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Segunda-feira, 02 de agosto de 2021

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TUIUIÚ POÉTICO

Jornalista vai à "caça" de tuiuiús para vivenciar a poesia de Manoel de Barros

Stéfanie Medeiros

03 Jun 2013 - 15:10

Foto: Jardel Arruda/Stéfanie Medeiros (fotos galeria)

Jornalista vai à
"Todas estas informações têm soberba desimportância científica: No achamento do chão também foram descobertas as origens do voo. A chuva deformou a cor das horas. Nas brisas vêm sempre um silêncio de garças. O voo do Jaburu é mais encorpado do que o voo das horas. Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos pássaros que a gorjearam".

Estes versos do poeta Manoel de Barros geralmente são admirados, raramente sentidos. Isto porque os lemos sentados em uma cadeira confortável, longe de mosquitos, de garças, de jaburus, de capivaras. Longe da natureza e do Pantanal que transborda do livro. No início de maio, em uma oportunidade ímpar fui tentar ver na fauna e flora o que Manoel de Barros queria dizer.

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A pousada Araras Eco Lodge fazia jus à sua reputação de refúgio ecológico: conforto apenas o suficiente, mas sem suprimir o ecossistema à sua volta. Na verdade, o estabelecimento espremeu-se entre um brejo e outro para não espantar os animais. E podíamos vê-los em todo canto. Andando uma noite entre as trilhas de pedra, vi uma das capivaras dormindo no gramado de barriga para cima, parecendo o meu cachorro de apartamento. O Araras incorporou-se ao Pantanal, e passou a fazer parte dele.

Mas estranhei um fato: Onde estavam os tuiuiús? Estampados em todas as camisetas, chapéus, chaveiros, pendurados em quadros nas paredes e encravado nos bancos de madeira, o único vislumbre que tive desta ave durou segundos, porque ela estava muito distante, voando muito alto e rápido. Os tuiuiús não deviam estar tomando café da manhã com a gente, de tão abundantes naquela região?

Entre um atividade e outra, esqueci o assunto. Eram tantas coisas a fazer, tantas pessoas interessantes a se conhecer, que, apesar de as horas durarem pequenas eternidades no Pantanal, cada minuto ficava ocupado. Fiz amizade com Catherine Hamilton, artista nova-yorkina e observadora de pássaros, passava a tarde caminhando pelas trilhas com o grupo de coaching, concentrava-me para não deixar a canoa virar no rio cheio de jacarés, observava a equipe de reportagem da CNN trabalhando, tentava não pensar quando o jantar seria servido, tirava fotos de qualquer coisa que se mexesse. E se nada se movimentasse, tirava fotos também.

Até que o grupo de coaching foi embora, e o jornalista e companheiro de viagem Jardel Arruda e eu decidimos fazer um passeio de cavalo. Pensei que seguiríamos uma trilha de terra, mas quando já estava no lombo de Shakira, meu cavalo dócil e distraído, percebi que cavalgaríamos por entre os brejos, em meio aos jacarés, plantas e possíveis piranhas carnívoras.

O guia Edson Mendes da Silva, 35 anos, foi à frente do grupo, abrindo o caminho. Seu cavalo parou três vezes no percurso: Jacarés bloqueavam a passagem, e para não pisar neles e sermos mordidos, desviávamos pela vegetação. Fazendo a guarda traseira estava o garçom Lidiano Gonçalves, 28 anos, que, em suas horas livres, sempre acompanhava um grupo que estivesse saindo à cavalo.

“Os jacarés não mordem os cavalos?”, perguntei a Edson. “Às vezes mordem. Quando os cavalos pisam em cima, já aconteceu de eles morderem”, respondeu. Fiquei pensando se eles não me morderiam também, caso um destes répteis se camuflassem tão bem que Shakira não os visse. “E já morderam pessoas também?”, perguntei novamente. “Nesse passeio não”, respondeu Edson.

Mas a preocupação em ter um pé arrancado logo passou. Como saímos um pouco mais tarde do que o previsto, o sol estava se pondo e nós ainda estávamos na metade do passeio de duas horas. E de repente olhei para o lado: lá estava um tuiuiú parado no meio do brejo, descansando. Quando chegamos muito perto, a ave gigantesca, parecendo um descendente de dinossauro, saiu voando. Então era ali que estavam os tuiuiús. Passamos por pelo menos mais três destes pássaros. Na rota final, um casal se banhava em um dos brejos, calmos, honestos, pantaneiros.

“A cidade mancava de uma rua até certo ponto, depois os cupins a comiam”, como diria Manoel de Barros. Dos cupins em diante, estava o Pantanal. A pousada, por mais que interaja com a natureza, fez mais que isso: proporcionou um ponto de encontro de onde as pessoas podem partir para além de onde os cupins comeram. E era ali que estava a poesia de Manoel, ali que estava o ecossistema não virgem, mas puro. Era ali que os tuiuiús moravam.

Meus olhos marejaram da mesma forma que o fazem ao lerem um poema do poeta pantaneiro. O sol tocava o chão, todo o tipo de ave começou a aparecer. E de uma vez por toda entendi: “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas, é de poesia que estão falando”.

Mas se você não entende de poesia, não tem problema. É o desentendimento que importa. No mais, por mais sinceros que os versos sejam, e por maior seja o orgulho de vê-los estampados no brejo pantaneiro, nada disso é necessário para se incorporar no Pantanal. A beleza se traduz e a gente desentende.

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