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Sexta-feira, 19 de julho de 2024

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começou com brincadeira

'Mural' de fotos 3x4 guarda história de afeto entre universitários e dono do 'Bar do Arcanjo' em Cuiabá

Foto: Bruna Barbosa/OD

'Mural' de fotos 3x4 guarda história de afeto entre universitários e dono do 'Bar do Arcanjo' em Cuiabá
Atrás do caixa do Mercado Ki Tem, que ficou conhecido como "Bar do Arcanjo" entre os universitários, no bairro Boa Esperança, em Cuiabá, o antigo expositor de cigarros foi tomado por fotos 3x4 coladas por jovens que são (ou já foram) frequentadores assíduos do local. O "mural" improvisado é motivo de alegria para Erimar Domingues, de 53 anos, que comanda o bar há 37 e se tornou parte da memória afetiva de centenas de universitários.


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O bar ficou conhecido como Bar do Arcanjo por ficar localizado em frente a casa do ex-bicheiro João Arcanjo. Por trás das fotos 3x4 de jovens com "cara fechada", que foram tiradas para serem usadas em documentos, houveram momentos de êxtase e da fase de descobertas de universitários da UFMT, que lotam as quase 300 cadeiras do bar.

A brincadeira começou com o agrônomo João Antônio Batista, de 29 anos, que esqueceu a primeira 3x4 colada no mural do Mercado Ki Tem. Atualmente, ele mora em Lucas do Rio Verde (a 323 km de Cuiabá), onde trabalha no setor do agronegócio. 


Foto do agrônomo foi a primeira a ser colocada no mural do bar em brincadeira dos amigos. (Foto: Arquivo pessoal)

A 3x4 de João foi encontrada por um amigo, que deixou a foto no caixa do bar. Antes do mural de fotos de universiários existir, o espaço era usado para expor os cigarros que estavam a venda, além de documentos perdidos pelos clientes. 

"Aquilo começou no último semestre de 2019, antes da pandemia. Até hoje deixo colocarem, mas não tem mais espaço e tem foto para colocar ainda. Vou aumentar para poder colocar, porque na verdade aquilo era uma cigarreira da Souza Cruz. Deixávamos lá os documentos perdidos para eles resgatarem, mas depois começaram com essas fotinhas". 

A foto do engenheiro agrônomo foi colocada no local e, quando ele retornou, achou engraçado a 3x4 estar colada na parede do bar. João resolveu deixar a foto ali e não demorou para que seus amigos fizessem o mesmo. 

"Perdi essa foto em um dia que estávamos brincando de mostrar foto 3x4 com uns amigos. No outro dia eles que colocaram lá para me zoar. Meus amigos começaram colocar, acabou virando isso. Vou no bar desde 2012 eu acho, virei amigo de todos os garçons", conta aos risos. 

Depois das primeiras fotos, virou moda entre outros universitários deixar uma 3x4 no bar. Como o mural lotou, Erimar já planeja aumentar o espaço destinado as fotos dos jovens que, por enquanto, ficam guardadas em uma gaveta do caixa.

Erimar entrou na brincadeira dos universitários e começou a colar outras fotos 3x4 no mural. (Foto: Arquivo pessoal)

Cecília Ângela da Silva, que trabalha no Mercado Ki Tem desde 2011, se diverte com o carinho dos estudantes pelo bar. Vez ou outra, enquanto faz a cobrança dos litrões e espetos consumidos pelos clientes, ela flagra um dos jovens comemorando por encontrar a própria foto ou dos amigos no mural. 

"Chegam aqui e encontram a 3x4 de uma amiga, tiram foto, fazem vídeos e falam que vão colocar na rede social, acham o máximo a foto aí... As fotos vão embranquecendo, eles pedem para não tirar e avisam que vão trazer outra Tem umas [fotos] que, por acaso, está do lado da foto de um ex e pedem para trocar de lugar. Mas não dá, né?", brinca. 
 

