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Quinta-feira, 23 de maio de 2024

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Há três décadas, mineiro que aprendeu profissão com o pai tem sapataria em casa antiga no Porto

Foto: Bruna Barbosa/Olhar Direto

Há três décadas, mineiro que aprendeu profissão com o pai tem sapataria em casa antiga no Porto
Entre imóveis que já passaram por modernizações ou foram demolidos, a fachada e o ladrilho hidráulico da Sapataria Amorim resiste há quase três décadas na Rua 13 de Junho. Sapateiro “desde criança”, Everton Fernando Amorim Lopes, de 58 anos, administrou a própria fábrica, que produzia sapatos e malas de couro freneticamente no local. 


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A produção parou com o passar dos anos, mas ele ainda passa os dias na máquina de costura consertando sapatos e atendendo clientes fiéis ao tempo. Usando uma das botinas que produziu sozinho nos anos áureos da sapataria, Everton mostra outras peças que foram fabricadas por ele. 

“Bota de militar da cavalaria mesmo, muitas que tem por aí ainda fui eu quem fiz, acho que tem uns 15 anos, porque depois começaram a fazer pregão e comprar de fora. Você não conseguia ganhar a licitação. Fiz mala para o Tribunal de Justiça para transportar processos. Forrada de couro, com armação de ferro e alça. Fiz as botas da cavalaria sob medida, eles vinham um por um para tirar medida. Era outro tempo”. 

Enquanto mostra os detalhes da botina que usa nos pés, o sapateiro elenca as diferenças entre um sapato produzido artesanalmente e afirma: “duram uma vida inteira”, enquanto aponta para o solado reforçado e para os detalhes que imitam escamas. 

“De vez em quando alguns passam ‘batendo casco’ e tem bota minha no pé deles. Ainda tem, porque dura uma vida inteira, estraga o zíper ou o solado e é só arrumar, se o cara for cuidador, passa uma graxa e vai embora. Não é uma bota de linha de produção que cada um faz um serviço, como numa fábrica de botas”. 

Everton abriu a sapataria em 1994 e, depois de uma pausa breve para os cálculos, comemora que o local vai completar 30 anos de existência em abril. Funcionando no mesmo ponto na região do Porto. As bananas da terra que ficavam penduradas na porta de uma das casas, onde funcionava uma quitanda, também ficaram registradas na memória de Everton. 

Everton alugou o imóvel em 1994 e, depois, conseguiu comprá-lo. (Foto: Bruna Barbosa/Olhar Direto)

O local era administrado por seu Quitão, como conta o sapateiro. Ele ainda se lembra do nome de alguns dos outros vizinhos, como o médico Benedito e a espírita dona Odete, mas lamenta que a rua já não é mais a mesma. No terreno da frente, um trator aterrou parte da história da Cuiabá do passado, transformando as casas antigas, que serviram de morada para saudosos conhecidos do sapateiro, em estacionamento. 

“Nossa Senhora, em 30 anos está totalmente transformado. Aqui na frente era a casa do dr. Benedito, que era consultório também, virou delegacia da Polícia Civil e depois compraram para fazer um hotel. Do lado era a dona Odete, era espírita, do lado era o seu Púbio, que tinha uma padaria, já faleceu. Nada mais é como era antes, foi passado trator na frente, era um casarão antigo, tudo aqui era”. 

Há alguns anos, Everton recebeu uma proposta para vender a sapataria que começou pagando aluguel de 120 URV (manobra que visava amortecer a inflação em cruzeiros reais, que era a moeda então vigente), até que depois de produzir muitos sapatos juntou o dinheiro que precisava para comprar o imóvel, onde antes funcionava uma autopeças. 

A proposta também chegou aos ouvidos de outros proprietários de imóveis do quarteirão, Everton não sabe dizer o que seria construído no lugar, mas desconfia que era algo grande. 

“Tentaram comprar quase o quarteirão inteiro, chegaram em mim, mas alguns endureceram. Iam fazer uma obra grande, mas não sei o que era, mas no fim não deu certo. Coloquei um preço estratosférico para não vender, fiquei pensando que iria abrir mão do meu ganha pão de três décadas, até eu refazer tudo isso em outro lugar, teria que compensar”. 

