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Sexta-feira, 21 de junho de 2024

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Cuiabano que virou comissário de bordo já conheceu o Brasil e mais seis países: 'o céu não é o limite'

Foto: Reprodução

Cuiabano que virou comissário de bordo já conheceu o Brasil e mais seis países: 'o céu não é o limite'
Quando decidiu se matricular em um curso de comissário de bordo, na época oferecido por uma escola de aviação em Cuiabá, Pedro Henrique Lopes Martins, de 32 anos, ouviu de algumas pessoas que a profissão não era compatível com a realidade de alguém que cresceu no bairro Tijucal, periferia da cidade. Atualmente, Pedro trabalha como comissário de bordo da Azul, já passou por todos os estados brasileiros e se prepara para realizar voos internacionais. 


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Por ter crescido em uma família com poucos recursos financeiros, ele estudou em escolas públicas perto de casa. Viagens de avião, assim como acesso a cursos de idiomas, algo necessário para se trabalhar na aviação, também não fizeram parte da realidade de Pedro e a desigualdade social que estava inserido representava alguns degraus a mais na busca pelo sonho. 

“Era um sonho bem distante, nasci e cresci no Tijucal, não era nem algo que fazia parte da minha rotina, nem imaginava, na verdade. Minha mãe sempre me apoiou, mas as pessoas não apoiavam, falavam que era algo para gente rica e isso me desmotivou muito, mas fui atrás para saber sobre o curso. Sempre insisti, queria saber mais sobre a profissão e concluí o curso”. 

Pedro descobriu sobre a profissão despretensiosamente, enquanto conversava com uma comissária de bordo em Cuiabá sobre não estar mais se identificando com o curso de Medicina Veterinária que estava fazendo na UFMT de Sinop. 

Na época, Pedro tinha 19 anos e havia viajado de avião apenas uma vez na vida. Algo que, inicialmente, o afastou ainda da profissão de comissário de bordo, já que sequer sabia ao certo o que ela representava. 

“Ela perguntou: por que você não faz o curso de comissário? E me explicou que Cuiabá tinha uma escola. Isso foi em dezembro de 2012, em janeiro comecei o curso. Só que era algo tão distante para mim, tanto viajar de avião mesmo, quanto a profissão, que eu nem sabia da existência”. 

Mesmo assim, ele conta que decidiu que “queria tentar sonhar um pouco mais”. Concluiu o curso e fez a prova da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em 2015, para poder exercer a profissão. Pedro lembra que, logo em seguida, surgiu a oportunidade de participar da seleção para equipe da Avianca e da Azul. 

“Passei nas duas, mas a Azul não estava chamando na época, eles fizeram a seleção, mas acabaram congelando porque a aviação não estava em alta mais, estavam passando por um período difícil por conta da alta do dólar. A Avianca chamou e eu consegui entrar, foi quando as pessoas viram que era possível e que não poderiam duvidar”. 

Para Pedro, o trabalho como comissário de bordo representa a realização de um sonho. (Foto: Arquivo pessoal)

“O céu não é o limite” 

Quando passou a integrar a equipe de comissários de bordo da Avianca, Pedro começou a compartilhar um pouco da nova rotina em seu perfil do Instagram. As postagens fizeram um conhecido, também morador da periferia de Cuiabá, se interessar pela profissão e acreditar que conseguiria, assim como Pedro. O cuiabano brinca que “o céu não é o limite” e que mesmo com a desigualdade de privilégios, todos podem sonhar. 

“Isso trouxe mais pessoas para a profissão, um conhecido que era do CPA, depois que me viu entrando, conseguiu fazer o curso e hoje voa para fora do Brasil. Através das redes sociais já consegui mostrar um pouco da profissão e interessar mais pessoas, porque às vezes parece que é uma realidade muito distante, de acesso só para quem já vem de famílias com melhores estudos e tudo mais”. 

