A família de Maria Auxiliadora, de 61 anos, já está na sexta geração de descendentes no Quilombo Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento (a 42 km de Cuiabá). Enquanto segura uma das bonecas de pano negra que produz há quase duas décadas, ela costuma brincar que o “navio negreiro aportou” no local. Lá, os pais se conheceram, se casaram e tiveram as primeiras filhas. Maria Auxiliadora é a terceira entre os 13 irmãos e, depois de deixar o território quilombola para estudar, voltou a morar no local em 2016.
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A memória da cidade para ela, no entanto, não é apenas afetiva. Carrega também marcas recentes da exclusão. Maria Auxiliadora conta que, até 2017, ainda havia um comércio em Nossa Senhora do Livramento onde pessoas negras não podiam entrar. Quando voltou, já aposentada, encontrou descendentes do antigo proprietário desses estabelecimentos administrando o local.
“Meu pai saiu daqui e voltou 50 anos depois. Saiu a procura de uma vida melhor, porque é uma terra de descendentes de pessoas escravizadas em um município racista. Fiquei sabendo que até 2017 tinha comércio aqui em Nossa Senhora do Livramento que negros não podiam entrar, eu cheguei os donos ainda eram descendentes dele [do primeiro proprietário]. Somos daquele povo, não sei se você se lembra, que ficamos em 86 na Praça do Rosário [em Colíder], ficamos três meses”.
As bonecas negras carregam dois momentos que atravessaram a história de Maria Auxiliadora. Maternar já era um sonho antigo e a primeira gravidez foi recebida com alegria. Mas, aos 38 anos, quando descobriu que estava grávida de novo, ela precisou lidar com o luto provocado por um aborto espontâneo.
“Minha mãe já fazia boneca de pano para nós, de trapo, mas era trapo mesmo, quando não tinha mais jeito de aproveitar para vestir, ela fazia boneca. Entrei em depressão, queria as bonecas como forma de substituir o filho que perdi”.
Alguns anos depois, quando a filha já estava com três anos, Maria Auxiliadora levou a menina para comprar presente de Dia das Crianças em uma loja. Foi quando ela ouviu algo que a marcou: a filha não queria uma boneca negra. Na própria cabeça, Maria Auxiliadora começou a refazer os passos que fizeram a filha reproduzir algo racista.
“Ela chorou porque eu pedi uma boneca negra, disse que queria uma boneca da cor do pai e não da mãe. Já tinha trabalhado tanto contra o racismo, sou preta, mulher, de família de assentamento. Onde minha filha achou isso? Fiquei trabalhando isso com ela, em 2007, quando ela tinha 15 anos, eu vim para cá. Ela foi estudar na Escola Estadual Quilombola Tereza Conceição de Arruda, foi fundamental para a aceitação”.
“Com isso comecei já a fazer as bonecas pretas, porque fiquei tão indignada dela falar que não queria uma boneca preta igual a mãe. Comecei a fazer de tnt e levava no aniversário das meninas, eu via a felicidade das mães”.
Maria Auxiliadora ressalta que o retorno ao Quilombo Mata Cavalo foi essencial para que a filha aceitasse a cor da pele, os próprios traços e deixasse, inclusive, de alisar o cabelo. A experiência também foi importante para a própria Maria Auxiliadora, que nunca aceitou o cabelo crespo.
“Nem sabia que meu cabelo ficava encaracolado, achei que ele não tinha um jeito de ficar definido. Ela aceitou primeiro o cabelo dela, muito antes de mim. Ela dizia: mãe, vai ser quando a senhora quiser e aceitar, mas você tem tantos problemas, psoríase, depressão”, lembra.
“Não parei enquanto os produtos químicos não atacaram minha psoríase. Ela foi me incentivando, quando eu parei de alisar, ela teve a paciência de cuidar do meu cabelo até eu aceitar cortar a parte alisada”, conta.
Já morando no território quilombola com a filha e o marido, ela começou a levar as bonecas negras para receber turistas em eventos da região. “Eu insisti esses anos todinhos e agora minhas bonecas são um show por onde eu passo. Tenho bonecas nos Estados Unidos, Espanha, Austrália, Chile, Equador, Guatemala, Guiné-Bissau… Isso é muito gratificante”.
O empreendedorismo é uma força motriz importante no Quilombo Mata Cavalo, onde as mulheres são incentivadas a ter uma renda própria. “Sempre falo para as mulheres, mesmo não tendo dinheiro, mas você lá tira o coco de babaçu, quebra, coloca na sacolinha… Você não vai precisar de dinheiro para isso, mas insista, persista e me chama que eu ajudo se for o caso”.
