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era do consentimento

Cecília Neves fala sobre máscaras, covardia e a aldeia dos solitários: o facebook

Especial para o Olhar Conceito - Cecília Neves

15 Dez 2013 - 12:00

É divertido se envolver com pessoas sem se apaixonar, sem compromisso emocional ou coisas do tipo. É divertido enquanto dura, o que geralmente não é muito. Este tipo de relacionamento casual e descompromissado serve para inflar o ego, aumentar a auto-estima e dar um ar aventureiro ao cotidiano enfadonho. Mas não é sobre isso que quero falar. Aguente mais um pouquinho, leitor. Acompanhe o raciocínio.

Olavo adorava esse tipo de coisa. Mas não tinha coragem de dizer que não queria se envolver. Inventava histórias, navegava por linhas de pensamento sem fim e, quando nada dava certo, desaparecia. Deixe-me contar um pouco mais sobre Olavo.

Olavo era daqueles meninos que tinha todas as características do estereótipo de homem bonito, mas, de alguma forma, nele estas características não se harmonizavam completamente, formando um todo comum.

O que eu quero dizer é: ele não tinha uma beleza excepcional.Mas transmitia confiança. Quando você fala, ele realmente fixa os olhos azuis em você, no seu rosto, olho a olho. É daquelas pessoas que quando você vai se despedir, realmente se despede. Não finge dar um beijo: Segura seu rosto com as duas mãos e dá um beijo digno do nome. Ou seja, ele sabia o que estava fazendo. Ou era o que parecia.

Toda aquela segurança na verdade era uma forma de esconder a covardia e um medo quase patológico de ficar sozinho. Quando ele estava com alguém, na verdade tinha pelo menos mais três meninas em “stand by”. Ele não conseguia admitir para nenhuma delas que não ficaria com elas, mas que também não queria que elas fossem embora. Eu, com meus 18 anos, era uma dessas meninas que não sabia muito bem o que estava acontecendo.

Mas somos a geração Y. Somos rápidos, egoístas, prepotentes e extremamente inseguros por trás de uma máscara de arrogância inabalável. E esta insegurança fez com que Olavo me contasse toda a verdade através do facebook. E é aqui que eu queria chegar: no facebook.

A linha do tempo é cheia de fotos, sorrisos, bebidas, mensagens, mas, mais que tudo isso, indiretas. Hoje em dia não brigamos, mandamos indiretas no facebook. Anunciamos o “não-dizível” através das redes sociais, porque mesmo quando combinamos de não nos envolver, nos envolvemos o suficiente para ter medo da reação das pessoas.



Olavo, na verdade, não me contou que estava namorando. Só atualizou seu status de relacionamento no facebook e deixou que a tecnologia fizesse seu serviço. Depois me contou toda a história. E depois percebi que, mesmo assim, não queria perder as meninas que estavam em “stand by”. O medo de ficar sozinho era realmente patológico. A geração Y tem que ser reverenciada constantemente.

Mas o facebook, portador de todos os tipos de notícias e cheio de mensagens amarguradas é, na verdade, uma aldeia de solitários onde tudo o que se diz é o que vale. Um namoro, se não estiver anunciado como “relacionamento sério”, é algo que não conta realmente. “Não está no facebook”...

Eu e Nikolai estamos juntos há quase três anos. E há mais ou menos dois meses colocamos o status no facebook. E só a partir de então muitas pessoas começaram a considerar o namoro de dois anos e meio como algo sério. “Agora é oficial, ein”, foi o que disseram.

A gente esquece que as coisas que são postadas no facebook, por vezes, são retalhos que as pessoas colocam na máscara que usam para esconder a solidão, a tristeza, a insegurança e o medo. Em uma aldeia de solitários, falar a verdade pode ser fatal. E eu não estou culpando ninguém e falando que eu estou acima disso. Pelo contrário, devo ser um caso clínico de não conseguir expressar com sinceridade o que penso.

Mas acho que todos são assim. Ninguém fala o que realmente está pensando. Mas como Olavo, damos dicas no facebook esperando que a nossa voz falha, por trás de todos aqueles retalhos, seja ouvida por alguém. Nosso grito de desespero não pode ser honesto e aberto, mas está lá na linha do tempo. E por isso existe: Porque de uma forma ou de outra, contamos para alguém.

*Cecília Neves é escritora, curiosa sobre o sexo, relacionamentos e idiossincrasias humanas. Ela escreve no Olhar Conceito aos domingos e quer que você compartilhe experiências pelo e-mail cecilia.neves25@gmail.com. Para acompanhar mais textos de Cecília, curta a página “Era do Consentimento” no facebook clicando aqui.




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