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Sexta-feira, 19 de julho de 2024

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Contos de morte

O lançamento mais badalado do ano: Eduardo Mahon apresenta seu novo livro ao público nesta terça

Foto: Divulgação

O lançamento mais badalado do ano: Eduardo Mahon apresenta seu novo livro ao público nesta terça
A Academia Mato-Grossense de Letras (AML) mostra a cada mês que passa por um processo de renovação. Atualmente, pessoas de todas as idades circulam pelos salões e as expressões artísticas que representam a AML democratizam-se. E nesta terça-feira (03), quem ainda não viu estas mudanças, terá a oportunidade de vivenciar a academia em uma grande festa.


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Trata-se do lançamento do livro “Dr. Funéreo e outros contos de morte”, do presidente da AML, Eduardo Mahon. A festa promete ser um grande evento e estar de acordo com a temática do livro. Mas no sentido fúnebre da diversão. Explico: Todos os convidados deverão ir de preto. A equipe que atenderá o público estará caracterizada com maquiagem de caveira.

As cadeiras do salão principal da casa Barão de Melgaço ficará sem cadeiras. Ao invés de uma cerimônia, o local será um lounge, com direito a luzes negras, Dj e espaço para dança. O cardápio da noite também promete ser festivo: sofisticado e enxuto. Os convidados apreciarão bombons de chocolate e champagne.

O evento é aberto ao público e começa as 19h30 na sede da AML (Casa Barão de Melgaço).

Sobre o livro

“A morte não se revela, vem desvelada na letra escandida do autor que apresenta suas cintilações como se saboreasse o gosto filosófico do morrer. Mahon esculpe a morte com gesto e jeito simples. Relata: ‘Era viúvo da sexta esposa e, nem por isso, deixou de acreditar no amor’”, escreveu a acadêmica Marília Beatriz de Figueiredo Leite sobre a obra.

O livro “Dr. Funéreo e outros contos de morte” é uma obra que reúne diversas histórias, todas com o mesmo tema: A morte. Mas a morte com um cunho cômico. “É uma tragédia engraçada”, explica Eduardo Mahon. Todos os contos no máximo oito parágrafos, de forma que a leitura seja dinâmica e fluída.

O livro será vendido na festa de lançamento por R$ 25,00 e, nas livrarias, por R$ 30. Confira abaixo um dos contos:

Um caso perdido

Era preferível o escárnio quando dizia que era maquiador do que a perplexidade ao ser obrigado a completar: maquiador de mortos. Contudo, orgulhava-se do que fazia, porque conquistou respeito no meio em que atuava e a admiração de vários novatos que o visitavam para tomar lição. A especialidade dele era morte traumática, das que deixam o cadáver irreconhecível e a enlutada família mais consternada. Fazia uma maquiagem tão impecável que os parentes e amigos dos defuntos procuravam saber quem era o autor da façanha, já que a aposta comum dos funerais em tragédias era no caixão fechado. Está tão bem!; Morreu tão sereno...; Parece que está dormindo! – comentários desse jaez consagravam-lhe o talento.

Chegavam corpos irreconhecíveis. Munido de habilidade renascentista, costurava as carnes, escondia os pontos no couro cabeludo; rearranjava os ossos com uma tala que era imperceptível no paletó; fechava a boca com um fio por dentro para que não vissem o trauma nos dentes; passava um creme especial e pó nos hematomas e, voilà!, ali estava mais um apresentável pai de família, avô adorado, amigo dos amigos, homem religioso que reencontrará os entes queridos e se sentará à direita de Deus Pai todo-poderoso etc., etc., etc. Sentia-se, com razão, um artista e não via diferença entre os estudos de anatomia dos mestres italianos e o labor diário: panegírico ao corpo humano, consagrado à beleza estética.

O solteirão ia envelhecendo, rebuscando a técnica. Era partidário da menor intervenção possível, para que a natureza falasse por si mesma. Estudava as nuances da cor da pele dos silenciosos clientes para imitar na maquiagem, queria saber como penteavam os cabelos ou faziam a barba e, se fosse mulher, qual era a maquiagem preferida, como esfumaçava a sombra nos olhos, o batom mais usado, o esmalte que combinava, enfim, um conjunto de valiosas percepções que deixaria atônito o cortejo fúnebre. Os cadáveres femininos ficavam tão lindos que chegavam a ser fotografados pelos parentes mais próximos, como uma bela e derradeira recordação.

Bateram-lhe à porta num domingo. Afinal, no domingo também morre gente. Não estranhou. O que causou perplexidade foi o pedido. Era uma torva balzaquiana. Teria perdido o marido, o filho, o pai? Não. Acomodou-se na sala de atendimentos e elogiou o trabalho do perito. Feitas as saudações, adiantou que ele poderia cobrar quanto quisesse pelo serviço. Queria ser maquiada por ele, bem ali, naquele momento. A dona de uma quasímoda fealdade socorria-se do único que a poderia salvar, já que fora preterida por todos os cirurgiões plásticos e cabeleireiros da cidade. Davam-na como um caso perdido.

Quando ele objetou, resoluto na exclusividade do post-mortem, escutou-se um estampido alto e seco. Ela havia sacado um pequeno revólver e atirado na própria cabeça. Na carta, despedia-se. Ao final da missiva, os parentes mais próximos liam: Não me culpem. Quero ficar bonita pelo menos uma vez na vida, nem que seja na morte. De fato, ficou linda nas fotos.


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