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Sexta-feira, 21 de junho de 2024

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'Eu sou Nieta Costa': liderança do movimento negro de Cuiabá seguiu passos do pai na luta contra racismo

Foto: Marcela Bonfim

'Eu sou Nieta Costa': liderança do movimento negro de Cuiabá seguiu passos do pai na luta contra racismo
A professora e militante do movimento negro, atuação que começou cedo ao acompanhar os passos do pai, Antonieta Costa, de 55 anos, não acredita que coincidências foram responsáveis por levá-la a fundar a Casa das Pretas em um dos casarões históricos da Praça da Mandioca, no Centro de Cuiabá. “Isso aqui se trata da nossa ancestralidade, de ficar, porque somos passagem”, diz enquanto olha para as paredes do espaço coletivo. 


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Nieta, como é conhecida, evoca os ancestrais e nega a existência de acaso ao explicar que o imóvel conta a história do movimento negro. Os mesmos cômodos que agora guardam as aulas de francês, debates culturais, além de outras manifestações artísticas e comunitárias, já foi palco da violência e do abuso da escravidão. 

“Você entrar em uma casa que foi mercado que vendia tudo, inclusive escravos e escravas, nessa sala vendiam crianças, homens e mulheres que teriam os corpos violados, porque não só trabalhavam, mas eram estupradas. Quando você entende isso, você entende que não chegamos aqui por acaso e a importância de lutar para ter esse espaço. Isso aqui não se trata de Nieta, isso aqui se trata da nossa ancestralidade, de ficar, porque somos passagem, daqui a pouco, cadê a Nieta? Mas a casa está aqui”. 

Nieta também é fundadora do Instituto de Mulheres Negras do Mato Grosso (Imune), uma das organizações responsáveis pela Casa das Pretas. O trabalho no Imune já acumula duas décadas orientando o processo de crescimento de mulheres negras. A fundação do Imune e a história da professora se misturam.

“Foi importante que eu olhasse para dentro, que meu corpo é político, só a partir daí entendo como nossos corpos são políticos. Nesse entendimento, nasce o Imune, porque a gente precisava fomentar a nossa voz e reforçar a importância dos nossos corpos dentro de um espaço extremamente masculino, não é porque somos mulheres negras que os homens negros compreendem esse contexto. O mundo é machista”. 

A existência de mulheres fortes na família como as tias Noca, Teca e Zuma, que mesmo sendo mulheres negras nas décadas de 40 e 50, se tornaram enfermeiras em Cuiabá, foram referência de força para Nieta, assim como a mãe, dona Ângela. O poder emanado pelas mulheres fez com que ela, desde pequena, se preocupasse com a energia feminina que a rodeava. 

Nieta questiona o apagamento das famílias negras de Cuiabá. (Foto: Arquivo pessoal)

O respeito que o pai, Geraldo Henrique Costa, tinha com as individualidades que atravessam a vida de uma mulher negra também é destacado por Nieta. Única mulher entre quatro homens, ela foi a única que seguiu os pais na militância que ela acompanhava desde pequena. 

“Meu pai apresentou várias formas de aprendizado, de convivência, de crescimento enquanto mulher, enquanto cidadã, fiz teatro na época da Terezinha Arruda, dança, teatro com Ivan Belém. Para o meu pai, o acesso à cultura era muito importante, ele nos inscrevia e só avisava, ele nos motivava a participar, sinto muita falta disso nas crianças hoje”. 

Nieta cresceu com a família na região central de Cuiabá, em uma casa que ela descreve como “um quilombo”, já que sempre esteve aberta para que todos entrassem, fosse para discutir o movimento negro com o pai ou para que todos comessem juntos. O funcionamento da Casa das Pretas segue a mesma premissa: portas abertas. Em muitos casos, pessoas que entram no imóvel não buscam coisas materiais, mas sim uma escuta. 

“As panelas da casa da minha tia, eram sempre panelas grandes, nunca compravam panelas pequenas, só a do café. Todo dia aparecia gente para comer. Elas foram falecendo, mas a panela era a mesma e era incrível sempre dava para todos que chegavam. Sempre tinha comida. Não estavam preocupadas com bem materiais, lá era um espaço acolhedor, mesmo se você não quisesse, elas queriam te servir, bolo, suco e café”. 

“A gente morava num quilombo, todo mundo estava ali, até hoje minha mãe está lá. Estou tentando levar essa essência, que é familiar, porque senão a gente perde tudo e vai por outro caminho. A vida é dura aqui para essa Nieta, a vida aqui não vai ser fácil e não está sendo fácil para essa Nieta, mulher que já foi menina, que agora está indo para a fase idosa. Se não era fácil lá atrás, imagina agora?”. 

Pai de Nieta sempre foi envolvido com o movimento negro de Cuiabá e criou desfile para mulheres negras. (Foto: Arquivo Pessoal)

Elo com o Centro de Cuiabá 

A relação da com a região central de Cuiabá é justificada por Nieta como ancestralidade. A professora cresceu no bairro Araés, que foi e continua sendo endereço de famílias negras tradicionais entre a cuiabania. Anos depois, foi no Centro a fundação da Casa das Pretas. 

