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Sexta-feira, 19 de julho de 2024

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Aos cinco anos, cuiabana participa de competição de skate em SP e sonha com futuro no esporte olímpico

Foto: Arquivo pessoal

Aos cinco anos, cuiabana participa de competição de skate em SP e sonha com futuro no esporte olímpico
Apesar de ter apenas cinco anos, Ana Beatriz Tibaldi, a “Bia Aventureira”, já domina o skate nos pés enquanto sobe e desce a mini rampa da MM Skate Shop, na rua Joaquim Murtinho, no Centro de Cuiabá, onde ela faz aulas há quase dois anos. Mãe da skatista mirim, Gabrielle Tibaldi, de 36, conta que quando mal sabia andar, Bia já queria subir em um skate de brinquedo que a família tinha em casa. 


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A professora brinca que sempre precisava esconder o skate por medo da filha se machucar. Antes de matricular Bia nas aulas na MM Skate Shop, Gabrielle costumava levá-la para andar de patinete no Verdinho. Em uma das vezes, Bia pegou um skate emprestado para brincar. 

“Quem deu o skate para ela andar pela primeira vez agora é professor dela aqui. Ela ia andar de patinete no Verdinho, chegava lá queria andar de skate. Meu medo era ela cair. Começou a andar de lado no patinete, imitando um skate. Descobri a aula de skate aqui e ela começou a fazer. É muito mais que andar de skate, a Bia é apaixonada”. 

No mês passado, Bia viajou de avião pela primeira vez para participar do Circuito Futuro da Nação, em São Paulo (SP). A mãe conta que ficou impressionada com a estrutura que a cidade oferece para os atletas, algo que ela e Bia não encontram em Cuiabá. 

"Em São Paulo tem muitas pistas, eu olhava no mapa e apareciam várias. Ela só conseguiu desenvolver manobras lá, porque treinou aqui na mini rampa [da MM Skate Shop]. Só que chegou lá ela assustou com o bowl, porque é diferente, aqui não tem”. 

O bowl é um tipo de pista de skate que parece uma piscina vazia. Nele, o atleta não precisa “remar” para conseguir velocidade. Como Cuiabá não possui um bowl, Bia não consegue treinar manobras dessa modalidade. No entanto, a pequena se animou ao chegar em São Paulo e receber dicas de outros atletas. 

“Se tivesse ela aprenderia rápido, nessa idade eles têm muita facilidade. Temos que aproveitar a oportunidade. Dinheiro nenhum paga a felicidade de ver ela andando com outras meninas, aprendendo coisas novas. Tenho certeza que se ficasse com ela uma semana lá, ela voltaria outra”. 

Sem patrocínio, Bia contou com a ajuda simbólica da empresa de telecomunicações onde o pai dela, Leonardo Tibaldi, trabalha. Gabrielle explica que a família precisa se desdobrar para conseguir custear o esporte para a filha. Animada, Bia mostra as rodinhas e a lixa de skate que ganhou no Circuito da Nação. 

“Ela não sabe o valor disso em dinheiro, mas ela fica muito feliz. Nem se importa com medalha, criança é assim, não pode perder essa essência. Ela ainda não entende as classificações, mas quando entregam algum brinde para ela, ela fica muito animada. Uma vez ela ganhou um boné por ser a menor atleta, ganhou um boné da Lacoste, ela tem até hoje”. 

Bia começou a demonstrar interesse pelo skate quando tinha apenas três anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Pais skatistas 

Quando eram mais novos, Gabrielle e Leonardo também andavam de skate. No entanto, sofreram com o preconceito da família, que acreditava que o esporte era “coisa de malandro”. Quando a filha começou a manifestar interesse pelas manobras de skate, Gabrielle decidiu contar para a mãe dela apenas quando Bia participou da primeira competição. 

“Ainda tinha esse preconceito. É uma visão que estamos tirando, hoje minha mãe chora ao ver ela andando, vibra de ver ela competindo. É muito mais que andar de skate, a Bia é apaixonada. Com três meses de aula foi participar de um campeonato na Orla do Porto. Ela chegou lá remando, as skatistas ficaram doidas”. 

