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Chorofunk, um pancadão irresistível na cara dos 'tradicionalistas'

O Globo

04 Jun 2013 - 14:00

Foto: Reprodução

Chorofunk, um pancadão irresistível na cara dos 'tradicionalistas'
Um passo à frente e você nao está mais no mesmo lugar, já dizia Chico Science. O caso de Sergio Krakowski poderia ser considerado um mau passo: onde já se viu, senhoras e senhores, misturar o sagrado choro de Pixinguinha ao tamborzão de Sany Pitbull? Os "tradicionalistas", obviamente, detestaram, mas Krakowski fez o que já fazia com seu antigo grupo, o Tira Poeira: deu de ombros e foi em frente. Hoje e amanhã, ele mostra seu Chorofunk, uma poderosa mistura de suíngue, harmonia, melodia, contrapontos e levadas inesperadas, na Caixa Cultural, acompanhado pelo grupo de dançarinos Fantásticos do Passinho, com uma intenção bem clara: "Eu me detenho àquilo que acredito ser a verdadeira força do Funk: o Som, o que não deixa ninguém ficar parado."

Clique aqui e assista um vídeo do Choro Funk

FAVOR não confundir com as misturebas tóxicas de samba e rock que andam sendo feitas por aí sem o menor critério. O Chorofunk é um projeto instrumental que expõe uma visão original sobre dois gêneros aparentemente inconciliáveis - só que não, clique no vídeo abaixo para comprovar:

Ou seja, o projeto de Krakowski é fruto de muito estudo e uma percepção de quem tem as antenas abertas - própria, aliás, do choro, como ele explica, via Facebook, na entrevista abaixo. De quebra, fala também do Coletivo Chama, reunião de músicos como Pedro Moraes e Thiago Amud interessados em "trazer à tona" diversas formas inovadoras de música, "de John Cage a Noel Rosa". E de seu primeiro trabalho solo, o interativo "Carrossel de pássaros".

Onde você viu que o choro e o funk poderiam formar um belo casamento?

Estava em Paris. Às vezes precisamos nos afastar fisicamente para percebermos o que é evidente ao nosso redor… Estava cursando um ano do meu doutorado em computação musical lá fora e a questão central era qual estilo de música eletrônica se prestaria aos experimentos que eu estava desenvolvendo. Era necessário dialogar através da percussão e os ritmos eletrônicos europeus me soavam duros demais. Um dia, ao escutar a introdução do "Assanhado" de Jacob do Bandolim tocado pelo Época de Ouro, percebi algo espantoso, a célula rítmica dos violões é quase idêntica a célula rítmica do Tamborzão. Caiu a ficha.

Como estão as preparações para a próxima apresentação do Chorofunk? Vocês terão também os meninos do Passinho?

Dessa vez, estamos preparando um espetáculo diferente do que apresentamos nos últimos anos. Teremos a presença dos Fantásticos do Passinho, e todos os arranjos foram adaptados para fazermos a galera não ficar parada. Portanto quem quiser escutar e dançar, venha à Caixa Cultural (Rua Almirante Barroso, 25, Centro) nesta terça e quarta-feiras (dias 4 e 5 de junho, às 19h).

Como o pessoal do choro percebe a mistura? Já recebeu críticas por juntar um gênero 'nobre' a uma manifestação que ainda gera reações preconceituosas?

O pessoal mais aberto às inovações curtiu muito. O pessoal "tradicionalista" mais radical já não gostava da minha forma de tocar pandeiro antes, no Tira Poeira, imagina quando ouviu o Chorofunk! O fato de eu escutar e ser influenciado por idéias externas ao Choro, vindas do Côco, do Frevo, do Jazz ou da música erudita do século XX, por exemplo, me fizeram buscar uma expressão diversa do usual. Além disso não encaro a percussão como um coadjuvante, acredito que todos os músicos devem dialogar, o que inclusive está de acordo com a linguagem contrapontística do Choro. Por tudo isso, muitos "tradicionalistas" não me respeitam, apesar de eu respeitá-los muito.

O Tamborzão é tambor, é a expressão eletrônica do que está na fundação, nos alicerces da nossa música. Qualquer um que estiver interessado em perfurar a superfície erotizada de suas letras, consegue ouvir na sua base percussiva várias células rítmicas provindas dos sambas de roda, das rodas de capoeira, do Maculelê, do Congo, Cabula, ou Barra Vento. Não tenho interesse em propagar a violência das letras do Funk. Chorofunk é um projeto instrumental, e me detenho àquilo que acredito ser a verdadeira força do Funk: o Som, o que não deixa ninguém ficar parado.