3x4 no mural virou "troféu" 

Erimar conta que as vezes olha o mural para "matar a saudade" dos universitários que já passaram pelo bar. Como muitos já se formaram e deixaram a faculdade, acabaram diminuindo a frequência de idas ao Mercado Ki Tem. Ele compara ter uma foto no mural com um "troféu", por conta da animação com que os jovens agem ao encontrem um rosto conhecido entre as fotos. 

"Passam por lá e tiram foto da foto lá, como se fosse o trófeu. A história é uma só: união e amizade da minha clientela. Isso que é importante. Pena que aconteceu mais recente, se tivesse começado na época que o bar começou a ser frequentado pelos universitários acho que uma parede não ia caber. Mas vamos chegar lá, um dia vamos encher uma parede, se Deus quiser". 

Mural de fotos 3x4 de universitários com "cara fechada" chama atenção em bar. (Foto: Bruna Barbosa/OD)

O Mercado Ki Tem existe desde 1986, quando foi comprado pelo pai de Erimar, que faleceu em 2007. Com a morte do pai, ele precisou assumir o comando do bar. No mesmo ano, Erimar viu o quintal de brita lotar de jovens com a explosão de quitinetes e repúblicas de universitários criadas no bairro Boa Esperança. 

"Fomos ficando mais íntimos dos universitários. O movimento deles começou mesmo em 2007. Antes tinha também, mas meu pai fechava mais cedo. Fico muito grato, porque é uma coisa espontânea deles e minha também, gosto de lidar com as pessoas e sempre tratei todos muito bem. As vezes vou ao médico encontro alguém já formado... Esses dias fui ao Detran, encontrei pessoas que já formaram e lembram de mim", comemora. 

Relação de afeto 

Mesmo antes de, por acaso, João Antônio começar o mural de universitário no bar, outros jovens já procuravam formas de externar o carinho que sentem por Erimar. Prova disso são as placas de homenagens e porta retratratos colocados na parede do Mercado Ki Tem por formandos que frequentavam o local. 

Na maioria das imagens, Erimar aparece sendo abraçado pelos jovens. Cecília conta que os universitários faziam questão de que ele aparecesse nos registros. Os clientes do local já se uniram para conseguirem dinheiro para reerguer o muro do bar, derrubado em acidentes de trânsito, e para uma cirurgia que Erimar precisou fazer em 2020. 

"Tinha as fotos só do pessoal de formatura mesmo, que eles tiram foto com o Erimar e deixam aqui. Falam que aqui é o 'escritório' deles. Ele fica muito feliz, com o carinho que essas gerações de universitários tem por ele. As vezes se formam, passa um tempo e voltam com a família", conta a funcionária do bar. 

 

Por estar fazendo hemodiálise, ele precisou diminuir a frequência de trabalho. Mas, de vez em quando, tenta aparecer no bar durante a noite, horário de maior movimento dos universitários, para rever alguns dos rostos queridos. 

"Não adianta ser o maior bar, o mais frequentado, se não tiver o entrosamento com seus clientes não tem graça. Você pode ir no bar mais chique que for, se não conhece o dono, não sabe onde está... lá todo mundo se sente em casa. Brincamos, xingamos... uma família mesmo". 

João Antônio é um dos exemplos do amor que os jovens criaram pelo Bar do Arcanjo ou Mercado Ki Tem. Antes de começar a frequentar o local com os amigos, não conhecia Erimar, Cecília e os outros garçons, mas agora todos tem espaço nas memórias que construiu em uma das mesas de plástico colocadas no quintal de brita do bar. 

"Você vai virando amigo, trata com educação, está ali sempre vendo eles no corre, sempre pergunto como eles estão, sei da família deles... Já sentei lá sozinho para ficar conversando com eles. Mas não conhecia eles, conhecia frequentando o bar mesmo e criei esse vínculo afetivo com todos. Amo todos eles". 
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