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Segunda-feira, 17 de junho de 2024

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da Maria isabel ao peixe seco com arroz

Em quintal cuiabano com cajueiro e mangueira, tia de Bella Campos serve receitas tradicionais

Foto: Reprodução

Em quintal cuiabano com cajueiro e mangueira, tia de Bella Campos serve receitas tradicionais
Um cajueiro e uma mangueira são alguns dos detalhes acolhedores do quintal tradicionalmente cuiabano onde Bartulina Rosa do Nascimento Oliveira, de 60 anos, a “Rosinha”, serve pratos típicos como peixe seco com arroz e Maria Isabel. A gastronomia que ela aprendeu a fazer com a mãe quando morava às margens do Rio Cuiabá, em Barão de Melgaço (MT), agora é parte do cardápio do Recanto do Chinhô, no bairro Real Parque, em Cuiabá.


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O nome do estabelecimento foi escolhido por Rosinha para homenagear o pai, que era pescador e faleceu aos 85 anos. Apesar dele se chamar Sebastião Nazário do Nascimento, “Chinhô” era a forma que todos o conheciam em Barão de Melgaço. 

Rosinha não sabe explicar, com certeza, sobre a origem do apelido do pai, mas desconfia de que foi resultado da mistura do sotaque ribeirinho de Barão de Melgaço. “Acho que começaram chamando de senhor e virou ‘Chinhô’. Se procurassem por Sebastião, muitas vezes as pessoas nem saberiam que era ele mesmo”. 

Como o pai era pescador, Rosinha, que é filha única, aprendeu cedo a remar a canoa para o meio do rio e a compartilhar os momentos de pescaria com Chinhô. Com 12 anos, ela precisou deixar a vida simples no interior para estudar em Cuiabá, onde morou no Porto, com a avó. 

“Eu amo pescar, amo rio e natureza, cresci tendo outra vivência. Aprendi a remar, gostava de pescar com a canoa no meio do rio, os pescadores antigos do sítio chamavam de ‘carreriando’. Gosto muito dessa vida, só não estou indo com mais frequência porque nesse meio tempo perdi meus velhinhos”. 

Rosinha é tia da atriz cuiabana Bella Campos, que estrelou as novelas globais Pantanal e Vai na Fé. Ela fala com carinho da sobrinha que, da última vez que esteve em Cuiabá, apareceu de surpresa para comer o peixe preparado pela tia no restaurante. 

“Ela gosta muito de peixe, antes de começar a gravar Pantanal, ela ia na feira no Jardim Imperial. A última vez que ela veio aqui, minha tia, que é a avó dela, falou para preparar uma mesa para 12 pessoas, mas eu nem imaginava que ela estaria aqui. Somos muito próximas, ela foi criada assim desde pequenininha”. 

A atriz é chamada carinhosamente de “Belinha” pela tia, que rasga elogios sobre a humildade da cuiabana em continuar priorizando e fortalecendo suas raízes. Atualmente, Bella está em Cuiabá para participar das gravações do primeiro filme da carreira: “Cinco Tipos de Medo”, do cineasta Bruno Bini. 

“A Bella não perdeu as raízes dela, ainda vem aqui comer um peixe comigo. Meu irmão sempre foi muito humilde e procurou passar isso para ela. Quando minha mãe estava doente, ela ligava para fazer chamada de vídeo com minha mãe, chamava ela de avó também. Fico muito feliz de ver tudo que ela está conquistando”. 

Rosinha aprendeu a cozinhar com a mãe quando ainda era criança e hoje se dedica aos pratos da culinária cuiabana. (Foto: Olhar Direto)

Peixe seco com arroz 

Rosinha aprendeu a cozinhar com a mãe quando ainda era criança. Vez ou outra, a matriarca da família pedia para que ela olhasse uma panela. Ela ainda se lembra que ficava atenda “na beira do fogão de lenha” prestando atenção nos movimentos da mãe. Além de ser um dos sucessos do cardápio, o peixe seco com arroz faz parte de muitas memórias afetivas da infância no sítio de Barão de Melgaço. 

“Das receitas que vendo hoje, essa é a que mais está na minha lembrança. Lembro daquele varal cheio de peixe secando, como se fossem peças de roupa. Depois que secava, minha mãe jogava laranja azeda, porque era bom para espantar as moscas e mosquitos, ela também dava um sabor”. 

A receita de peixe seco com arroz surgiu da necessidade dos pescadores e suas famílias conseguirem armazenar o pescado por mais tempo, já que não tinham eletricidade, conta Rosinha. Depois de passar pelo processo de salga, a carne era usada para diversos tipos de pratos. 



