A mato-grossense Marcela Santos Braga, de 43 anos, não imaginava que um dia se tornaria a maior incentivadora do filho Juninho, de 18, em uma prática que ainda é cercada de preconceito: o grau — manobras feitas com motocicleta, como empinar, equilibrar e conduzir a moto sobre apenas uma roda. Em Porto Esperidião, cidade no interior de Mato Grosso com pouco mais de 12 mil habitantes, ela acompanha de perto o filho, grava vídeos e sonha com um futuro mais seguro.
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Olhar Conceito, Marcela, que é técnica de enfermagem e pedagoga, lembra que Juninho começou a dar sinais de que era apaixonado por manobras radicais quando tinha apenas três anos. Com uma bicicleta que ganhou do avô, ele começou a empinar.
"Ele não sabia andar direito, mas ele empinava. Tanto que com um pouquinho de uso ele quebrou a roda da frente", ri a mãe ao lembrar da cena. Mais velho, com um dinheiro que juntou como servente de pedreiro, Juninho conseguiu comprar a primeira moto. “Ele chegava em casa todo ralado”, lembra Marcela. “Eu fiz o pai dele vender a moto. Mas ele empinava tudo o que pegava.”
Mesmo sem incentivo ou estrutura, a paixão do adolescente persistiu. Quando Marcela viu o filho empinando com sua própria motocicleta e postando vídeos na internet, reagiu com preocupação. Mas foi uma frase do filho que mudou tudo: “Mãe, a única coisa que eu gosto nessa vida é fazer isso. Custa você me apoiar?”.
Desde então, ela mudou a forma de encarar o grau e decidiu acompanhar de perto, mas estabeleceu regras — como não fazer manobras em vias com trânsito e dar preferência a horários e locais seguros. "Disse que ele iria empinar só onde não estiver passando ninguém e de preferência aqui na frente, onde eu poderia ver. 'A mãe até te filma, mas você não vai ficar fazendo isso na rua, não vai fazer isso em BR pra você não colocar a vida de ninguém em perigo, nem colocar a sua'. E assim a gente começou a dar início".
Hoje, Juninho acumula mais de 120 mil seguidores no Instagram, onde publica os vídeos em que aparece empinando ou em pé em cima da moto enquanto acelera, muitos feitos no quintal de casa ou em pistas específicas da região, como em Mirassol d’Oeste, que fica a 56 km de Porto Esperidião.
Marcela usa o prefeito da cidade, Héctor Alvares Bezerra (União), como exemplo de gestor público que não marginaliza o grau. Em maio deste ano, Héctor estampou manchetes em sites nacionais após aparecer na garupa de uma moto que empinava em uma competição de grau e som automotivo.
“O prefeito de Mirassol 'é top'. O prefeito de Mirassol fez um evento esses dias, ele empinou na garupa do rapaz. É uma maneira deles tirar os jovens do meio da rua. Porque assim eles não ficam praticando em qualquer lugar. Colocando a vida deles e a vida dos outros em perigo. E se tem um lugar adequado, eles vão e fazem só lá. Eles não vão ficar fazendo na rua, né? Não tem porquê”.
O grau é uma prática cultural que emergiu nas periferias urbanas, especialmente no Brasil, como uma forma de expressão e resistência. A prática envolve movimentos acrobáticos e arriscados, realizados principalmente por jovens em espaços públicos, como praças e ruas.
“Fico triste com as críticas sobre o grau, porque eu entendo que tem muitos que estão ali que vão ali no sentido de arruaçar, que a gente sabe que tem. Isso tem em qualquer esporte, né? Só que a gente sabe que tem muitos ali como é o meu menino que vão no intuito de fazer uma coisa legal porque é a paixão deles, né? Só que é ainda muito mal visto”.
Julgamento nas redes sociais
Marcela relata que seu posicionamento público em apoio ao filho tem despertado reações opostas nas redes sociais. Enquanto algumas pessoas se dizem tocadas por sua postura e admiram sua coragem, outras demonstram hostilidade extrema. “Tenho alguns amigos aqui que apoiam e falam: ‘Marcela, eu não teria essa coragem’”, diz ela. Apesar disso, afirma que apenas faz o que acredita ser natural, que é apoiar as escolhas dos filhos: “Eu sou uma mãe normal, né? Só que eu aceito e tento ajudar dentro do possível.”
Nas redes sociais, no entanto, o julgamento nem sempre é discreto. Marcela conta que lida com ataques pesados no Instagram, com comentários que desejam a morte de Juninho. Esses são os que mais entristecem a família.
“Tem pessoas que vão lá desejar morte”, afirma. Ela se impressiona com o nível de crueldade e relata ter lido mensagens como “logo ele vai virar graxa de asfalto”. “Tem hora que eu imagino como que as pessoas gostam de desejar o mal”, desabafa.
Ainda assim, ela mantém um olhar esperançoso sobre o futuro do filho com o grau. Seu desejo é vê-lo realizado e reconhecido: “O meu sonho é que apareça um patrocinador que queira investir na imagem dele, que coloque ele pra fazer alguns eventos.”
"Só que morando aqui no Porto é difícil, porque aqui é um lugar pequeno, e aqui a cultura das pessoas é futebol. Parece que o único esporte que existe é futebol. E sendo que aqui a gente tem tantos adolescentes que gostam não só da moto, mas de fazer manobra com a bicicleta", continua.
Sonho de Juninho era o motocross
Marcela explica que o sonho do filho, na verdade, era ser piloto de motocross. dificuldade em custear um esporte como o motocross, que envolve motos caras — algumas custando mais de 40 mil reais — e manutenção custosa, fez com que ele buscasse uma forma mais acessível de pilotar. Embora o grau não seja a modalidade que ele sonha, é uma forma de estar próximo do universo das duas rodas.
“A vontade do Juninho sempre foi o motocross, mas como a gente nunca teve condições financeiras, ele encontrou no grau o que ele gostava. A vontade dele até hoje ainda é participar do motocross. Mas é caro, a moto é mais de R$ 40 mil. Foi a alternativa que ele arrumou também. Ele gosta de moto".
Ao ver o filho apaixonado pelas manobras radicais, a mãe desbloqueou as próprias memórias de infância ao recordar que quando era adolescente nos anos 90, gostava de correr de bicicleta nas ruas, mesmo em uma época em que, para as mulheres, não havia espaço nem incentivo para essas práticas. “Só que naquela época não tinha as coisas que tem hoje”, diz, destacando que, apesar das dificuldades, ela era melhor que muitos meninos nas corridas pelas ruas do bairro.
Hoje, Marcela conta que o filho segue um caminho parecido, desenvolvendo sua habilidade em “empinar” motos e fazer manobras, uma prática bastante comum em periferias onde o motocross e esportes oficiais acabam sendo inacessíveis pelo custo. “Esse só de empinar, de relar a mão no chão, esses aí eu acho até legal”, comenta ela, reforçando a admiração pela coragem e o espírito aventureiro que, de certa forma, são uma herança da mãe.