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Segunda-feira, 17 de junho de 2024

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feita no pilão

Cuiabano mantém tradição pantaneira que aprendeu com os avós com paçoca de torresmo e banana frita

Foto: Olhar Direto

Cuiabano mantém tradição pantaneira que aprendeu com os avós com paçoca de torresmo e banana frita
Quando soca o torresmo, a farinha e a banana verde frita no pilão, o motorista cuiabano Edson Ferreira da Cruz, de 65 anos, relembra dos momentos em que a iguaria pantaneira foi servida pelos avós como quebra-torto, um desjejum reforçado e tradicional. A receita da paçoca de torresmo que antes era feita pela avó de Edson, agora é reproduzida por ele no quintal da casa em que mora com a esposa há quatro décadas no bairro CPA 2, em Cuiabá. 


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Ele conta que os avós, cuiabanos de “tchapa e cruz” (quem nasce, vive e morre em Cuiabá), criaram ele e os irmãos com muitas comidas típicas como a paçoca de pilão, o escaldado engrossado com farinha de mandioca e a Maria Isabel. Por isso, a cultura da terra em que nasceu sempre esteve presente na cozinha de Edson. 

“Minha avó paterna era bem indígena, meu avô era pantaneiro. Na rusticidade dela, minha avó fazia licor de leite, furrundu, carne seca, linguiça, que ela botava em cima do fogão de lenha para ir secando. Quando faço e como, relembro lá daquele tempo, parece que estou vivendo naquele tempo antigo”. 

Por gostar de cozinhar e receber as pessoas queridas, Edson e a esposa, Maria Leonina Ribeiro Cruz, de 62 anos, reservaram um cantinho especial nos fundos de casa, com churrasqueira e mesa espaçosa para os convidados. É nele também que o motorista posiciona o pilão em cima de um tapete de crochê, para amenizar o impacto no piso, para preparar a paçoca de torresmo pantaneira. 

“Meu pai também era bom de fazer comida, fazia peixe muito bem.Minha mãe também cozinhava muito bem, fazia uma comidinha que a gente não conseguia parar de comer, era simples, mas muito gostoso. O pilão sempre está na nossa vida, é difícil a casa de um cuiabano mesmo sem um pilão”. 

Para fazer a paçoca, Edson começa fritando o torresmo e têm as próprias técnicas para que ele fique extremamente crocante. No pilão, ele acrescenta cebola refogada, pedaços de carne de porco e farinha de mandioca, que ele torra duas vezes para que ela também mantenha a crocância no prato. 

Depois de socar tudo muito bem, o motorista finaliza a paçoca de torresmo com a banana verde frita, que também passa pelo pilão para que fique “triturada”. Edson aconselha que a iguaria seja servida com arroz sem sal, como era em sua infância, e com uma bananinha ao lado, como manda os costumes cuiabanos. 

“Essa receita é dos nossos antigos do Pantanal, da Cuiabá velha… hoje você não acha mais isso nos restaurantes. Hoje tem gente que não conhece, nunca comeu e não vai comer, porque os restaurantes não fazem mais, quem faz somos nós cuiabanos das antigas”. 

Mantendo uma tradição viva 

A paçoca de carne feita no pilão já fazia parte dos almoços de família de Edson e Maria Leonina, mas ele conta que não tinha costume de preparar a receita de torresmo e banana verde frita, que ficou guardada nas memórias de infância. Em um desses dias que estava em casa cozinhando, o motorista resolveu fazer o quebra-torto pantaneiro e levou para os colegas de trabalho experimentarem. 

“A gente fazia a paçoca de pilão e carne seca com arroz, só para nós mesmo. O tio dele foi embora para São Paulo e deu o pilão de presente para ele, que tem mais de 50 anos. Ele fez a de carne e levou no serviço, o pessoal gostou muito”, conta a esposa do cuiabano. 

Edson trabalha como motorista no Ministério Público de Contas de Mato Grosso, onde as paçocas de carne e de torresmo feitas por ele já viraram sucesso. Ele conta que o prato ficou “esquecido” e que muitas das pessoas que experimentam nunca ouviram falar da paçoca de torresmo com banana frita. 

“Fiz e decidi levar para os meus colegas de serviço. Caiu nas graças da turma. Eles falam que nunca comeram. O cuiabano não fala que está gostoso, fala que está diferente, se falam isso para mim, já fico para lá de contente. Faço a paçoca de pilão também e vendo lá para eles”. 

Por enquanto, Edson vende a paçoca de torresmo apenas no trabalho, por R$ 35 e com uma banana de cortesia para compor a refeição. Por conta da rotina, ele ainda não tem condições de produzir o prato em maior escala. 

“Fico muito feliz de estar resgatando essa receita, que é uma iguaria cuiabana e pantaneira, a gente fazia muito em Poconé e Barão de Melgaço. Às vezes me perguntam em qual restaurante vão encontrar isso, mas não tem. É uma comida para dar sustança, para quem vai trabalhar o dia inteiro”. 

Natural de Minas Gerais, mas moradora de Mato Grosso há mais de 25 anos, Maria Leonina conta que não conhecia a paçoca de torresmo da forma que é preparada pelo marido. 

“Essa paçoca de banana com torresmo ele sempre falou que na infância eles comiam, mas eu não tinha experimentado. A minha mãe fazia só com farinha e torresmo. Quando experimentei, gostei muito. As pessoas mais de idade falam que conhecem a receita e que lembram da infância”, contou a artesã. 

Vida tranquila no CPA 2 

Maria Leonina lembra que quando ela e o marido receberam a notícia de que haviam sido contemplados com uma das casas de cohab do CPA 2, algumas pessoas disseram que eles estavam indo morar “no meio do mato”. Na época, a região ainda não havia passado pelo processo de expansão e tinha mais lotes vazios do que residências cuiabanas. 

“Não existia CPA 3 e 4, nem os bairros aqui por perto, eram chácaras pequenas, tinha um córrego que dava para tomar banho, mas agora é esgoto. Foi crescendo muito, hoje não precisamos sair daqui para nada. Agora queremos uma chácara para fazer nossas coisas e descansar. Brinco que quero montar um recanto só dos velhos”. 

Na casa em que vivem até hoje, os dois criaram a filha e hoje curtem uma vida tranquila, seja preparando a paçoca de torresmo no quintal ou recebendo os amigos. “Se deixar, todo final de semana tem uma galera”, se anima Edson. 

Quando se mudou para Mato Grosso, ela viveu em Rio Branco (a 350 km de Cuiabá) e ainda se lembra das comidas preparadas pela mãe. Para Maria Leonina, ela e o marido “se encontraram” no amor pela cozinha simples, mas que acende memórias.

“A gente não tinha conforto como temos hoje, mas minha mãe sempre fazia pão caseiro, biscoito de polvilho… Quando eu entro em uma casa e sinto cheiro de comida, um bolo que está assando ou um café, isso é aconchego. É na cozinha que todo mundo se reúne. São memórias que você não esquece mais”. 
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