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Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

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RETROSPECTIVA 2025

Em Cuiabá, Legendários aumentou movimento com promessa de 'consertar as famílias' e transformar 'homens acovardados'

Em Cuiabá, Legendários aumentou movimento com promessa de 'consertar as famílias' e transformar 'homens acovardados'
O ano marcou a consolidação de um fenômeno religioso que saiu das montanhas para ganhar espaço no debate público, nas redes sociais e na rotina de milhares de famílias brasileiras. Criado em 2015 na Guatemala, o movimento Legendários ganhou força no Brasil nos últimos anos e, em 2025, teve em Cuiabá um de seus principais polos de expansão, reunindo mais de 1.200 homens em experiências de imersão conhecidas como TOP, realizadas na chamada Pista Vale da Graça, cujo local exato é mantido sob sigilo absoluto.


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A ideia do movimento é restaurar as famílias e, por meio da fé no “Legendário nº 1”, como Jesus é chamado, “homens acovardados” se transformam em “sacerdotes” dentro de casa, voltando a assumir o “papel de homem” dentro do lar. Enquanto eles sobem o Vale da Graça, as esposas esperam, em solo, receber “um marido restaurado” e se encontram no “Chá das Ladies” para orarem juntas pela transformação. 

A vivência, cercada por cláusulas de confidencialidade, é descrita oficialmente como educativa, ainda que exaustiva, envolvendo trilhas, caminhadas, escaladas, incursões em rios e outras atividades em meio à natureza. Para participar, os homens assinam um termo de isenção de responsabilidade e pagam uma taxa que pode chegar a R$ 1,8 mil. As vagas, segundo a organização local, se esgotam em poucos minutos.

Em Cuiabá, o movimento passou a chamar atenção a partir de testemunhos públicos de homens que afirmam ter mudado completamente de vida após a subida da montanha. Um deles é o engenheiro civil Tiago de Arruda, de 47 anos, que participou da experiência em novembro de 2023.

“Ela conseguiu uma vaga para eu participar. Foi um momento bem difícil para mim, estava com a minha família separada. Durante o TOP, em um momento de oração, eu pedi pela restituição da minha família para Deus, foi a primeira oração que eu fiz na verdade. No domingo, quando voltamos para a igreja, minha esposa que estava nos Estados Unidos quando eu subi a montanha, estava lá com nossos dois filhos e a gente voltou. Pela graça de Deus”, contou em entrevista ao Olhar Conceito em abril deste ano. 

Desde então, Tiago se tornou um dos porta-vozes do Legendários em Cuiabá e hoje atua como coordenador do Legado, braço do movimento voltado para pais e filhos. A expansão local acompanha o crescimento nacional. Segundo Tiago, a expectativa é de que o Brasil alcance cerca de 100 mil legendários em 2025.

O número é impulsionado por uma estrutura que se replica em diferentes estados, sempre com a mesma lógica: homens sobem a montanha, recebem um número que passa a identificá-los, vestem fardas laranjas durante a experiência e retornam com o compromisso de assumir o papel de “sacerdotes do lar”, líderes espirituais e morais da família.

“É uma benção muito grande poder ensinar para eles [os filhos] a ter relacionamento com Deus, ser temente a Jesus, ter esse coração preenchido, que é uma coisa que não tinha quando era pequeno. Passei muitos anos da minha vida sem ter esse relacionamento com Deus. Para mim é uma benção e uma honra estar direcionando eles dentro desse caminho, que acredito hoje ser o melhor caminho para gente seguir”. 

Engajamento nas redes impulsionou o Legendários 

O crescimento do Legendários também foi impulsionado pela visibilidade nas redes sociais e pela adesão de figuras públicas. A repercussão nacional aumentou após a influenciadora Viih Tube compartilhar que o marido, o ex-BBB Eliezer, havia participado da experiência. Além dele, nomes como Gustavo Tubarão, Thiago Nigro, Neymar pai e Kaká Diniz também já foram associados ao movimento. A exposição trouxe novos adeptos, mas também levantou questionamentos e críticas.

Com a popularização, surgiram comparações com seitas religiosas, principalmente por causa do sigilo extremo em torno das atividades, da linguagem própria do grupo e da ideia de uma verdade espiritual central. A sede de Cuiabá chegou a publicar vídeos negando que o Legendários seja uma seita. Outro ponto que entrou no debate foi a comercialização da fé, já que além da taxa de inscrição, podem existir custos adicionais durante o processo.

As posições defendidas pelo movimento também geraram controvérsia. Em relatos de participantes e lideranças locais, a homossexualidade é tratada como desvio de comportamento, com base em interpretações bíblicas que afirmam que Deus criou o homem e a mulher com papéis definidos. Um exemplo citado pelo integrante foi o “TOP Barbeiros”, realizado em Sorocaba (SP), no qual alguns participantes teriam renunciado à homossexualidade após a experiência.

“Teve alguns barbeiros que eram homossexuais, mas são homens mesmo que estejam ‘desviados’. Teve alguns deles que na hora que voltarem da montanha, renunciaram a homossexualidade. É um movimento que realmente transforma os homens”, explicou Tiago. 

Questionado sobre a homossexualidade ser vista como algo errado pelos Legendários, o engenheiro civil afirmou que “Deus criou o homem e a mulher. O homem tem que fazer a função do homem e a mulher fazer a função da mulher”. 

Apesar das críticas, os organizadores sustentam que o Legendários alcança homens que dificilmente entrariam em uma igreja por conta própria. O presidente do Legendários Cuiabá, Jules Ignácio, afirma que o aspecto aventureiro funciona como porta de entrada, mas que o foco principal é o encontro espiritual. Ele próprio participou da experiência em Balneário Camboriú (SC) antes de liderar a criação da primeira pista em Mato Grosso, inaugurada em junho de 2023.

Desde então, Cuiabá passou a enviar participantes para outras edições no país e a receber homens de diferentes regiões. Empresários como Danilo Rondinelli, de 46 anos, relatam múltiplas participações, conversão religiosa e mudanças profundas na forma de viver a fé e a vida familiar. Para eles, o sigilo não é um mecanismo de controle, mas parte da experiência, comparado a evitar “spoilers” de um processo considerado transformador.

“Nesse dia, o pessoal de Camboriú mesmo falou: ‘poxa, vocês estão vindo em peso aqui, não é hora de fazerem uma edição em Cuiabá?’. Eu disse que era a ideia desde o começo, porém a gente precisa de homens que tinham passado pelo processo para poder abraçar essa causa no nosso estado”. 

Foi assim que Jules decidiu criar a primeira sede em Mato Grosso. Em 23 de junho de 2023, os primeiros homens acamparam no Vale da Graça. Trazer o movimento para Cuiabá é definido por ele como um propósito de vida para restaurar as famílias.  

 “A mensagem que a gente acredita, é a palavra de Deus, é a bíblia, a ideia é trabalhar naquele que é o alicerce da família, que é o homem. É o homem que está em dívida com a sociedade, é o homem que tem terceirizado a educação dos filhos para a internet, é o homem que tem negligenciado o seu papel na sociedade, se acovardando dos problemas. Então, o movimento nasceu com objetivo de transformar os homens”. 
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