A primeira camiseta de times do empresário Lucas Tylty, de 28 anos, que atua no ramo das apostas esportivas, foi comprada quando ele ainda era criança em uma feira do Rio de Janeiro (RJ), com o dinheiro que conseguiu juntar. Já adulto, com mais recursos financeiros e acesso aos bastidores do futebol, Tylty decidiu dedicar um cômodo da casa, no condomínio de luxo Alphaville, em Cuiabá, ao “museu” que já contabiliza 1300 camisetas, algumas assinadas e usadas pelos jogadores, além de chuteiras e outros itens que carregam grande valor afetivo.
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Olhar Conceito esteve no museu particular do empresário, que se tornou um dos grandes atrativos da casa durante as visitas de amigos e até de jogadores, como Ronaldinho, que é sócio de Tylty, mas já viu a própria história ser contada através da coleção em Cuiabá.
“No início era bem mais complicado, porque eu não tinha dinheiro, vim de uma família classe média baixa, não tinha condição de comprar camisas de time originais e nem todas as que eu queria. Depois que comecei a trabalhar e ganhar meu dinheirinho, comecei a aumentar cada vez mais a minha coleção”.
O empresário começou a coleção em 2008, quando tinha 12 anos, e sonhava em ter uma camiseta de Valdivia, que jogava no Palmeiras. Tylty não é palmeirense, aliás, ele não torce para nenhum time brasileiro, apaixonado pelo esporte, brinca que não foi capaz de escolher um único para admirar.
“Sempre fui muito apaixonado por ele [Valdivia], sempre achei ele muito craque. Foi uma camisa que me encantou, procurava muito ela e o dia que encontrei decidi comprar, meus amigos até brincam que na época eu queria usar essa camisa todos os dias, era tamanho GG, parecia um vestido em mim e mesmo assim eu continuei usando”.
Nascido e criado no Rio de Janeiro (RJ), Tylty também cresceu acompanhando a paixão da mãe pelo Fluminense, e a do pai, pelo Flamengo, além da maior parte da família ser vascaína. Desde muito novo, ele entendeu que não seria capaz de escolher para qual torceria, mas queria estar presente nos estádios para acompanhar todas as partidas que pudesse.
No entanto, fora dos campeonatos brasileiros, Tylty escolheu um time para chamar de seu quando conseguiu visitar Londres pela primeira vez: o Chelsea Football Club. “Nunca quis ter um único time no futebol brasileiro, porque sempre fui muito apaixonado por todos. Não faz muito sentido um torcedor do Vasco ir para o jogo do Flamengo, sempre entendi que minha paixão era pelo Chelsea”.
Para além da grande quantidade de camisetas do Chelsea, Vasco e Flamengo estão entre as mais presentes na coleção de Tylty. “Tem alguns times brasileiros que têm mais camisetas, como o Vasco, hoje uma das nossas empresas patrocina o Vasco e tenho um carinho muito grande pelo time. Acredito que se eu não tiver mais camisas do Vasco, provavelmente seria do Flamengo, devo ter umas 40 do Vasco e umas 37 do Flamengo”.
Bastidores dos estádios
No museu, a maioria das camisetas são do Chelsea, chegando a somar 120 peças. O empresário conta que a mais especial delas foi usada pelo zagueiro Thiago Silva, além de uma raridade de 1980. Fora as relíquias do time londrino, Tylty tem peças históricas e que não venderia ou usaria jamais, como as camisetas usadas por Messy, Dybala, Zidane e Pelé. Por conta do trabalho com apostas esportivas, ele passou a ter acesso aos bastidores do futebol, fazendo conexões importantes que também aumentaram a coleção.
“Tem uma que não usaria de jeito nenhum, que é uma camisa preparada para o jogo da Argentina contra a Polônia, na Copa de 2022, ganhei também de um cara que trabalhava na seleção argentina, demos suporte para eles em algumas coisas que envolviam a seleção na Copa do Mundo. Tem também uma do Pelé, que foi autografada por ele, é da década de 70, não usaria de jeito nenhum. As outras até acredito que daria para usar em alguma ocasião especial, mas muito difícil também, porque algumas foram utilizadas em jogo, outras são autografadas”.
Prova das relações que construiu nos bastidores são os convites que chegam para Tylty, que deixariam o jovem que juntava dinheiro para comprar réplicas de camisetas, encabulado. Neste mês, por exemplo, ele foi convidado para jantar na casa do Cristiano Ronaldo.
“Passa um filme na cabeça, a gente fica lembrando de tudo, da trajetória, até chegar onde chegou hoje, é muito gratificante. Toda vez que isso acontece, lembro de quando comecei, lembro de quando estava lá atrás, que já esperava que isso poderia um dia acontecer, mas não com essa proporção. Sempre fui um menino muito sonhador e sempre falei muito isso: sempre estive preparado para o sucesso desde a minha adolescência”.
