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Segunda-feira, 13 de abril de 2026

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307 anos da capital

Moradores resistem em casarões centenários no Centro Histórico e guardam memórias da antiga Cuiabá: 'Praça Alencastro era o point da paquera'

Foto: Olhar Conceito

Moradores resistem em casarões centenários no Centro Histórico e guardam memórias da antiga Cuiabá: 'Praça Alencastro era o point da paquera'
As paredes grossas feitas com adobe, os pisos de ladrilho hidraulico e os móveis de madeira maciça que atravessaram gerações são parte dos casarões do Centro Histórico de Cuiabá, endereço que poucos cuiabanos ainda insistem em chamar de lar, movidos pelas memórias do passado que conta parte da história dos 307 anos da cidade, completados nesta quarta-feira (8). Há 70 anos, o professor de física Elzio José Vitório Pacheco segue vivendo como quem resiste. 


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Aos 73 anos, ele é parte de uma cidade que já não existe como antes, mas vive nas memórias das famílias nas calçadas da Rua Ricardo Franco em uma época em que todos os casarões dali eram ocupados por vidas. Atualmente, a realidade dos imóveis do Centro Histórico de Cuiabá não é mais a mesma, já que muitos estão abandonados. Mas, no aniversário de 307 anos da capital, são essas histórias antigas que ainda sustentam, em silêncio, o que resta de uma cidade que um dia foi inteira naquele pedaço.

“Eu ainda sou um dos insistentes que moram no Centro Histórico de Cuiabá, mas aqui, antes, todas as casas da rua tinham famílias morando”, conta Elzio. A memória dele percorre nomes, rostos e vizinhanças que desapareceram com o tempo. “Aqui do lado era a família do Seu Deodato Monteiro, na frente era o Seo Nei Aurélio de Campos, do outro lado era Seu Elias Rashid Jaudy.”

Professor Ezio se mudou para o Centro Histórico de Cuiabá quando tinha apenas três anos e cresceu na região. (Foto: Olhar Conceito) 

A casa onde vive, com mais de um século de existência, mantém a estrutura original. “É uma casa bem cuiabana, você entra e vê o fundo. Tinha um varandão, onde as pessoas que vinham de fora armavam as redes. Era como se fosse uma casa de apoio, o pessoal vinha de Chapada e São Vicente e ficava tudo aqui quando precisava ir ao médico”, lembra.

Nascido na Santa Casa de Misericórdia, Elzio se reconhece em uma das tradições mais simbólicas da identidade cuiabana, ser "cuiabano de tchapa e cruz". "Quando a criança nascia lá, a madre colocava uma chapinha no braço e uma cruz atrás da cama onde ficava a mãe com o filho. É uma das versões sobre ser cuiabano de tchapa e cruz, dessa eu faço parte", brinca o professor aposentado. 

As lembranças passam também pelo Praça Alencastro, que é lembrada por ele e pela vizinha, Eudes Cerqueira, de 69 anos, como um dos points da antiga Cuiabá. “A gente ia para lá para paquerar. Tinha retreta da banda, era o point da cidade. A gente se aprontava como se estivesse indo para uma festa.” Eudes lembra que os "vestido de Domingo" podiam ser usados apenas em duas ocasiões: ir à missa da Igreja do Rosário e passear no Jardim Alencastro. 

"Eu era mais nova, mas ia lá para passear e via os jovens paquerando. Minha mãe mandava eu passear com as crianças, meus irmãos menores, e eles eram encantados pela ‘Maria Preta’, ela era baixinha e gordinha, ela era adulta, mas era criança, brincava com todas as crianças. Então, eu ficava lá sentada vendo o passeio das jovens. As mulheres iam todas arrumadas, salto alto", lembra Eudes sentada em uma cadeira de balanço antiga na casa do vizinho de décadas. 

Eudes vive no Centro Histórico há mais de 40 anos em um casarão com paredes de adobe que guarda marcas do tempo. (Foto: Olhar Conceito) 

"A gente ficava em pé e as moças rodeando o jardim, quando a gente se interessava por alguma, dizia: posso dar uma volta com você? A gente se aprontava como se estivesse indo para uma festa", conta Ezio ao resgatar a forma que os cuiabanos paqueravam. 

A poucos metros do casarão centenário em que Ezio mora, a Praça da Mandioca ocupa lugar central na memória de quem permaneceu. Para Eudes, que mora na região desde a infância, o espaço é parte da própria vida. “Nasci em Nortelândia, mas vim para cá com seis anos. Meu pai mandava a gente vir na feirinha da Praça da Mandioca, vinha todos os dias. A gente viveu isso aqui a vida inteira”, conta. “Meus filhos nasceram e cresceram aqui, foram batizados na Igreja do Rosário.”

Elzio reforça a importância do local, onde as árvores, hoje gigantes, foram plantadas pelas mãos dele, dos irmãos e do pai. “Não tem como falar de Cuiabá sem lembrar da feira da Praça da Mandioca. Era tradicional da cidade, enorme, vinha muita gente. Tinha de tudo.”

Com o passar dos anos, o espaço mudou. Eudes lembra de um período mais recente, marcado por transformações e estigmas. “Foi difícil quando a Praça da Mandioca virou a ‘lapa cuiabana’. Eram muitos bares, ficava lotado até de manhã. Virou ponto de drogas, e começaram a criminalizar o Centro. As pessoas não queriam mais vir aqui.”

Ainda assim, a relação com o lugar nunca foi rompida. “A gente sempre cuidou daqui. Fundamos um bloco, ajudamos a reconstruir a praça quando ela estava abandonada”, diz Elzio. “Cada um deu sua parte. Eu doei cimento, outros ajudaram como podiam.”

Hoje, o que permanece é uma mistura de resistência e preocupação. “Não tem nada que atraia as pessoas para o Centro Histórico. Tinha que ter incentivo, porque, do jeito que está, vai acabar”, afirma Eudes.

Entre paredes antigas, histórias acumuladas e ruas que já não são as mesmas, dois dos poucos moradores do Centro Histórico resistem em meios as memórias, sempre dispostos a sentar para conversar sobre o que viveram nas décadas em que o local, hoje abandonado, era onde a cidade acontecia.

Ezio e Eudes se tornaram testemunhas de uma cidade que, aos 307 anos, ainda tenta reconhecer a si mesma no lugar onde tudo começou. 

"Meu marido nem pensa em sair daqui, os filhos já saíram de casa, sempre falam que chegou a hora de irmos para um apartamento, que a casa ficou grande. Mas não tem conversa", diz Eudes. 

"Eu não mudo daqui", decreta Euzio de costas para uma das janelas de madeira da casa centenária. 
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