Olhar Conceito

Sexta-feira, 30 de outubro de 2020

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Espetáculo "Pai Eterno" testemunha a surpresa, revolta e culpa de um pai em relação ao filho

Juliana Capilé, Especial para o Olhar Conceito

06 Mai 2013 - 10:29

Espetáculo
O Palco Giratório 2013 iniciou com o espetáculo “O Filho Eterno”, da Cia Atores de Laura (RJ). O monólogo escancara a alma de um pai que se debate para aceitar a existência do filho com Síndrome de Down. A surpresa, a revolta, a culpa e a vergonha; tudo revelado sem o menor pudor.

O choque em ouvir o ponto de vista mais cruel é atenuado pelo discurso em terceira pessoa, levado com muita competência pelo ator Charles Fricks, que narra ao mesmo tempo em que executa a ação, o que revela o distanciamento do personagem Pai em relação ao seu filho inesperado e indesejado: Felipe, o único nome revelado na história.

Esse efeito de distanciamento, calcado nos estudos de Bertolt Brecht, também sugere que o ator-narrador está apontando para a história que narra, revelando seus pormenores, segredando ou acusando, mas acima de tudo, expondo o personagem para a plateia.

O espetáculo tem esse tom confessional e transforma os espectadores em cúmplices, e executando nosso papel, engolimos em seco as ofensas preconceituosas e quase hitleristas disparadas contra a criança recém-nascida, na esperança de que uma hora ou outra esse Pai vai entender. Variamos entre a piedade e a identificação. Ouvimos a versão da ciência sobre os portadores da Síndrome de Down e junto com esse diagnóstico, todo tabu da inteligência perfeita e apropriada.

Como o espetáculo parte da história se passa nos anos de 1980, constatamos o quanto nossa sociedade pouco sabia sobre pessoas diferentes e o quanto tantas famílias sofreram com isso, fato que empurra a montagem para o teatro-documentário, ou biodrama.

Outra característica de biodrama é o fato de que a história se baseia no livro autobiográfico de Cristóvão Tezza, apesar de o autor preferir que sua obra seja recebida como romance. Biodrama ou não, o espetáculo assim como o livro, ganha por se concentrar no problema e não na solução. Aquele Pai que estava na nossa frente assumia para si toda a ignorância do mundo, pois era ele quem se debatia buscando a aceitação. Bastante interessante o jogo de espelhos da realidade de Pai e filho; desde o início o Pai se revela um “sustentado pela mulher, em todos os sentidos”, desempregado, sem maiores competências. Como escritor fracassado, se defendia do que não podia suportar com um comportamento piadista e falsamente alegre. Ele mesmo se mostra como um desajustado socialmente, e ri disso muito facilmente. Semelhante a uma fita de Moebius, essas características são as mesmas que o incomodarão no filho; sua preocupação será com a incapacidade do filho de arrumar emprego, sua dependência, sua fraqueza física, sua despreocupação, e sua alegria.

O que o incomoda no filho é justamente a semelhança com ele mesmo; é o reconhecimento de que Felipe é uma nova versão de sua própria pessoa. A montagem reforça uma visão científica carregada de preconceito, salientando que “no final dos anos 80 ninguém sabia o que era Síndrome de Down; chamavam de mongoloide”, cheia de impropérios que soavam como verdade para o Pai, que não consegue oferecer uma segunda opinião. Fica a encargo do espectador deixar minar a outra verdade sobre os portadores da Síndrome de Down, a outra verdade sobre Felipe. Impassíveis, deixamos o Pai se debater, e como Felipe, recebemos toda a intolerância que ele tem para nos atirar.

A direção de Daniel Herz é de uma simplicidade desconcertante, colocando em cena apenas o Pai “sozinho, como sempre esteve na vida” e uma cadeira, que representa a única pessoa que realmente importava em sua vida: ele mesmo. No final o palco recebe mais uma cadeira; é Felipe finalmente aceito. A iluminação é cirúrgica, pontuando precisamente os efeitos do ato de se debater, mas não revela nada além da confissão da personagem. Alías toda montagem se concentra nesta confissão estertorada, impedindo a distração da platéia, que sai com uma sensação de que o que não podemos mudar acabamos por nos acostumar e aceitar, como este Pai e seu Filho Eterno.

*Juliana Capilé é atriz e diretora teatral da Cia Pessoal de Teatro e integrante do Coletivo à Deriva

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