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Terça-feira, 21 de maio de 2024

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Em 2004, professor da UFMT esteve na Caxemira para cobrir guerra semelhante a de Israel e Palestina

Foto: Vinicius Souza e Maria Eugênia de Sá

Em 2004, professor da UFMT esteve na Caxemira para cobrir guerra semelhante a de Israel e Palestina
Para conseguir chegar à Caxemira, no extremo norte da Índia, onde a entrada da imprensa estrangeira é proibida, o jornalista, professor da UFMT e pesquisador Vinicius Souza e a fotojornalista Maria Eugênia Sá, precisaram fingir que eram um casal em lua de mel para conseguirem chegar na região que fica dividida entre China, Índia e Paquistão. O conflito pelo território, semelhante ao que ocorre entre Israel e Palestina, se arrasta desde 1947. 


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Como jornalistas independentes, Vinicius e Maria Eugênia, que são casados e compõem o MediaQuatro, passaram por Terezin, na República Tcheca, que foi usada como campo de concentração nazista, Colômbia e Peru, onde fizeram uma cobertura sobre minas terrerestres, e Angola, onde estiveram para ouvir sobre a esperança do fim da guerra que acabou em 2002, após quase três décadas de conflito. 

Vinicius explica que os trabalhos fazem parte de uma pesquisa nomeada por ele como “Realidades e Invisibilidades Midiáticas”, em que o jornalista busca pautar, de forma independente e com recursos próprios, o que não ganha foco nas grandes mídias. “Aquilo que você sabe porque aparece na mídia e o que você não sabe porque ela não mostra”, define. 

Assim como a Palestina, que teve dois terços do território tomado pela criação do Estado de Israel, em 1947, Caxemira passou a ter parte da região ocupada militarmente pela Índia e pelo Paquistão. Vinicius explica que, com a descolonização do subcontinente indiano, foram criados três países por maioria religiosa: Bangladesh, Paquistão e Índia. 

“Você tem, entre o Paquistão e a Índia, a Caxemira. Os caxemirianos não são hindus, a maioria é muçulmana, mas eles não são paquistaneses, eles não falam árabe. Eles falam caxemira e tem sua própria cultura. Só que é um território ocupado por nações estrangeiras há mais de 500 anos, tem registro de ocupação dos mongóis de gengis khan, afegã, britânica”. 

Vinicius conta que, na época, o governador da Caxemira era um príncipe hindu que recebeu uma promessa de autonomia caso apoiasse o Estado indiano, apesar da maioria no território ser muçulmana. O Paquistão não aceitou e, como Caxemira não poderia lutar sozinha contra o país vizinho, pediu intervenção do governador da Índia. 

“A Índia ocupou militarmente praticamente dois terços do território e o Paquistão um terço, ainda tem um pedaço pequeno desse território ocupado militarmente pela China. Desde 1947, quando a ONU decidiu que deveria haver um plebiscito para decidir o destino da Caxemira, por conta do conflito entre Índia e Paquistão, essa resolução nunca foi aplicada”. 

Vinicius e Maria Eugênia tinham viajado para a Índia em uma cobertura independente sobre hanseníase no país, que ocupa o primeiro lugar no mundo em número de casos da doença. No entanto, eles foram barrados e não encontraram abertura para falar com as entidades responsáveis sobre o caso. Foi assim que chegaram na Cruz Vermelha e decidiram entrar na Caxemira. 

“Estava tendo eleição na Caxemira quando fomos, eles fizeram um comício para o boicote às eleições, para denunciar a fraude nas eleições. O Syed Ali Geelani, presidente e o vice do partido foram presos e torturados durante a noite toda. O vice-presidente foi para o hospital em coma. Syed Ali Geelani foi libertado 7h, deu uma entrevista para nós às 9h e meio-dia ele foi preso de novo. Temos essa entrevista dele falando sobre isso”. 

De acordo com o jornalista, a Caxemira era o estado que detinha o maior número de atentados terroristas suicidas no mundo, ultrapassando a Palestina. “Até hoje morrem pelo menos 30 pessoas por semana em questão do conflito armado, gente que não sabe o que é uma vida sem guerra e sem conflito. Uma das coisas que fomos fazer na Caxemira foi entrevistar os Médicos sem Fronteiras, que têm um trabalho sobre saúde mental”. 

Paciente em hospital psiquiátrico dirigido pelos Médicos Sem Fronteiras (Srinagar – Caxemira, 2004)

O casal de jornalistas não atravessou a fronteira para o lado ocupado pelo Paquistão na Caxemira, mas Vinicius conta que os relatos sobre a ocupação militar indiana são brutais e envolvem uso de estupro em massa como arma de guerra. 

“O que tentamos fazer neste trabalho sobre a Caxemira é exatamente mostrar, ‘olha, você tem uma situação que está acontecendo na Palestina, agora que está tendo um novo conflito todo mundo está ouvindo isso 24 horas na TV, mas não se sabe absolutamente nada sobre a Caxemira'”. 

Na Caxemira, eles fizeram um trabalho sobre saúde mental com os Médicos Sem Fronteiras. Das mãos de Syed Ali Geelani, eles receberam uma pilha de relatos de crimes de guerra e violação de direitos humanos, assim como acontece historicamente na Faixa de Gaza. Como entraram no país sob falsa alegação, com a história de que eram um casal em lua de mel, Vinicius ressalta que se ele e a esposa fossem pegos com o material da reportagem, ficariam presos no país.

“Falar sobre Caxemira é mais difícil do que falar sobre Palestina, não tem foco, é proibida a entrada de jornalistas estrangeiros, da mesma forma que hoje é proibido na Faixa de Gaza. Entramos sob falsa alegação, tivemos grandes interrogatórios, ficamos no hotel vigiados 24 horas por dia. É importante você ter jornalistas estrangeiros cobrindo isso, porque as notícias que saem na Caxemira, todas elas passam pelo crivo do exército indiano”. 

