Os feeds das redes sociais amanheceram decretando, em letras garrafais, que o "pior dia do ano" iria acontecer nesta terça-feira (3). A afirmação da astróloga Márcia Sensitiva se espalhou rapidamente com ajuda dos algoritmos do Instagram e do TikTok. A previsão, associada a um eclipse lunar total, à chamada Lua de Sangue e Portal 3/3 (3 de março), gerou repercussão, interpretações alarmistas e dúvidas sobre até que ponto esse tipo de afirmação encontra respaldo na leitura astrológica.
Leia também
Mega festa de netos de 'Barão do Agro' é assinada por 'Poderosas do Cerrado', que já fizeram eventos de Virginia e Zé Felipe
Ao
Olhar Conceito, a astróloga Patrícia Helena Dorileo, destaca a problemática em torno de afirmações alarmistas e genéricas, como decretar o "pior dia do ano". Segundo ela, o que ocorre astrologicamente neste 3 de março é um eclipse total da Lua Cheia no signo de Virgem, dentro de um ciclo mais amplo.
Patrícia explica que os eclipses fazem parte de uma lunação especial, diferente das lunações mensais comuns, que duram cerca de 28 dias. No caso atual, trata-se de uma lunação iniciada em 17 de fevereiro, com um eclipse solar em Aquário, que agora se completa com o eclipse lunar. Esses eventos sempre acontecem em pares e funcionam como marcadores temporais que se desdobram por meses, podendo chegar a seis ou até oito meses de efeitos simbólicos.
"Essa Lua Cheia tem desdobramentos pelos próximos seis meses, podendo chegar a oito. Ele é visível em boa parte do mundo, tem um impacto muito maior no Oriente do que no Ocidente. Isso traz estremecimentos em torno de muitos assuntos políticos e sociais para certas regiões do mundo. A visibilidade do eclipse também sempre faz muita diferença na análise. O céu do eclipse, portanto, o momento exato em que ele acontece, tem toda uma configuração celeste que podemos distribuir sentidos, interpretações e previsões, que não são apenas para o momento em si, como por exemplo o dia de hoje. Então, é muito delicado falar em pior dia do ano sendo que os eclipses tem um significador astrológico e temporal que se desdobra por meses, as vezes anos".
De acordo com a astróloga, o simbolismo central dos eclipses está no apagamento das luzes celestes, o Sol e a Lua, o que, na tradição astrológica, representa momentos de obscuridade, falta de clareza e processos que envolvem crises, rupturas e mudanças estruturais. No entanto, ela ressalta que isso não se restringe ao dia exato do eclipse, nem autoriza leituras simplistas como a ideia de um “pior dia do ano”. “Astrologia sempre precisa de contexto. Não existem eventos soltos ou aleatórios”, afirma Patricia.
Eclipses lunares, de acordo com astróloga, tendem a ter mais peso no plano coletivo do que nas individualidades, simbolizando abalos em estruturas consolidadas, tensões sociais, reações emocionais e processos ligados ao passado que emergem no presente.
“Um eclipse lunar, para a astrologia, é um eclipse que abala as estruturas muito estabelecidas e que podem desencadear em insurreições, insurgências, ter uma coisa 'mais emocional', uma certa reatividade a partir de quebras de estruturas, de perdas direitos, perda de poder, perda do que for ali representado a partir dos signos que estamos relacionando aqui. Eclipses, como eu disse anteriormente, são os apagamentos das luzes do céu, isso na tradição é terrível, porque se não há luminosidade, se não há clareza e lucidez no céu, então significa que tem algo sendo escondido, que tem forças obscuras que podem fazer uma espécie de atravessamento para o nosso mundo, para as nossas questões, isso a gente pode ler aqui como desencadeamento de medos, de temores, de ações e decisões covardes... Enfim, uma série de coisas que pode ser colocada nesse 'balaio do obscurantismo'. Eles são presságios de tempos difíceis”.
A astróloga pondera que não pode ser leviana ao “enfeitar e perfumar” a dureza que envolve um eclipse como o desta terça-feira (3). “Mas não é por isso também que a gente vai se apavorar e achar que todas as catástrofes vão acontecer sobre nossas vidas e individualidades. Inclusive, os eclipses têm muito mais importância em um contexto social, coletivo e político, do que nas individualidades. Existem critérios muito específicos para vermos se um eclipse tem relevância e representa impactos na vida de alguém, vai depender sempre do mapa astral”.
