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Segunda-feira, 27 de maio de 2024

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Motociclista que teve perna amputada em acidente é entregador em Cuiabá: 'faço por necessidade'

Foto: Bruna Barbosa/Olhar Direto

Motociclista que teve perna amputada em acidente é entregador em Cuiabá: 'faço por necessidade'
Antes do motociclista Eduardo Filipe Dantas da Silva, de 32 anos, se tornar entregador do IFood, há três meses, ele gastou os últimos R$ 50 que tinha tentando conseguir um emprego em Cuiabá. Eduardo lembra que imprimiu cópias de seu currículo por R$ 20, colocou R$ 10 de combustível na moto e guardou o restante para se alimentar. Depois de percorrer por vários pontos da cidade em busca de trabalho, ele ouviu de um amigo sobre a possibilidade de conseguir uma renda com as entregas. 


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Na moto, além da mochila usada para armazenar os pedidos, Eduardo também leva um par de muletas. Quanto tinha 16 anos, o motociclista sofreu um grave acidente de trânsito e teve a perna decepada por conta do impacto com um carro no bairro Santa Isabel, em Cuiabá. Ele conta que estava indo para o Centro e tinha pegado a moto do pai escondido. 

“Um carro me trancou no trevo do Santa Isabel, bati no meio-fio e minha perna foi decepada na hora. Fui socorrido em estado grave, eu era bem magro, os médicos falaram que meu risco de morrer era grande. Quando perdi minha perna achei que meu mundo tinha acabado e eu não tinha mais nada”. 

Apesar do momento traumático que precisou enfrentar, o cuiabano se manteve sorridente e brincalhão. Durante a entrevista, Eduardo não deixa passar as oportunidades de dar risada. “Eu sou risonho”, explica o entregador. 
Ele conta que permaneceu forte por conta do apoio que recebeu dos avós, que o criaram, do pai, dos irmãos e dos amigos. 

“Graças a Deus tive vários amigos excelentes, meus avós que me apoiaram e meu pai que é primordial na minha vida. Meus amigos iam sempre em casa me buscar para sair e divertir, ir para festa ou tomar banho de rio. Priorizo e conservo muito meus amigos. Tive as dores e tudo mais, mas foquei em ser alegre e ser feliz”. 

Dados do IBGE divulgados neste ano apontam 18 milhões de PCDs no Brasil, representando quase 9% da população. Ainda de acordo com a pesquisa, 29,2% das pessoas com deficiência estão no mercado de trabalho e possuem rendimento médio de R$ 1,8 mil. 

Demissão na pandemia 

Eduardo tem experiência como operador de caixa, profissão que exercia antes de ser demitido durante a pandemia da covid-19. Perder o emprego tornou financeiramente impossível que ele conseguisse pagar a mensalidade da faculdade de Fisioterapia. Mesmo com a ajuda da avó, ele conta que precisou deixar o curso. 

“As coisas apertaram em casa, comecei a pensar no que iria fazer. Roubar eu não iria, dar esse desgosto para minha família de me verem como ladrão em um programa de televisão. Um amigo meu que trabalha aqui na praça falou sobre o IFood, e como eu já andava de moto desde pequeno, estou trabalhando e quero ser feliz”. 

Eduardo não nega que começou a fazer as entregas de moto por questões de sobrevivência. Ele não queria depender financeiramente dos avós ou dos pais. Cansado das idas e vindas ao Sistema Nacional de Emprego (Sine) em busca de oportunidades de trabalho, o motociclista decidiu aceitar o conselho do amigo sobre o IFood. 

“Foi por necessidade, não vou ficar dependendo dos meus avós ou do meu pai. Tenho que trabalhar. Tem dia que acordo com dor, cansado, porque cansa muito. Fico das 9h às 15h, depois volto às 18h30 e fico até às 22h. Se tivesse oportunidade, trabalharia de outra coisa sim”. 

De acordo com ele, entregas feitas em um raio de até 2km pagam R$ 6,50. “Pouco dinheiro, é só para sobreviver mesmo”, completa o motociclista que também enfrenta problemas causados pela falta de acessibilidade nos restaurantes e estabelecimentos onde ele retira os pedidos. 

Eduardo também lembra de situações em que clientes insistiram para que ele subisse nos apartamentos para deixar as encomendas. 

“Chego no prédio e falam que tenho que subir porque pagaram. No Residencial São Carlos, por exemplo, não tem elevador, como subo até o quarto andar? Mesmo falando que sou PCD, já falaram que o problema era meu. Não entrego, eu aciono o suporte e devolvo o pedido para o restaurante”. 

Apesar das ignorâncias e insensibilidades que atravessam a rotina de trabalho do motociclista, ele explica que busca tratar a todos com educação e, claro, bom humor. 

“Sou tímido, mas sou comunicativo e bem-humorado, gosto de ter esse contato. Sempre dou bom dia ou boa tarde, se levo remédio desejo melhoras, se é uma fralda mando um abraço para o bebê, se é comida desejo uma boa refeição… Sempre sou educado, porque talvez eu arrumo uma gorjeta, ajuda e faz muita diferença”. 

“Unidos da Praça”

Quando começou a trabalhar como entregador, Eduardo se uniu ao grupo Unidos da Praça, que reúne outros colegas de profissão. Como não existem pontos de apoio para os trabalhadores em Cuiabá, eles se encontram na Praça Clóvis Cardoso, na avenida Isaac Póvoas, seja para tomar uma água ou carregar um pouco o celular entre um pedido e outro.

Ele conta que desde que entrou na plataforma de entregas foi acolhido pelos outros entregadores. “Aqui no Unidos da Praça, às vezes alguém manda no grupo pedindo ajuda com gasolina ou para um pneu furado, sempre um ajuda o outro. Não temos um ponto de apoio, quando chove vamos em busca de um canto, no Sol ficamos aqui na praça”. 

Eduardo tem dez filhos, sendo que nove são “do coração”. “As crianças têm de 1 a 9 anos, ajudo financeiramente quando tenho, quando não tenho, já falo. Não tem o que fazer. Quando pedem algo para o próximo mês, vou me planejando, guardando de pouco em pouco para chegar naquela data com o dinheiro”. 

Ele conta que tem dezenas de áudios do pai pedindo para que ele deixe o trabalho de entregador e que a avó ainda sonha em vê-lo formado. 

“Algumas vezes no trânsito já ouvi que estava trabalhando para fazer mídia. Mídia? Eu corro de mídia, estou trabalhando, só. Se isso der uma oportunidade de melhorar para mim, ótimo. Uma moto adaptada ou um emprego, você acha que não vou querer? Claro que vou querer, estou nessa vida aqui por necessidade”. 

O motociclista continua atualizando o aplicativo do Sine diariamente em busca de oportunidades que ainda não o encontraram. Em uma das entrevistas que fez, Eduardo se revoltou quando ouviu que a vaga seria para carregar e descarregar caminhões em um material de construção. 

“Falam que tem um monte de empregos para PCDs, mas é mentira. Me chamaram para descarregar caminhão, para ganhar R$ 1.450, para subir no caminhão, carregar e descarregar. Perguntei como eu faria isso com uma perna só, ele disse para eu dar meus pulos”. 
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