Violência comum na Colômbia e minas terrestres na América do Sul 

Depois da cobertura feita na Caxemira, Vinicius e Maria Eugênia decidiram ir à Colômbia em busca de entrevistas sobre saúde mental em meio aos altos índices de violência. O jornalista explica que, diferente do senso comum e da cobertura midiática, o problema não era causado pelo narcotráfico, por exemplo, mas por uma sociedade armada. 

“Bala perdida, polícia, marido traído, feminicídio, briga em baile de rumba, é exatamente a mesma coisa da violência comum que você tem em uma sociedade armada como é o Brasil, como é a Colômbia. Só que 90% das notícias de violência na Colômbia eram sobre tráfico de drogas ou guerrilha. Não estamos negando que existe o tráfico, a guerrilha e o conflito, mas a maior parte não tem nada a ver com isso”. 

Malik, líder separatista, minutos antes de ser preso novamente, em Srinagar (Caxemira, 2004)

Ainda na Colômbia, o jornalista lembra de ter comentado com um dos integrantes da Cruz Vermelha sobre a questão das minas terrestres em Angola, que foi registrada no livro “Angola - A Esperança de um Povo”, produzido por Vinicius e Maria Eugênia. Ele conta que ficou surpreso ao ouvir da Cruz Vermelha que a América do Sul também enfrenta uma situação grave com as minas terrestres. 

“Temos 11 países com minas terrestres, a Colômbia hoje é o terceiro maior país em número de novas vítimas de minas terrestres por ano e vai se tornar o primeiro no mundo. Falei: ‘como assim nunca ouvi falar disso?’. Resolvemos fazer um novo projeto sobre minas terrestres, voltamos para a Colômbia e fomos para o Peru para fazer isso”. 

Assim como na Caxemira, o casal de jornalistas também passou por situações desafiadoras para conseguir concluir a cobertura na Colômbia. “A gente quase se deu mal na Colômbia por causa das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ficamos em uma cidade que depois foi tomada por eles, se tivéssemos ficado lá teria sido um problema muito sério”. 

Já em Terezin, Vinicius e Maria Eugênia passaram duas semanas fotografando em uma residência fotográfica de um dos maiores nomes locais: Viktor Kolar. O jornalista conta que, a princípio, eles ainda não tinham um tema a ser desenvolvido durante a experiência, mas lendo um antigo de um jornal inglês, descobriram a história de descendentes alemães que buscavam por indenização após os familiares terem sido mortos pelos soviéticos. 

“Na época, isso era tabu inclusive na República Tcheca, porque você tinha um grupo de alemães, descendentes dessas pessoas, pedindo indenização do Estado pelo eles sofreram. ‘Se os judeus receberam indenização por terem sido massacrados, mortos e roubados pelos nazistas, porque a gente não pode ter coisas parecidas, já que sofremos coisas parecidas nas mãos dos soviéticos’. Era um tabu”. 

Durante o período nazista, Terezin serviu como “cenário” de um documentário feito pelos nazistas, que pretendiam mostrar à Cruz Vermelha que os judeus não eram torturados no local. 

“Obviamente, depois que terminou o documentário, essas pessoas foram massacradas. Terezin nunca foi um campo de extermínio, mas pelo menos 5 mil judeus foram mortos e queimados lá durante a Segunda Guerra. Quando o exército soviético venceu os alemães, entrou na Tchecoslováquia, a Cruz Vermelha encontrou esse povo preso em Terezin, mas não pode libertar por conta de um surto de tifo na cidade”. 

América Minada - Colômbia/Peru - 2004/2005

Interdição do debate sobre o genocídio palestino 

Em Terezin, Vinicius lembra que foi interpelado por descendentes de judeus que estavam no país para resgatar a história dos familiares que sofreram no campo de concentração nazista. O jornalista explica que apenas trabalha com realidades que também precisam ser mostradas e às vezes se escondem nas sombras do foco dado para outras realidades parecidas.

Vinicius compara a situação com o genocídio israelense na Faixa de Gaza, que já contabiliza quase 9 mil mortes no 21º dia de bombardeio. “A grande arma hoje da extrema direita israelense é chamar todo mundo que critica o governo e as ações do Estado de Israel como sendo antissemitas. Isso simplesmente não é verdade, uma coisa é racismo, antisemitismo e discurso de ódio, isso é uma coisa tradicionalmente da extrema direita no mundo inteiro, o nazismo é fundado nisso”. 

O jornalista explica o governo de extrema direita tem construído o aparthaid em Israel há 75 anos e isso não pode ser confundida com antissemitismo. “Foi uma luta já nesse momento dentro da minha carreira fazer essa discussão e estamos falando de 2001, mais de 20 anos atrás, já era uma questão e sempre foi. Isso tem que ficar muito bem delimitado para começarmos a discutir o que está acontecendo hoje na Palestina”. 

Vinicius ressalta que, apesar de não haver como controlar opiniões sobre o genocídio do povo palestino, o conflito entre Israel e Palestina não é bíblico ou milenar. Ele explica que a situação é datada de 1947 e trata-se de uma limpeza étnica.  

“As pessoas tem me consultado sobre a guerra, costumo dizer que, primeiro, não é um conflito milenar ou religioso, não tem nada haver com islamismo, cristianismo ou judaismo. É um conflito étnico. É muito ruim dizer que Israel está praticando uma limpeza étnica, mas o nome é esse. A solução final é o extermínio de todos, a religião é uma cortina de fumaça, também não tem nada a ver com um direito histórico ou bíblico de Israel”.
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