Portal 3/3
A astróloga também critica a associação do eclipse com o chamado Portal 3/3, abordagem comum nos conteúdos que estão sendo difundidos nas redes, misturando astrologia e numerologia sem a teoria correta. Segundo Patrícia, tratar eclipses como portais energéticos é uma leitura equivocada. “Se o céu está escurecido, não é um momento de atravessamentos, rituais ou manifestações. É um período que pede cautela, recolhimento e discernimento”, explica.
Na avaliação dela, o eclipse do dia 17 de fevereiro, que ocorreu no signo de Aquário, tem relação direta com figuras de poder, já que o Sol simboliza autoridades, líderes e governantes. Esse movimento pode indicar perda de força, isolamento simbólico e queda de popularidade ao longo dos próximos meses, com possíveis desdobramentos até o fim do ano, quando um novo eclipse em Leão deve tensionar ainda mais esse eixo. Já o eclipse lunar atual, em Virgem, tende a ativar questões emocionais, inseguranças e sentimentos de instabilidade, sobretudo no campo coletivo.
“Algumas mudanças de cenário muito bruscas devem acontecer e o eclipse lunar, como o de hoje, em geral fala do passado que se manifesta no tempo presente e que pede para trazer algumas mudanças igualmente radicais em um tempo que se desenrola ali. Se esse eclipse tiver um impacto no mapa astral da pessoa vai falar de questões emocionais, a sensação ou falta de segurança, muito medo e uma relatividade alocada dentro desse evento”.
"Datenização astrológica"
A astróloga empresta um termo cunhado pela professora Thamires Sarti (@astrologues.fluente), a "Datenização astrológica" para explicar a viralização de conteúdos como os que anunciam o "pior dia do ano" nesta terça-feira (3). Ela explica que tal fenômeno esvazia o sentido da prática astrológica Para a astróloga, previsões amplas não dizem respeito ao destino individual das pessoas.
“Trânsitos e eclipses leem o tempo do mundo, da cidade, do social. A vida individual só pode ser analisada a partir do mapa astral pessoal”, afirma. Ela também critica o chamado “signismo”, em que pessoas reduzem a astrologia ao signo solar, e reforça que os impactos reais de um eclipse dependem de critérios técnicos específicos e da relação com o mapa de cada indivíduo.
“Falar que sou de um signo ou de outro não é muita coisa, então o acesso a astrologia é ótimo, é maravilhoso, fico muito feliz, quero muito que se espalhe, mas o acesso a uma astrologia correta, ética e séria, que não seja sensacionalista a ponto de dizer que esse vai ser o pior dia do ano porque tem um eclipse acontecendo. Acontecem quatro eclipses todos os anos, mercúrio fica retrógrado três vezes por ano, mas toda vez que ele retrógrada é o fim do mundo, então a sua vida vai estar sempre um pouco pior por causa dos eventos no céu? As coisas não são bem assim”.
Para combater a desinformação ou informações genéricas que ganham força com os canhões de engajamento dos algoritmos das redes sociais, Patrícia recomenda fazer um funil. “Tem um monte de nuances que precisam ser consideradas e, no final das contas, tudo se resume a voltarmos a uma astrologia tradicional, que existe há mais de 5 mil anos e que, nesta tradição, se propõe priorizar as coisas de uma forma menos esvaziada.
Acho que quando colocamos algumas afirmações em torno de muitas questões astrológicas estamos alimentando um misticismo que é inútil e não é verdadeiro, porque astrologia não é místico, antes de místico, ela é muitas outras coisas”.
A astróloga reconhece que o período não é simples. Ela recomenda cautela, adiamento de decisões importantes e mais tempo para reflexão ao longo da semana. Para a astróloga, o eclipse funciona como um convite a mudanças, mas dentro de processos complexos, que exigem leitura cuidadosa e responsabilidade. “Não é o pior dia do ano. Pode ser um dia decisivo dentro de crises que já estão instaladas. A astrologia serve mais para ajudar a encontrar sentido do que para justificar pânico”, conclui.