“Mas tem algumas coisas que fogem um pouco do que eu já tinha planejado, como por exemplo ir na casa do Cristiano Ronaldo, era uma coisa que nunca imaginei que poderia acontecer, assim como ter o Ronaldinho visitando a minha casa, isso é fato. Mas, com o passar do tempo fui me adaptando a isso e entendendo um pouco mais do que eu estava transformando na minha vida, e entender aquilo me fez pensar: cara, vai acontecer, tenho que estar preparado para tudo”, continua.
Garimpando relíquias
As camisetas da coleção são consequência de muita garimpagem, seja em leilões ou em buscas pela internet. Mas nem sempre foi assim, no início, quando ainda não tinha condições financeiras para disputar peças com outros colecionadores, por valores que podem chegar a R$ 50 mil, como a mais cara que tem no museu e foi usada por Zidane no Real Madrid na época dos Galácticos, Tylty ficava atento ao seu redor.
“Em 2014, se não me engano, o Duque de Caxias tinha jogado a 2ª divisão do Campeonato Brasileiro e eu queria muito aquela camisa, não encontrava em lugar nenhum. Até que um dia estava passando na rua, trabalhando, tinha um morador de rua que estava usando a camisa do Duque de Caxias, falei para um amigo: quero muito aquela camisa. Ele falou para procurarmos, mas eu não conseguia encontrar por nada, tinha que dar um jeito de conseguir aquela camisa”.
No outro dia, o empresário passou pelo local e o mesmo homem estava sentado em frente a um bar, usando a camiseta do Duque de Caxias. “Decidi fazer uma proposta para ele, dei R$ 10 e duas camisetas normais. O cara ficou felizão. É uma história bem legal”.
Uma das camisetas do Chelsea também foi conseguida de forma parecida. “Estava passando e vi um morador de rua em um ponto de ônibus, dei R$ 30 para ele. Hoje em dia não faço mais assim, temos mais facilidade, principalmente com a internet, pelo menos com alguém vou encontrar, naquela época o acesso era mais difícil”.
Tylty brinca que a criação do museu aconteceu naturalmente, à medida em que o closet, que dividia com a esposa, foi ficando pequeno para as mais de mil peças da coleção. Foi assim que o carioca radicado em Cuiabá desde 2020, chegou a conclusão de que precisava de um espaço exclusivo para o amor pelo futebol.
“As vezes quando recebia amigos em casa, eles queriam ver a coleção, não tinha um espaço, não tinha como ficar levando eles no meu quarto para ver, ia ser um pouco invasivo, um pouco ruim. Decidi pegar um espaço da casa para fazer algo diferente, depois que criei gostei tanto que agora quero manter, vou fazer um espaço cada vez maior, quero que seja um acervo, que as pessoas pensem: pô, o Lucas Tylty tem uma coleção que conta a história do futebol”.
O empresário não pensa em se desfazer do acervo, pelo contrário, a meta é aumentar a coleção nos próximos anos.
“É um lugar para que as pessoas possam olhar e relembrar de momentos marcantes, de jogos históricos, bater os olhos em uma camisa e se emocionar com a história que ela tenha vivido tanto com a família dela ou em um estádio de futebol, até mesmo relembrar a essência do esporte. É um acervo que quero ter para o resto da minha vida e que vai aumentar cada vez mais, espero que esse espaço seja muito pequeno perto do que vai ser nos próximos anos”.
Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, Tylty conheceu Cuiabá pela primeira vez no final de 2019, quando já ganhava dinheiro com apostas esportivas.
“Conheci um amigo cuiabano, que mora aqui, tivemos uma ideia, comecei a passar para ele o que eu fazia com apostas, a gente trabalhava juntos em outro negócio, chegamos a conclusão que poderíamos ensinar a galera a ganhar dinheiro com aposta também, apresentar o mercado esportivo para outras pessoas. Por que não?”.
O empresário, então, decidiu que seria uma boa ideia mostrar como fazia para ganhar dinheiro com as apostas. Ainda em 2019, eles criaram a própria empresa com sede em Cuiabá. Ao conhecer a cidade, Tylty se apaixonou pela qualidade de vida e, principalmente, pela gastronomia.
“Começamos a buscar prestadores de serviços daqui, montamos uma estrutura significativa e chegou a pandemia, quatro meses depois. Não dava para se mudar ou tentar fazer testes se ia dar certo morar aqui ou não, acabou que tivemos que ficar aqui um ano por conta da pandemia, o negócio deu muito certo também, graças a Deus. Decidimos manter em Cuiabá e ficamos”.