Profissão que começou com o pai 

Aos 15 anos, Everton ouviu do pai que precisava de um ofício. “Naquela época não era moleza, sou acostumado a trabalhar desde novinho”, contextualiza o sapateiro. Foi assim que ainda em Minas Gerais, onde nasceu, começou a trabalhar em uma fábrica de sapatos para aprender a costurar. 

Antes de fixar moradia em Mato Grosso, Everton conta que o pai rodou o Brasil “igual cigano”. Eurico Amorim da Costa, hoje com 84 anos, é aposentado como investigador da Polícia Civil de Mato Grosso, mas aprendeu a ser sapateiro ainda jovem, assim como o filho. 

Sapataria ainda tem peças produzidas por Everton quando uma fábrica funcionava no local. (Foto: Bruna/Olhar Direto)

“Na época que meu pai aprendeu, lá pela década de 60, meu avô tinha condições e pagou para ele aprender, meu pai estudou o básico. Meu avô tinha fazenda, era bem de vida, pagou para o dono para ensinar um ofício, como falavam na época. Assim meu pai fez, aprendeu e, depois, meu avô montou para ele toda uma estrutura para ele trabalhar, com máquina e tudo”.

Everton brinca que o pai era “descabeçado” e pouco tempo depois vendeu tudo que tinha na sapataria para viajar. Em cada cidade que passavam, Eurico seguia o ofício de sapateiro, trabalhando em fábricas pelo Brasil. Até passar no concurso público, em 1986, ele foi sapateiro ao lado do filho. 

“O único lugar que ele parou mais para construir alguma coisa, ter uma casa, foi aqui. Antes ele não parava, ia na frente para um lugar, arruma um trabalho e, de repente, mandava um caminhão buscar a família. Ele era assim, igual cigano. Comprou um terreno em Várzea Grande e fez uma casa, está até hoje, hoje em dia ele mora em Santo Antônio”. 

Uma das primeiras coisas que Everton aprendeu com o pai foi costurar couro. “Ele me disse: vai aprender a costurar, dominar a máquina”, lembra o sapateiro. O mineiro que já se considera cuiabano conta que gostou de aprender o ofício. “Naquele tempo a gente aprendia de tudo um pouco”. 

Com a experiência na produção de sapatos, principalmente feitos em couro, Everton começou a trabalhar em fábricas de calçados. Aos poucos comprou máquinas básicas para conseguir abrir a própria sapataria. O sapateiro explica que, naquela época, Cuiabá tinha muitas fábricas de sapato que, aos poucos, foram fechando por falta de demanda e mão de obra. 

“Comprei as três máquinas básicas, principais para começar. Mas antes disso já tinha começado a fazer pequenas encomendas enquanto trabalhava em uma fábrica de sapatos. Aqui em Cuiabá tinha muita fábrica de sapato, hoje está em decadência, tinha algumas especializadas em um tipo de calçado, por exemplo, de segurança. A maioria foi diminuindo por falta de mão de obra”. 

Depois de anos comandando a própria fabricação de sapatos no imóvel do Porto, Everton precisou fechar. O trabalho não compensava mais. Dentro da sapataria, ele ainda guarda pedaços de couro que sobraram da época. 

“Parei de fabricar sapatos, porque fiquei sozinho e parei de investir, não compensa mais. Ainda tenho muito couro da época aqui, muito material. Pego serviços de calçados femininos que são mais caros, por exemplo, e a pessoa quer arrumar. Ainda tenho clientes que vem fazer serviço desde os primeiros anos de sapataria”.

Apesar de parecer uma profissão em decadência, como conta Everton, a sapataria ainda é o seu “ganha pão”, mas o sapateiro concorda que não há mais interesse em aprender o ofício. 

“Esse ofício vai parar em mim, não houve interesse, não tenho filhos, se tivesse filhos poderia, talvez, tentar passar para frente, mas também não seria uma garantia. As pessoas ficam espantadas que a sapataria é meu ganha pão, mas tem demanda”.
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