“Minha família era pequena, sou filha única, então quando meu pai pegava um peixe grande, minha mãe tinha que salgar, chamavam de ‘mantear’. Ela colocava no varal com outros tipos de carne também, porque não tinha como armazenar. O peixe se comia com caldo, abóbora, mandioca e batata doce, sempre acompanhado com arroz sem sal”. 

Debaixo de uma mangueira no quintal do restaurante de Rosinha, o calor cuiabano de 40ºC parece aliviar alguns graus enquanto a ribeirinha tenta pescar algumas de suas memórias mais antigas. 

Rosinha explica que decidiu manter a essência cuiabana do quintal, por isso, mangas e cajus insistem em despencar dos pés durante a conversa. Perto de alguns engradados de cerveja, uma rede fica montada para receber quem quiser descansar após comer alguns dos pratos da cozinheira. 

Além do restaurante, Rosinha também é uma das feirantes assíduas da feira do bairro Jardim Imperial, em Cuiabá. Há oito anos, toda sexta-feira, ela leva pelo menos dez opções de prato cuiabanos e brinca que não pode esquecer a farofa de banana. “Se não tiver… Misericórdia”. 

“Hoje estou preparando uma panela de 10 litros de feijão, pilão, sarapatel, duas panelas grandes de Maria Isabel, costelinha de porco com arroz, galinha com arroz, pacu seco com arroz e ventrecha frita. Muitas vezes acaba tudo, tenho muitos clientes naqueles condomínios, o Jardim Imperial é muito grande”. 

Os filhos de Rosinha também herdaram a paixão da mãe pela gastronomia cuiabana. Orgulhosa, ela conta que quando precisa de ajuda no restaurante ou nos preparos da feira, os dois estão sempre prontos para ir para a cozinha. 

Recanto do Chinhô já foi sonho 

Quando começou a ser feirante no Jardim Imperial, Rosinha precisava se dividir entre a rotina como atendente na Unimed, onde trabalhou por 19 anos, e as receitas cuiabanas. Mas há dois anos deixou a empresa e decidiu usar o dinheiro da rescisão para reformar o quintal de casa para que pudesse atender os novos clientes. 

“Aqui era um sonho e depois que meu pai faleceu, decidi concretizar. Usei o dinheiro da rescisão para reformar, aqui era chão batido, quando chovia virava um lamaçal. Esse quintal sempre teve mangueira, cajueiro… Mas era um lugar para reunir com amigos e família mesmo”. 

Para não perder a essência de um quintal cuiabano, Rosinha acrescentou apenas as estruturas necessárias para os atendimentos ao ar livre. Quando o Recanto do Chinhô inaugurou,em agosto do ano passado, a ribeirinha passava pelo luto da morte da mãe. 

“Foi um momento meio turbulento, porque minha velhinha adoeceu e perdi ela. É muito recente. Ela sofreu muito com a perda do meu pai, foi um casamento longo, quase 60 anos juntos. Minha mãe ficou muito triste. Já me falaram que é assim com as almas gêmeas, quando um falece, em menos de um ano, o outro não aguenta e falece também. As pessoas podem acreditar ou não”. 

As lembranças dos pais arrancam sorrisos e gargalhadas de Rosinha. Seja por lembrar de quando Chinhô preparou quilos de peixe e acompanhamentos para os colegas de trabalho dela, na tentativa de agradar os convidados, ou da humildade da mãe. 

Peixe seco com arroz feito por Rosinha faz sucesso no Recanto do Chinhô e na feira do Jardim Imperial. (Foto: Reprodução)

“Minha mãe sempre fazia comida a mais, porque meu pai falava: faz mais um pouquinho, você não sabe quem vai bater na porta. Ele se emocionava, tinha aquele jeito humilde de pescador, mas sempre dizia para quem me conhecia: se você tem minha filha no seu coração, você já mora no meu”. 

Rosinha conta que não faltou amor no sítio em que viveu com os pais e que hoje é seu refúgio da rotina atribulada na cidade. A solidariedade de Chinhô também foi imortalizada entre os moradores da comunidade em que eles viviam. Seja por permitir que alguém com fome retirasse alimentos na mercearia em seu nome ou por criar uma “casa de apoio” para receber trabalhadores que precisavam de atendimento médico. 

“Não faltou amor para mim e para comunidade, porque ele era tipo um líder comunitário. Quando era adolescente, levantava de madrugada para ir ao SUS pegar requisição para pessoas que apareciam lá em casa. Minha casa parecia uma casa de apoio, porque ele abrigava as pessoas do sítio que precisavam de atendimento médico. Só deixava voltar depois que tudo estivesse resolvido. Fui criada dessa maneira”.
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