Criado no Mato Grosso, o projeto Moda Para Todes se posiciona como uma iniciativa cultural e política que reivindica a presença, o protagonismo e a valorização profissional de pessoas trans em um território historicamente marcado por profundas desigualdades sociais. Em um estado reconhecido nacionalmente pela força do agronegócio, pelo uso intensivo de agrotóxicos e por conflitos recorrentes envolvendo povos indígenas, comunidades quilombolas e ribeirinhas, o projeto surge como um contraponto simbólico e prático às lógicas de exclusão que atravessam o cotidiano local.
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Ao mesmo tempo, Mato Grosso carrega um histórico de políticas e práticas que restringem a presença da população LGBTQIA+ nos espaços de cultura, esporte e decisão. A hegemonia de manifestações culturais específicas, como o sertanejo e as festas de peão, aliada a discursos e iniciativas que buscam limitar direitos de pessoas trans, cria um cenário onde a diversidade frequentemente é silenciada. É nesse contexto que o Moda Para Todes se afirma como um gesto de ocupação e reposicionamento cultural.
Mais do que uma proposta estética, o projeto entende a moda como ferramenta política, social e econômica. "Quando falamos em moda para todes, não estamos tratando apenas de roupas sem gênero ou de inclusão simbólica. Estamos falando de garantir que pessoas trans estejam presentes em todas as etapas do processo produtivo, como estilistas, produtoras, comunicadoras, designers e gestoras culturais", afirma a equipe responsável.
Idealizado em 2023, o Moda Para Todes nasceu da percepção de que corpos trans seguem praticamente invisíveis na moda profissional, especialmente fora dos grandes centros do país. Dificuldades de acesso a roupas, problemas de modelagem, ausência de representatividade e a limitação das oportunidades profissionais foram alguns dos fatores que motivaram a criação do projeto. A resposta veio por meio da construção de uma cadeia produtiva protagonizada majoritariamente por pessoas LGBTQIA+, com centralidade de mulheres trans e travestis.
A coleção Transmutando Realidades, resultado do projeto, foi desenvolvida a partir de técnicas de upcycling, utilizando roupas doadas, adquiridas em brechós e resíduos têxteis descartados. As peças foram higienizadas, desmontadas e reconstruídas artesanalmente, priorizando adaptabilidade, uso real e respeito à diversidade de corpos. O processo criativo reforça uma lógica de sustentabilidade aliada à justiça social, transformando o que seria descartado em peças autorais com alto valor simbólico e estético.
Um dos aspectos mais significativos do projeto é a escolha consciente de trabalhar com mulheres trans em situação de prostituição como modelos do editorial da coleção. Em um estado onde essa população enfrenta estigmas profundos e extrema vulnerabilidade social, a decisão representou um posicionamento político claro. Apesar de recomendações para que buscassem modelos consideradas "mais aceitáveis" dentro dos circuitos culturais, a equipe optou por reconhecer a centralidade dessas mulheres na realidade trans de Mato Grosso.
O encontro com a que viria a ser a primeira modelo do editorial, Cindy Clafort, possibilitou o acesso ao ponto de prostituição conhecido como Zero, em Várzea Grande, onde outras mulheres trans foram convidadas a participar do projeto. O processo exigiu diálogo, tempo e construção de confiança, mas resultou em um editorial que coloca essas mulheres como protagonistas, rompendo com narrativas que as reduzem à marginalidade e reafirmando seu direito à visibilidade, ao trabalho e à dignidade.
Além da produção estética, o Moda Para Todes também promoveu impacto social direto no estado, com a doação de peças para pessoas trans privadas de liberdade. A iniciativa se articula ainda com instituições locais, como a Associação Casa do Centro, ONG responsável pelo auxílio na mediação em relação às modelos, Associação Mais Liberdade e a Casa Cuiabana, fortalecendo redes de apoio e ampliando o alcance comunitário do projeto. Essas parcerias evidenciam a importância da atuação em rede para enfrentar falhas estruturais que historicamente excluem pessoas trans do acesso à cultura, à renda e à cidadania.
Realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do apoio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (SECEL/MT), do Governo de Mato Grosso, do Ministério da Cultura e do Governo Federal, o projeto exemplifica o papel das políticas públicas de cultura na descentralização de recursos e na promoção de iniciativas que dialogam diretamente com as realidades locais.
Para o futuro, o Moda Para Todes articula a expansão de suas ações, com planos em desenvolvimento para a realização de um documentário, um desfile da coleção, a publicação de um livro fotográfico e a criação de novas coleções voltadas a outras identidades trans e corpos historicamente rejeitados pela indústria da moda. As propostas reforçam o compromisso do projeto com a continuidade, a formação de público e a ampliação do debate.
A mensagem deixada pelo Moda Para Todes é direta e atravessa diferentes públicos. Para pessoas cis, o projeto reforça a urgência de contratar pessoas trans, reconhecendo sua qualificação profissional e ampliando oportunidades em áreas diversas. Para pessoas trans, a iniciativa reafirma que é possível criar, ocupar e transformar espaços que antes pareciam inalcançáveis, fortalecendo a luta por mais direitos, visibilidade e permanência no estado.
Transmutando Realidades
A coleção Transmutando Realidades nasce a partir de um processo artesanal e experimental, guiado pelas técnicas de upcycling. O desenvolvimento das peças começou com roupas doadas, compras em brechós e resíduos têxteis descartados, que foram higienizados, desmontados e reconstruídos. A técnica de texturização em espinha de peixe permitiu recuperar tecidos desgastados e criar movimento e profundidade, transformando "lixo" em peças autorais de alto valor estético.
Concebida como narrativa de existência e resistência, a coleção reafirma o pertencimento de mulheres trans e travestis nos espaços da moda. As 24 peças valorizam a adaptação e o uso real, permitindo que diferentes corpos vistam a mesma roupa sem necessidade de correção. O editorial de moda, protagonizado por modelos trans em situação de prostituição, oferece um espaço de visibilidade, acolhimento e valorização estética, conectando moda, identidade e política.