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Quinta-feira, 13 de junho de 2024

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Podcast nacional conta história da morte de missionário indigenista em Mato Grosso

Foto: Arquivo/CIMI

Podcast nacional conta história da morte de missionário indigenista em Mato Grosso
A história da morte de Vicente Canãs, missionário espanhol que foi assassinado em abril de 1987, na Terra Indígena Enawenê-Nawê, localizada em Juína (a 730 km de Cuiabá), é tema de um episódio do podcast "Rádio Novelo Apresenta", lançado na última quinta-feira (4). O trágico assassinato do jesuíta que foi batizado pela comunidade indígena teve um longo julgamento, levando à condenação do agenciador da morte, o ex-delegado da Polícia Civil de Mato Grosso, Ronaldo Osmar, apenas em 2017, 30 anos após o crime. 


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“Em vida, Vicente Cañas foi um ser que vagava entre mundos. Um jesuíta espanhol que migrou para o Brasil, ele começou a contatar povos isolados na esteira de uma tragédia. Acabou virando Kiwxí – o único branco batizado pelo povo Enawenê-nawê como um dos seus. Quando seu corpo mumificado apareceu na beira do rio Juruena, teve início um mistério que levaria anos para ser resolvido. Enquanto isso, partes do Vicente – de seu corpo e de seu legado – peregrinariam país afora”, diz sinopse do episódio 58 do podcast, com direção criativa de Paula Scarpin e Flora Thomson-DeVeaux.

No decorrer do primeiro episódio do ano do podcast, Flora traz a história de Vicente, que perdurou por anos na Justiça brasileira.

A Rádio Novelo é a maior produtora de podcasts com DNA jornalístico do país. Fundada em 2019, no Rio de Janeiro, é responsável por mais de 20 produções, como o já encerrado Foro de Teresina, da revista Piauí.



Vicente Cañas

Conhecido e estimado por diversos povos indígenas da região noroeste do Mato Grosso, Kiwxí teve uma importância histórica no trabalho indigenista junto a povos em isolamento voluntário ou povos livres. Ele viveu na região por mais de dez anos.

O trabalho de Vicente foi também fundamental para o início do processo de demarcação da Terra Indígena dos Enawenê-Nawê. Ele era integrante do grupo de trabalho da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que atuava nos estudos de demarcação. Após sua morte, o povo finalmente conquistou, oficialmente, sua terra.

O jesuíta constantemente denunciava a presença de fazendeiros e madeireiros nas áreas dos povos indígenas, por isso, era uma ameaça para eles. 

Em abril de 1987, enquanto se preparava para voltar à aldeia dos Enawenê-Nawê (chamada, na época, de Salumã), Cañas foi surpreendido pelos assassinos, que o atacaram quando ele voltava do rio, onde estava tomando banho. Em seu barraco, nas margens do Rio Juruena, o missionário foi agredido, morto e deixado ali, caído no chão, sem roupas.

Alguns sinais do violento assassinato foram a cabana toda revirada em que residia para fazer suas quarentenas, os óculos e dentes quebrados, o crânio quebrado, uma perfuração na parte superior do abdômen para atingir o coração e os órgãos genitais cortados ou arrancados.

Seu corpo foi arrastado para fora da cabana para que os animais o comessem e destruíssem as provas. No entanto, foi encontrado 40 dias depois, mumificado e conservado. Na manhã do dia 22 de maio, ele foi enterrado como os indígenas, em sua própria rede, em um buraco cavado a 4 metros de distância de onde o corpo havia sido encontrado. Vários indígenas Enawenê-nawê, Rikbaktsa e Mÿky, juntamente com vários missionários e leigos, fizeram seu sepultamento.

Desde o primeiro momento após o assassinato suspeitou-se dos latifundiários da região, que não aceitavam a defesa que o jesuíta fazia pela demarcação do território tradicional indígena. 

Presume-se que a ordem de executar Vicente partiu do então proprietário da Fazenda Londrina (Pedro Chiquetti), já falecido, embora a execução tivesse ficado a cargo de três outras pessoas. Essas três pessoas foram mais tarde assassinadas, para não revelarem a verdade sobre os fatos. 

O acusado, Ronaldo Antônio Osmar, na época, era delegado da Polícia Civil em Juína (MT) e intermediou o interesse dos fazendeiros não só se omitindo de suas funções, como arregimentando e orientando o grupo que tirou a vida do jesuíta.

O primeiro julgamento sobre o assassinato aconteceu apenas em 2006, 19 anos após o crime, e os réus foram absolvidos por falta de provas. Conforme noticiado pelo Olhar Direto, em 2017, um novo julgamento em Cuiabá condenou Ronaldo, único acusado ainda vivo.
 
Túmulo de Vicente

 
(Com informações do Conselho Indigenista Missionário)
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