Atualmente, Gabrielle trabalha apenas com aulas particulares para poder acompanhar a rotina da filha. Ela explica que decidiu viver junto com a filha o sonho que também já foi dela um dia. 

“Parei de dar aula e minha agenda é feita por ela. Estou vivendo esse sonho com ela, acho que era um sonho adormecido em mim, que não tive essa oportunidade. Então, quero dar tudo que puder para ela”. 

Gabrielle lamenta que Cuiabá não tenha estrutura para atletas do skate, que se tornou esporte olímpico em 2020. Para a mãe, Bia deveria ter chance de se formar como atleta na cidade onde nasceu, assim como outras skatistas. 

“Não quero ir embora daqui com ela, quero que outras meninas como ela tenham chance também. Quero fazer uma rampa pequena em casa para ela ir treinando, mas e quem tem o ‘dinheirão’ aí não pode fazer uma para todo mundo? Não vamos aceitar menos que o melhor para as crianças”. 

Recentemente, Bia começou a dizer para os pais que pretende ser dentista quando crescer. Na imaginação da pequena skatista, ela se vê chegando no próprio consultório “remando” em um skate para trabalhar. 

“Ela vai ter outra profissão, mas não pode perder a oportunidade de ser uma atleta. Está fazendo aula uma vez por semana, antes fazia duas vezes na semana, era importante no começo. As primeiras aulas faziam 20 minutos e cansava, hoje se deixar ela três horas aqui ela fica andando, não quer ir embora”. 

Em abril ela participou do Circuito Futuro da Nação, em São Paulo (SP) e viajou de avião para competir pela primeira vez. (Foto: Arquivo pessoal)

Luta por estrutura 

Há décadas, Bob Peron luta para que Cuiabá entre no mapa do skate brasileiro. Limpando as lágrimas do rosto, ele lamenta pela desistência do filho, de 16 anos, que se desanimou a ver a falta de apoio e estrutura na cidade. 

“Me enxergo neles, vejo a Bia e lembro de mim. Quando ela chegou com a foto na competição. Nossa. Meu filho tem 16 anos e não quer mais, ele tem talento, mas já entendeu que não tem apoio do Poder Público para ser um atleta. Minha filha de 11 anos também andava, mas viu o irmão desanimar também. Tem hora que dá vontade de desistir”. 

Bob é proprietário da MM Skate Shop e a mini rampa que hoje Bia treina foi construída para o filho dele, Igor Peron. Atualmente, Bob também é presidente da Federação Mato-grossense de Skate. Para ele, é um passo importante para que Cuiabá possa receber eventos esportivos. No entanto, o skate precisa de investimento. 

“O que mais quero é ver as crianças agora, é o que me dá força… Me enxergo neles, vejo a Bia e lembro de mim. Quando ela chegou com a foto na competição… Nossa… As pessoas vem aqui e falam: ‘Bob, não desiste’. Eu coloquei minha cara para ser vereador, sem dinheiro e tive 504 votos, sem um real no bolso. Se não tiver alguém lá no meio, não vai”. 

No ano passado, Bob conseguiu uma emenda parlamentar do ex-deputado estadual, Allan Kardec, para movimentar a cidade com o Circuito Skate Music. Com o recurso, ele conseguiu oferecer premiação de R$ 30 mil em um evento de skate amador. 

“Foi a maior do Brasil na categoria amadora. Fizemos troféus para todos, as pequenas todas ganharam. Até terceiro lugar teve troféu, o dinheiro foi gasto corretamente, sem superfaturar, sem roubar… Só de ônibus para os atletas gastamos R$ 18 mil. Fizemos tudo certinho”. 

Bob conta que muitas vezes tirou dinheiro do próprio bolso para financiar o esporte em Mato Grosso, algo que não consegue mais fazer. Agora, ele sonha com uma etapa da seletiva brasileira do Centro-Oeste em Cuiabá. 

“Centro-Oeste todo viria para cá, seria a Seletiva do Brasileiro Centro-Oeste, é uma coisa que movimenta economia, turismo, lazer… Envolve tudo. Tem chance demais, estamos perto. Mas precisamos de ajuda dos políticos, precisamos tirar os projetos do papel… Vejo jovens desistindo do skate, jovens com futuro no esporte”.
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