“Nasci nesse contexto, de movimento social, de encontro. A gente fazia muito isso em uma comunidade extremamente preta, de fazer quitute, festa de santo, reunir final de semana, Páscoa, sempre aqui no centro. Minha família é aqui da Batista das Neves com a Monsenhor Trebaure, onde meu avô se instalou, e nós éramos do Aráes”. 

Desde criança, ela e os irmãos frequentavam a Igreja do Rosário e São Benedito. O pai chegou a ser presidente do Conselho Paroquial. Dentro da religião, Geraldo começou a discutir direitos humanos. 

“Naquela época tinha a Pastoral do Negro, então venho dessa linha de uma discussão mais politizada espiritualmente, porque a igreja traz a tona as discussões da sociedade e eu, mesmo pequena, não sabendo que isso era uma discussão política, já participava”. 

A Nieta militante nasce no contexto da igreja, o movimento social dentro das igrejas é uma das diferenças entre passado e presente. Para ela, a igreja era combativa e ensinava sobre o que Jesus pregava: respeitar o próximo.  Como católica, ela continua seguindo tal premissa. 

“Muito diferente do que vemos hoje, a gente via uma igreja combativa, que pregava o que Jesus pregava, sobre ajudar o próximo, respeitar, Jesus que lavava o pé da prostituta. É dessa igreja que falo e venho, que tinha um olhar humanitário para o outro, hoje nem podemos falar sobre direitos humanos”. 

A principal referência de Nieta partiu aos 50 anos, em julho de 1989. A história do pai foi imortalizada no curta “Geraldo Henrique Costa e o devir preto”. 

“Meu pai era um homem negro, que casa com uma mulher negra, tem cinco filhos negros, sempre participou de sindicatos, sempre foi uma pessoa extremamente política na perspectiva dos direitos, era uma pessoa atenta a cobrar os direitos”. 

Um dos pontos questionados por Nieta é o embranquecimento da cuiabania que apaga histórias como a da família de Geraldo. A professor explica que o Centro Histórico é a base da comunidade negra, construído por negros com “telha de coxa”. 

“Todos os fósseis encontrados que foram construídos por mulheres negras e artesãs, os vasos, então as nossas mãos, suor e sangue, está aqui, mas o apagamento da história acontece a todo momento. É muito mais fácil apagar a história de um povo e falar: as famílias são essas. Ficamos como o resto, mas no nosso caso, a gente nem é resto, porque quantas vezes você vê falar das famílias negras? Em quantos livros?” 

Dira Paes visitou Casa das Pretas quando esteve em Cuiabá para o Festival de Cinema e Vídeo em setembro do ano passado. (Foto: Arquivo Pessoal) 

Luta diária 

“Luta diária”, é como Nieta define a rotina na Casa das Pretas. Além do aluguel que precisa desembolsar todos os meses e do orçamento que insiste em fechar no vermelho, muitas vezes completado com recursos próprios, o espaço cultural é alvo de boicote na Praça da Mandioca, como conta a professora. 

Em um dos episódios, por conta das oficinas do grupo de maracatu, Nieta lembra que a Casa das Pretas foi apontada como “macumba”. “As pessoas fazem, a gente sente no dia a dia. Mas existe uma coisa que eles não sabem, existe um Deus, existe ancestralidade e uma voz que não vai se silenciar. A cada voz que se silencia, surgem mais vozes, elas se multiplicam”. 

A professora segue na militância guiada pelo senso de comunidade. Mesmo com as dificuldades, como os períodos entre editais, forma que conseguem recursos para continuar, ela conta que a equipe que ajuda a Casa das Pretas a funcionar está alinhada no mesmo propósito. 

“Essa dinâmica não é tão fácil, mas quero dizer que ela não é pesada para gente, porque quando você tem um ideal de luta, você consegue entender que as pessoas precisam de você, vai além, é para além de Nieta. Todo mundo que está aqui se doando hoje, é para além”. 

Nieta chama atenção para o genocídio dos jovens negros no Brasil. (Foto: Arquivo pessoal)

A meta é comprar o imóvel onde a Casa das Pretas funciona atualmente. Além de conseguirem manter o espaço, Nieta faz cálculos com o valor do aluguel, que poderia ser destinado para salários e atividades no local. 

“Isso aqui é um templo cultural, educacional e um espaço para agregar todas as culturas, aqui já veio gente de todas as cores e raças. Se eu não respeito a diferença, não estou preparada para o mundo, para a fé e para ser cristã, porque Jesus respeitava as diferenças, Jesus acreditava no outro. Se eu não acredito, a minha fé é falácia”. 

Durante a entrevista, Nieta chama atenção para um número importante: “antes de 23 em 23 minutos morria um jovem negro no Brasil, agora é de 4 em 4 minutos. Enquanto a gente passou esse tempo batendo papo, quantos jovens morreram por arma letal nesse país? É o mimimi de quem?”. 

As palavras do pai acompanham Nieta em sua militância. Foi dele que ouviu sobre a importância de se ter consciência negra, por exemplo. Algo que lhe fez entender a seriedade do trabalho no movimento negro e na luta contra o genocídio da população negra. 

“Falar a palavra negro pesa para algumas pessoas, porque não têm o que a gente chama de consciência negra. É o que meu pai sempre dizia, não basta ser negro, tem que ter consciência negra. Ele falava muito: Quem quiser brincar, que brinque, mas não de movimento negro, porque esse é luta”.
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