Olhar Conceito

Sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Colunas

Sá de Miranda: o metafísico pedregoso

Danilo Bezerra

[Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que não é meu objetivo desenvolver aqui, e que não me caberia alcançar em meia página de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

É verdade que a recepção de muitos artistas sofre mudanças drásticas ao longo das décadas, dos séculos e dos milênios, de modo que sobre um artista aclamado recai por alguns anos a sombra do quase anonimato, para depois dar ela lugar à luz, que por sua vez dá outra vez lugar à sombra e assim por diante na móvel paisagem da arte mundial. Do mesmo modo, algumas características específicas de um artista são vistas por anos como um grande defeito na sua produção, e depois são tidas como o mais genial traço de seu modo de criar arte. Tudo se modifica no mundo, menos o fato de ele se modificar.

É esse o caso de Sá de Miranda (1487-1558), poeta português cuja recepção sempre oscilou (e oscila) mais do que o normal no decorrer dos séculos. Foi de poeta desdenhado a poeta que, segundo Augusto de Campos em “o anticrítico”, era ‘[...] primo / pobre de camões, / melhor que camões’. Ou seja, sua poesia é rebaixada e celebrada de modo quase exagerado séculos afora. De qualquer forma, seus poemas mais lidos talvez sejam os antológicos “Comigo me desavim” e “O sol é grande, caem co’a calma as aves” – alguns dos pontos mais altos da poesia em língua portuguesa em qualquer época (reproduzo aqui os poemas tal qual foram estabelecidos por Marcia Arruda Franco na edição de 2011 da Angelus Novus Editora):

“Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia
Antes que esta assim crescesse
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo?
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?”


“O sol é grande, caem co'a calma as aves,
Do tempo em tal sazão, que sói ser fria:
Esta água que d'alto cai acordar-m'-ia?
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas todas vãs, todas mudaves!
Qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
Incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
Vi tantas águas, vi tanta verdura,
As aves todas cantavam d'amores.

Tudo é seco, e mudo, e de mistura,
Também mudando-m'eu fiz doutras cores,
E tudo o mais renova, isto é sem cura.”

Sá de Miranda participou ativamente de um momento decisivo da poesia em língua portuguesa: a introdução da cor e dos metros italianos na poesia feita até então, de modo a criar um novo modo de escrever que não era nem o italiano nem o ibérico de antes, um modo de escrever que ficou suspenso entre os dois, suspenso nesse não-lugar que mais tarde se tornou justamente o lugar da poesia portuguesa.

Pioneiro nessa transição do modo de fazer poético em Portugal, Sá de Miranda foi e ainda é muito criticado pelo ritmo difícil de seus poemas, ritmo esse que é tido como uma tentativa falha de imitar aquele das formas poéticas italianas. Ou seja, normalmente se diz que Sá de Miranda tentou e falhou (e que Camões, que era 37 anos mais novo do que Sá de Miranda, teria tentado o mesmo, porém com grande sucesso); diz-se que Sá de Miranda simplesmente não tinha ouvido bom para o ritmo, mas que outras características positivas justificavam o interesse por sua obra.

Exemplo desse ritmo “pedregoso” e difícil (expressão que nos traz à mente o poema “Oficina Irritada” de Drummond, que em diversos momentos de fato faz alusões à poesia de Sá de Miranda – vide o título da Parte I do seu livro “Claro Enigma” [1951]) é o soneto “O sol é grande, caem co'a calma as aves” reproduzido acima, no qual as sílabas tônicas em lugares inusitados e as elisões obrigatórias e estranhas (vide as elisões necessárias no verso ‘Esta água que d'alto cai acordar-m'-ia?’ da primeira estrofe) dificultam a leitura que se pretendia fluída.

Esse modo de ler Sá de Miranda (que via em seu ritmo difícil um defeito) sofreu uma mudança drástica séculos depois, quando em pleno século XX o interesse dos artistas pelas assonâncias, pelo seco e áspero, pela falta de constância, pelo som fragmentário – enfim, o interesse dos artistas por tudo aquilo que estilhaçava a noção anterior de “belo” – trouxe à tona a truncada e difícil poesia de Sá de Miranda, e viu justamente nessa rudeza de ritmo uma de suas maiores qualidades. É impossível não pensar na poesia que se fazia durante o século XX e que se tentava escrever em busca justamente de um ritmo truncado (não necessariamente por influência de Sá de Miranda, é claro), como na de João Cabral de Melo Neto ou na de Jorge de Sena – poesias de ritmo árido, duro como pedra, truncado como um caminho pedregoso. Ou seja, o oposto da sonoridade redonda e fluída de uma Sophia de Mello Breyner Andresen ou de uma Cecília Meireles, por exemplo (para citar apenas poetas do século XX).

As opções rítmicas são todas interessantes, e configuram uma escolha estética e (até) moral do poeta, sendo então importante estar atento e receptivo à grande variedade de ritmos na poesia de nossa língua.

Seja como for, na recepção literária do século XX Sá de Miranda passou de poeta de ritmo falho a poeta de ritmo laborioso, ritmo interessante. Admirando ou não o ritmo de seus poemas, o leitor tem de reconhecer a inegável sofisticação dos raciocínios lógicos desenvolvidos nos versos de Sá de Miranda, assim como a também inegável modernidade (ou eternidade, como diria o velho Drummond) do conflito do homem consigo mesmo.

Talvez esteja aí o grande feito da difícil poesia de Sá de Miranda: a recriação artística do campo de tensões e contradições que é a mente do homem que quer e não consegue se harmonizar (porque não é - nem nunca foi - possível) consigo mesmo e com o mundo que o rodeia, fere e beija.

“Tornou-se-me tudo em vento
Após tormento, e tormento,
Que eu passei cuidando em al.
Enfim veio cedo o mal
E tarde o conhecimento.
Eu assim desenganado,
Vejo vir males maiores:
O tempo a que sou chegado!
Que posso doer às dores,
E dar cuidado ao cuidado.”

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*A coluna Rubrica, publicada às segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Guménin Barreto. Matheus Guménin Barreto estuda literatura alemã na USP, escreve sobre literatura para jornais do estado de Mato Grosso, é tradutor e escreveu um livro ainda inédito de poemas, que sairá entre 2016 e 2017.

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