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Tiroteio de informações: a “quebrada” produz conteúdo e a independência jornalística nas redes

De Brasília – Lucas Bólico

14 Ago 2015 - 14:45

Foto: Fundação Banco do Brasil

Leandro Fortes fala Paulo Motoryn ao fundo

Leandro Fortes fala Paulo Motoryn ao fundo

Se dependessem da cobertura dos veículos tradicionais de imprensa, os moradores do Complexo da Maré, favela do Rio de Janeiro, talvez conseguissem poucos segundos em uma matéria de televisão para criticar a operação policial no local, com uma breve fala espremida entre a do comandante da polícia, a de algum representante do Governo do Estado e dados oficiais repassados pela Segurança Pública, processados pelo jornalista. O conteúdo seria semelhante em um jornal impresso. A narrativa, no entanto, é completamente diferente na página do Facebook Maré Vive, na qual os próprios moradores informam o que acontece diariamente no local, opinam e estimulam a opinião dos demais moradores, trazendo a comunidade para protagonizar o debate sobre o que ocorre no espaço público.

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Esse é um recente caso de sucesso de midiativismo no Brasil. Seu alcance revela sua relevância, são quase 35 mil pessoas conectadas ao feed de notícias da comunidade e o número de pessoas que têm acesso a esse conteúdo se multiplica a cada nova curtida, compartilhamento ou comentário no que ali é publicado. O sucesso é tanto que o Palácio do Planalto está de olho na iniciativa. Esse foi um dos exemplos usados por Paulo Motoryn, coordenador de comunicação da Secretaria Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência da República, durante o 9º Encontro de Jornalistas da Fundação Banco do Brasil.

Paulo Motoryn dividiu o microfone com o jornalista Leandro Fortes (Correio Brasiliense, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, O Glovo, TV Globo, Época e Carta Capital) para discutir a mobilização e o protagonismo nas redes sociais. Enquanto Motoryn destaca as novas ferramentas de comunicação como um meio de democratização da produção de informação, dando voz às periferias como emissárias de conteúdo, Fortes destaca a possibilidade de uma produção jornalística mais semelhante à tradicional, mas com liberdade editorial, com o jornalista gozando exercendo a livre apuração, sem ser barrado pelo interesses do veículo em que trabalha.

“Os jornais são cheios de cargos, de hierarquias, de camadas. A apuração acaba passando por esses filtros e em comunicação a gente sabe que quanto mais filtros, mais ruídos acontecem”, critica Leandro Fortes. Ele citou alguns crimes investigados em que empresas de comunicação são apontadas como envolvidas, inclusive em operações da Polícia Federal (Zelotes, por exemplo) e criticou o fato de esses casos não estarem no debate público, pelo simples fato de a sua divulgação atentar contra os interesses de quem detém os meios de comunicação. Essas mesmas empresas investigadas por irregularidades, como sonegação de impostos, levantam em público uma bandeira de combate à corrupção.

Tanto na perspectiva de dar voz aos excluídos ou liberdade de apuração em temas ostracizados pela grande imprensa, o midiativismo é uma atividade recente e que ainda busca maneiras de se sustentar e ganhar força. O trabalho em cooperativa é uma saída, com estruturas de comunicação horizontais e fluxo de informações transversais. No caso do Complexo da Maré, por exemplo, a narrativa acontece em tempo real. A página foi tema de reportagem da Folha de S. Paulo intitulada: “No Complexo da Maré, um celular põe mais medo que um fuzil”. Seu alcance hoje supera e muito os limites da “quebrada”. Ali se sabe se esta acontecendo um tiroteio, em que rua, quem foi atingido. Na velocidade de uma bala. Ou de um clique.
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