de promoção de saúde. Quando esta última é aplicada em atletas,o desempenho melhora. O acompanhamento médico adequado nesses exames faz toda a diferença para atletas”, diz Marcelo, do Instituto Marazul.

Embora essa tecnologia ainda seja nova, muitos treinadores e nutricionistas já estão recomendando a hemoanálise para seus alunos e pacientes. “Essa é mais uma ferramenta que podemos usar e que tem nos ajudado a saber se as pessoas estão comendo frutas e verduras antioxidantes em quantidade suficiente”, contaa nutricionista esportiva Lauren Antonucci,que dá consultoria para a associação de corredores New York Road Runners, de Manhanttan.

Conforme a tecnologia vai se desenvolvendo, tirar um pouco de sangue se tornará num futuro próximo uma ideia muito mais fácil de ser aceita. Embora empresas como a Inside Trackere a Precision Food Works precisem de pelo menos um frasco de sangue para fazer a análise, os experts acreditam que, em alguns anos, será possível testar o sangue com um chip descartável de dois centímetros que funcionará com uma única gota. Nesse caso, uma simples picada de agulha fornecerá informações suficientes para mudar sua vida e não só sua performance na bike. “Daqui a cinco anos será praticamente negligência prescrever um remédio sem uma análise genética e nutricional”,prevê Chris Talley.

Na ponta da agulha

O que alguns biomarcadores esportivos podem dizer sobre sua saúde

CREATINA-QUINASE
O QUE É: Uma enzima produzida durante o exercício
PORQUE É IMPORTANTE: Um nível elevado indica excesso de treinamento, que leva a fadiga, danos musculares e risco de lesões

TESTOSTERONA
O QUE É: Um hormônio que desempenha um papel fundamental na massa muscular, densidade óssea, níveis de colesterol e VO2 máximo
PORQUE É IMPORTANTE: Níveis baixos podem levar a um aumento de gordura corporal e a uma queda da saúde esquelética e cardiovascular

FERRITINA
O QUE É: Uma proteína que indica o nível de ferro no sangue
PORQUE É IMPORTANTE: A deficiência de ferro por causar lesões, aumentar o ritmo cardíaco e enfraquecer a imunidade. O excesso, por outro lado, pode aumentar o processo inflamatório e o nível de colesterol e prejudicar a saúde cardiovascular

VITAMINA B12
O QUE É: Uma substância que ajuda a sintetizar novas células, a reparar células danificas e a levar oxigênios aos músculos
PORQUE É IMPORTANTE: A deficiência de B12 pode reduzir a resistência e impedir a realização de exercícios de alta intensidade

PROTEÍNA C-REATIVA
O QUE É: Uma proteína relacionada à inflamação muscular
PORQUE É IMPORTANTE: Níveis elevados podem indicar doenças cardíacas ou excesso de treinamento, comprometendo o sistema imunológico e impedindo a recuperação do corpo

VITAMINA D
O QUE É: Uma substância que ajuda a aumentar a massa óssea e a imunidade
PORQUE É IMPORTANTE: A falta de vitamina D, junto com deficiência de cálcio, pode levar a fraturas por estresse e à osteoporos
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