Na Avianca, ele teve oportunidade de conhecer parte da América do Sul quando foi escalado para voos na Argentina e Colômbia. No Brasil, Pedro já passou por todos os estados. Depois de sair da empresa, ele foi contratado para ser comissário de bordo da Azul e, agora, tem como meta fazer parte das escalas de voos internacionais. 

Ele explica que para um comissário de bordo trabalhar em voos para fora do Brasil são avaliados dois quesitos: tempo de casa e fluência em um idioma. Por isso, ele tem feito aulas de inglês frequentemente para o sonho se realizar. Falar sobre o trabalho é motivo de emoção para Pedro, que avisa estar com os olhos cheios de lágrimas enquanto conta sua história pelo telefone. 

“Chego até a me emocionar de pensar. Nas últimas férias consegui conhecer seis países, que era algo muito fora da minha realidade, algo que durante a infância nunca nem sonhei, nem imaginei que um dia iria sair do Brasil e eu consegui, persistindo. Fui para França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Maldivas e Turquia”. 

A reação da mãe quando Pedro a visita uniformizado na casa em que ela mora até hoje no bairro Tijucal também é motivo de emoção para o comissário de bordo. No dia a dia, o mesmo olhar de encantamento se repete entre os passageiros e pelos corredores dos aeroportos em que passa. 

“Para ela é uma emoção muito grande. Ela ainda não teve oportunidade de ir em um voo meu, mas estou planejando para esse ano. Os vizinhos olham, é algo muito diferente e fora da nossa realidade. É um encantamento e ainda me emociono por ter conseguido alcançar um sonho que era tão distante. Minha mãe sempre me apoiou, me encorajou a tentar, mesmo ouvindo de muitas pessoas que seria impossível chegar até aqui”. 

Ele conta que ainda se emociona ao entrar em um das aeronaves da Azul para trabalhar. (Foto: Arquivo pessoal)

Rotina na aviação 

Mesmo na correria do dia a dia, que muitas vezes causa a sensação de “piloto automático”, Pedro ainda sente o mesmo frio na barriga da primeira semana de trabalho quando olha a aeronave lotada de passageiros. Por conta da realidade de ter crescido em uma periferia, ele explica que sempre busca dar atenção para quem está voando pela primeira vez. 

“Na aviação é tudo muito dinâmico, muito rápido, então, às vezes para muitas pessoas que trabalham ali é só a rotina, mais um voo. Quando vejo alguém voando pela primeira vez, tento explicar como funcionam as coisas e tento fazer um voo diferenciado. Até hoje, mesmo tantos anos depois, ainda me emociono quando chego para trabalhar. Consegui chegar aqui”. 

Pedro conta que uma das partes preferidas da rotina como comissário de bordo são as novidades diárias, já que apesar do trabalho ser o mesmo, o destino e as histórias que ocupam as poltronas da aeronave nunca são as mesmas. No momento da entrevista, ele estava em Natal se preparando para decolar para Campinas. 

“Às vezes eu posso acordar no frio de Curitiba e dormir no calor de Natal. O que mais gosto da profissão é não ter rotina, enquanto as pessoas que estão em trabalhos no solo tem folga aos finais de semana, eu posso ter folga em uma segunda ou terça, é sempre uma coisa nova. Por mais que seja o mesmo trabalho sempre, as experiências são novas, nunca são as mesmas pessoas, não tenho hora para dormir ou acordar. Isso é o que mais me encanta”. 

Para os jovens que moram nas periferias de Cuiabá e sonham com oportunidades melhores mesmo com a falta de acesso, Pedro resume: “o céu não é o limite”. 

“Era um sonho tão distante e tão fora da minha realidade, tinha voado apenas uma vez, achava algo muito bonito ‘viver nas alturas’. Hoje o estudo é o mais importante para poder conseguir e mesmo que seja como eu, que estudei em escola pública, fiz o EJA para concluir o terceiro ano e fui contra toda a corrente de vento para conseguir alcançar o sonho de voar”.
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