E do lado do funk? Como o povo recebe o projeto?

Do lado do Funk a galera se amarra. Acho que estão menos preocupados em definir o que é certo ou errado...

Eu lembro de um encontro do Tira Poeira com Sany Pitbull num Tim Festival, em 2008, se não me engano. Vem dali a origem do Chorofunk?

Como disse, o projeto nasceu de uma idéia que tive em 2007 quando ainda estava em Paris. Nessa época o Tira Poeira estava para gravar seu segundo disco e resolvi propor para eles de fazermos essa primeira experiência quando ainda nem cogitava a criação do projeto com esse nome. O Tira Poeira aceitou e chamei o Sany Pitbull para participar da faixa "O morro não tem vez" no álbum Feijoada Completa. Por isso o Sany nos convidou a fazermos essa música no TIM Festival. A partir daí o projeto começou a tomar cara e se distanciou da proposta do Tira Poeira, assumindo sua identidade própria. Atualmente estamos totalmente reconfigurados, com três sopros (Dudu Oliveira, Yuri Villar, e Thiago Queiroz), bandolim (Henry Lentino) e o DJ Bruno Queiroz, com quem pude aprofundar muito a análise da música eletrônica e que se tornou parceiro dos arranjos.

Como você vê o Chorofunk inserido no contexto cultural do Rio de Janeiro atual?

Faço parte do Coletivo Chama, um grupo de compositores que desde o ano passado está promovendo diversos eventos no Rio de modo a trazer à tona uma música inovadora e que estava fora do foco midiático até pouco tempo. Os projetos musicais de Pedro Moraes, Thiago Amud, Ivo Senra, Cezar Altai, Thiago Thiago de Mello e Renato Frazão formam um mosaico que inclui o Chorofunk. A melhor maneira de explicar qual a proposta do Coletivo é convidar o leitor a escutar a Rádio Chama, que vai ao ar todas sextas, às 20h, na Rádio Roquette Pinto(www.chama.podomatic.com). Lá tocamos de Vivaldi a Radiohead, de John Cage a Noel Rosa, de Funk a Stockhausen, além de novos compositores brasileiros. No entanto, vale ressaltar que as músicas de cada programa se encaixam dentro de um discurso poético coeso ao redor de uma temática definida. Nossa busca é pela síntese e usamos o potencial da diversidade contemporânea em nome disso. O Chorofunk age usando esse mesmo princípio, e, se acaba unindo mundos diversos, é em busca de um som que exprima de fato a essência do que vivemos nos tempos atuais.

O projeto também inclui vídeo e dança. Quantas apresentações já fez? Como costuma ser a reação do público diante de tanta informação nova?

Já fizemos muitos shows e temporadas na Lapa, em casas como o Leviano, Bar da Boa e Clube dos Democráticos, e alguns shows no Circo Voador. Rodamos também pelo interior do Estado, com uma recepção ótima! O público carioca, apesar de não estar tão acostumado com essa proposta multimídia, sempre responde com muito entusiasmo ao que trazemos nos espetáculos.

O disco 'Carrossel de pássaros' é também um projeto interativo. Qual é a relação da sua música com a tecnologia?

A tecnologia sempre me fascinou. No entanto, a máquina é apenas um meio para que as expressões artísticas se tornem mais potentes, e não as vejo como o foco do objeto artístico.

O "Carrossel de Pássaros" já é uma busca totalmente diferente. Sendo meu primeiro projeto solo, decidi me ater exatamente ao que não é tecnológico e mostrar apenas o meu universo "musical-acústico". Precisava deixar essa obra feita para poder dar continuidade à busca pela expressão multimídia. Trata-se de um disco com 26 convidados onde a metade deles é estrangeira, e portanto me pareceu natural concebê-lo como uma página na internet (www.skrako.com), que pode ser acessada em qualquer lugar do mundo. Além disso, cada faixa do disco se liga à seguinte sem interrupção, e a última se liga à primeira. É portanto um ciclo musical infinito, e para que isso se tornasse real, eu precisei utilizar o meio virtual (paradoxalmente…).
Agora que o "Carrossel de Pássaros" está criado, e será lançado em breve, ainda este ano, posso me focar nessa investigação a respeito de arte e tecnologia. Por isso, parto para uma temporada em NY logo após os dois shows do Chorofunk na Caixa Cultural.

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