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Quinta-feira, 18 de julho de 2024

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Comerciante resiste com loja de vestidos na 'Rua das Noivas' e guarda memórias do auge do Centro Histórico

Foto: Bruna Barbosa - Olhar Conceito

Comerciante resiste com loja de vestidos na 'Rua das Noivas' e guarda memórias do auge do Centro Histórico
Antes de abrir a própria loja na Ruas das Noivas, como ficou popularmente conhecida a rua Voluntários da Pátria, em Cuiabá, a paranaense Maria Teresa de Oliveira, de 78 anos, trabalhou quase uma década na única loja de vestidos de noiva da cidade. Hoje, ela é uma das poucas comerciantes do ramo que resiste em um dos endereços mais tradicionais da cuiabania. 


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“Essa Rua das Noivas era muito movimentada, mas na pandemia fechou muita loja, você pode ver que está tudo fechado, acho que cinco lojas de noivas fecharam, lojas grandes. Tinha o Palácio das Noivas, que era da Maria, era grande, fechou, da Edite fechou. Eu só não fechei aqui porque esse prédio é meu, não pago aluguel e nem funcionários, quem tem essa despesa não consegue”.

A memória da mulher que não economiza gargalhadas e vaidade ao retocar o batom vermelho guarda as lembranças de quando o Centro Histórico de Cuiabá vivia seu auge. Na única loja da cidade, a Cantinho das Noivas, Maria Teresa viu as máquinas de costura funcionarem freneticamente para que as costureiras dessem conta de atender a todos os pedidos das clientes que estavam prestes a subir ao altar. 

“Ficava na 'Cuiabá antiga', perto do Beco do Candeeiro, hoje está um deserto, parece filme de terror, mas aquela rua há 40 anos era tão linda. Era uma loja pequena, só tinha uma porta, mas no fundo era grande, a gente fazia o Nortão todo, porque estava 'abrindo' lá. A gente fazia uma base de 30 a 40 vestidos por mês, na época eram vendidos, não era alugado”. 

Maria Teresa ainda atende as clientes da mesma forma que fazia quando começou a trabalhar com vestidos de noiva. Sobre uma mesa de canto, guarda algumas revistas de onde costuma retirar os modelos que, após escolhidos pelas clientes, são costurados por ela. 

À reportagem, ela mostra, orgulhosa, sua criação mais recente, que foi feita para a filha de uma amiga que se casou. Em uma das araras da loja, ela guarda o vestido branco com transparência, manga bufante removível e bordados, que foi inspirado no usado pela modelo que estampa uma das páginas da revista. 

“Hoje faço vestido de noiva só por encomenda, sou eu quem costuro tudo, não tenho mais funcionárias. Agora mesmo achei um vestido antigo. Olha, antigamente era assim, tudo feito à mão, tá vendo?”, diz enquanto mostra outra de suas criações. 

“Esse vestido tem mais de 30 anos. Você sabe que está tudo voltando, né? Tirei o forro dele, porque está muito pesado, vou tirar um pouco ‘da roda’ dele também e fazer um vestido de festa. Tudo isso aqui sou eu quem faço”. 

Vida dedicada aos vestidos de noivas 

A comerciante se mudou para Cuiabá há quase 40 anos, quando o ex-marido, que era metalúrgico e trabalhava em uma empresa de Porto Alegre (RS), foi transferido para Mato Grosso. Na época, ela já sabia costurar, ofício que aprendeu antes de terminar o primário. 

“Filha mulher tinha que aprender a cozinhar, costurar e fazer crochê, que é minha terapia. Tinha 14 anos quando aprendi, era só no primário. A gente morava na cidade, podia fazer ginásio e tudo, mas era só aprender a ler e escrever. Quando casei, meu marido não quis que eu trabalhasse. Parei de trabalhar, ficava incomodada, porque queria ter meu dinheiro”. 

Em meio a gargalhadas, ela conta que nunca se interessou em cumprir os moldes de mulher “recatada e do lar”. Lembra que não permitiu que o ex-marido criticasse o cumprimento das saias que gostava de usar e nunca deixou o batom vermelho de lado. 

“Eu era terrível. Toda vida usei cabelo curtinho, estilo Elis Regina, usava esmalte vermelho, batom vermelho e minha sainha era de 38 centímetros. Uma vez ele começou a invocar comigo sobre as roupas vermelhas. Falei: escuta aqui, você me conheceu assim”. 

Certa vez, Maria Teresa disse ao marido que queria comprar um sapato novo. Como resposta, ouviu: por que você vai comprar um sapato se já tem tantos? A pergunta do ex-marido foi o suficiente para que ela declarasse que, a partir daquele dia, trabalharia para ter o próprio dinheiro. 

Ela lembra que na época as mulheres estavam começando a usar calças e, como já sabia costurar, viu uma oportunidade. Fez aulas específicas para aprender a costurar a peça de roupa, algo que não havia aprendido nas aulas escolares e pediu uma máquina emprestada para a sogra. “Aquela de pedal ainda”, reforça Maria Tereza. 

“Daquele dia em diante falei: não quero saber o que você ganha e jamais você vai saber o que eu ganho. Consegui comprar minha primeira máquina de motor, tinha semanas que eu fazia de 10 a 12 calças, só para mulheres”. 

Quando se mudaram para Cuiabá, Maria Teresa precisou se impor mais uma vez. Ela conta que o ex-marido não queria que ela trabalhasse fora, mas como as filhas já estavam crescidas, a comerciante começou a sentir vontade de explorar novas possibilidades de viver. Foi assim que ela encontrou a loja Cantinho das Noivas. 

Depois, na própria loja, as filhas começaram a ajudá-la a bordar os vestidos de noivas, madrinhas e debutantes. “Quando as minhas filhas já estavam mocinhas, elas tinham que trabalhar também, aí eu abri minha loja. Elas bordavam, atendiam clientes, praticamente tudo era feito à mão, a gente montava vestido e bordava”. 

A primeira loja de Maria Teresa ficava na esquina da Barão de Melgaço, onde atualmente funciona um camelô. Ela lembra que ficou naquele endereço por oito anos, mas quando o proprietário pediu o prédio de volta, ela precisou se mudar. 

A Rua das Noivas ainda não existia e com a estrutura metálica e vitrine que tinha na loja antiga, a comerciante abriu o estabelecimento em que trabalha até hoje no Centro de Cuiabá. “Essa rua era famosa, como a Rua das Óticas, mas hoje já não é mais assim”. 

Autonomia e independência 

Mesmo prestes a completar oito décadas de vida e com o movimento de clientes menor do que presenciou no passado, Maria Teresa não pensa em parar de trabalhar. Todos os dias, ela sai da casa em que mora sozinha com seu pinscher, pega um ônibus e abre a loja. 

“Não penso em parar, só se não conseguir andar ou enxergar, mas já fiz cirurgia de catarata para não ter risco de parar. Venho de ônibus todos os dias, ainda levo os vestido para lavar em casa. Minhas filhas conhecem a mãe que têm, não gosto de depender de ninguém, sem contar que no final do ano fecho a loja e vou para o Nordeste, vou de ônibus, em excursão, amo a muvuca do ônibus”. 

“Aonde que vou ficar esperando a morte chegar?”, diz aos risos.
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