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Sexta-feira, 19 de julho de 2024

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"Rainha do grau", má influencer de MT pilota sem CNH, empina moto por esporte e já foi detida 8 vezes

Foto: Reprodução

Por conta da forma que o "grau" (prática de empinar a moto) é vista pela sociedade, a influenciadora Pamela Cristiane da Silva, de 25 anos, de Nova Mutum (a 242 km de Cuiabá), se identifica como "má influencer" em seu Instagram. Pamela é vista por muitos como "bandida", "criminosa" e "drogada", apesar de não ter envolvimento com crime. Ela foi detida oito vezes por ser flagrada "dando grau" e pilotar sem CNH.


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O esporte que surgiu nas periferias ainda é visto com maus olhos pela sociedade, mas, para os adeptos, é sinônimo de lazer e socialização. Pamela conta que não "dá grau" nas ruas da cidade, já que a prática nas vias públicas é considerada infração gravíssima e pode colocar vidas em risco. 

A jovem e outros motociclistas adeptos do esporte se encontram em lugares afastados. Ela explica que o domingo é conhecido como "dia internacional do grau", já que eles passam a semana esperando pelo momento em que vão empinar as motos. 

"A primeira vez que a pessoa empina, mesmo que seja na garupa, não tem como não se apaixonar. É uma experiência fora do normal. O grau é uma paixão e, para mim, é o melhor esporte do mundo. A galera é muito unida, todo final de semana estamos juntos. Hoje é feriado, daqui a pouco está todo mundo lá". 

Mesmo escolhendo lugares afastado da região central da cidade, Pamela conta que os policiais descobrem a localização e, muitas vezes, os participantes precisam fugir ou acabam detidos. Como a cidade é pequena, jovem explica que já está "marcada" pelos policiais. 

"Já fui detida várias vezes, oito mais ou menos. Não foram todas as vezes com a moto que tenho hoje, acho que já tive uma seis e fui presa empinando com todas elas. Um policial, uma vez, me disse que nunca gostaria de mim, falei para ele que um dia conseguiríamos uma pista de grau. Tenho muita fé em Deus que vamos conseguir". 
 

O sonho da pista de grau

A influenciadora sonha com o dia em que o grau e seus adeptos serão respeitados em Nova Mutum e outras cidades de Mato Grosso. Pamela usa como exemplo a movimentação realizada em Belo Horizonte (MG), conhecida como a "capital do grau".

Um projeto de lei dos vereadores Bim da Ambulância (PSD) e Léo (União) foi aprovado em julho deste ano. A ideia é de que as manobras e acrobacias serão permitidas apenas como prática esportiva executada em locais adequados.

Em março deste ano, um decreto destinou um espaço específico para o grau em Belo Horizonte. Uma área de 58.776 m² na Avenida Professor Clóvis Salgado, no Bairro Bandeirantes foi concedida à Associação Mineira dos Motociclistas de Esportes Stunt e Grau Astung.

"BH é a cidade do grau, aqui em Nova Mutum não conseguimos nada, não tem apoio, é discriminação total mesmo, acham que somos todos bandidos só por praticar esse esporte. Nunca fui detida por outra razão, só por causa do grau". 

A paixão de Pamela pelo grau começou quando ela ainda era menor de idade. Foi com o ex-marido, pai das duas filhas mais velhas dela, que a influenciadora descobriu a sensação de empinar a moto, mesmo que ainda na garupa. 

"Eu tinha uma 125 na época, ele empinava. Uma vez eu estava na garupa e ele empinou, naquele dia decidi que ia aprender. A moto não pesada, as pessoas pensam que vamos erguer na força e não é: queimou um pouquinho a embreagem e acelerou, a moto já vem com tudo, é muito leve". 
 

Pamela garante que há como empinar a moto com segurança para garantir acidentes graves. Logo quando começou no grau, a influenciadora caiu algumas vezes, mas nada que fizesse a paixão pela prática acabar. O luto pela morte da mãe também influenciou a jovem. 

Assim como a filha, a mãe de Pamela gostava de carros e motos desde a juventude. Em algumas oportunidades, a influenciadora andou na garupa dos amigos da mãe e desenvolveu os primeiros laços com o mundo automobilístico. Com a morte da mãe, ela sentiu ainda mais vontade de começar a pilotar. 

Trabalho de influencer 

O feed do Instagram de Pamela é composto por fotos e vídeos dela pilotando, em alguns a influenciadora chega a ficar em pé no banco da moto, além de imagens sensuais e das três filhas. Há sete meses, ela deu à luz a terceira menina e se orgulha de criar as três sozinha. 

"Sou mãe solo, não posto muito sobre isso porque não gosto de dar mídia para o meu ex, mas as pessoas aqui da minha cidade entendem o que estou passando. Ele fala que a bebê não é filha dele". 

Foi há cinco anos que Pamela entendeu que poderia ganhar "dinheiro de verdade" na internet. A primeira parceria foi fechada com uma marmitaria da cidade e não demorou para que outras aparecessem. 

"Acho que já faz uns quatro anos que tenho a parceria, foi com a marmitaria Saborear. A segunda foi com o filho da dona de lá, no Point do Açai. Tudo que faço prospera demais, meus seguidores são muito ativos e me ajudam muito". 

Pamela brinca que até o gato dela, chamado "Miguel do Grau" ficou famoso em Nova Mutum. Quando vai levar ou buscar as filhas na escola, elas também são reconhecidas. A influenciadora criou perfis no Instagram para todos, até para Miguel, todos terminam com "do grau". 

No perfil destinado para o gato, Pamela publica fotos do felino usando roupas da Lacoste, marca que ela diz ser apaixonada. Quando questionada se mora apenas com as filhas, a influenciadora faz questão de lembrar que Miguel também vive na casa e faz parte da família. 

"[A Internet] mudou nossa realidade, todo lugar que vamos as pessoas conhecem. Todo mundo é apaixonado pelo Miguel do Grau. Ele tem quase 2 mil seguidores". 

Pamela diz que, apesar de não ter o apoio da família no estilo de vida que escolheu levar, tenta não se afetar com os comentários negativos. A jovem pretende continuar usando o Instagram para conseguir sustentar a família, assim como não tem planos de deixar o grau. 

"Faço as minhas doideiras, me chamam de rodada, sem noção e descuidada, dizem que não me importo com minhas filhas, mas não é assim. ​Me identifico como má influiencer só pelo grau ser uma prática que ainda é ilegal". 
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