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Segunda-feira, 27 de maio de 2024

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Do Pedra 90 para o mundo: cuiabano arrisca vida fora do Brasil e vira comissário de bordo internacional

Foto: Arquivo pessoal

Do Pedra 90 para o mundo: cuiabano arrisca vida fora do Brasil e vira comissário de bordo internacional
Desde criança, Milton Cesar de Araújo, de 31 anos, tinha certeza sobre a vontade de conhecer o mundo. Mesmo sabendo que um dia conseguiria conhecer outros países, a meta parecia ambiciosa demais para algumas pessoas, que chegaram a desestimular o sonho de Milton . Ele cresceu no bairro Pedra 90, na periferia de Cuiabá, e o orçamento da família não era compatível com viagens internacionais, por exemplo. 


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“Mesmo vindo de uma família humilde, eu sempre quis [morar fora do Brasil]. Lembro de alguns tios me falarem: vai dormir para você sonhar. Como se o meu sonho fosse algo impossível. Mas eu nunca deixei de querer”, conta. 

Como os pais não tinham condições financeiras para custear as aulas de inglês que Milton sabia que precisaria para realizar o sonho de morar fora do Brasil, ele começou a frequentar uma lan house do bairro. Lá, ele ouvia músicas em inglês, a maior parte da Whitney Houston, confessa, e tentava decorar cada uma das palavras. 

“Mesmo sem saber o significado, eu ficava decorando as letras, não sabia o que falava,  mas decorava. Eu sei quase todas as músicas da Whitney Houston de cor”. 

Aos 14 anos, Milton sentiu que uma porta estava se abrindo quando a mãe teve oportunidade de se mudar para Barcelona, na Espanha, para trabalhar como babá da filha de uma prima. A coragem de desbravar novas possibilidades de vida que parecia ser algo criado pela imaginação do filho, foi a forma que a mãe do comissário de bordo encontrou para ter uma vida mais tranquila. 

A angústia tem a ver com um dos irmãos de Milton que, por ser dependente químico, desapareceu sem dar notícias há mais de 14 anos. Ele conta que era comum que o irmão sumisse por um mês ou algumas semanas por conta do vício, mas da última vez que saiu da casa no bairro Pedra 90, nunca mais voltou. 

“Ela não queria só uma vida melhor para a gente, mas uma tranquilidade para si mesmo. Meu irmão ficava pedindo dinheiro o tempo todo para se drogar… E mãe é mãe, né? Vai ser pelo filho independente do que ele faça… A mãe vai estar ali sempre, mas ela cansou. Acho que foi a melhor decisão da vida dela”. 

A mãe de Milton trabalhou como babá durante dois anos, até que começou a ser cuidadora de idosos em uma clínica de Barcelona, profissão que a acompanha há dez anos. Além de fixar residência no país, ela, que é chamada carinhosamente de “cuiabana do pé rachado” pelo filho, também se casou novamente. Milton brinca que o sotaque cuiabano da mãe ainda persiste entre as palavras em espanhol. 

“Eu e meus irmãos incentivamos muito ela a se mudar. E ela já não pretende mais voltar para o Brasil, ela vive muito bem aqui. Claro que ela tem muita saudade, acho que é a parte mais difícil de viver fora. Ela perdeu a mãe e, mesmo com a passagem comprada, não conseguiu chegar a tempo de se despedir”. 

Milton trabalhou em navio que atuava entre a Dinamarca e a Suécia, onde morou por oito anos com o ex-marido. (Foto: Arquivo pessoal) 

A realização do sonho

Quatro anos depois, em 28 de junho de 2011, Milton teve a mesma coragem da mãe e deixou Cuiabá para se arriscar em novas experiências. Quando chegou em Barcelona, ela já estava casada com o padrasto dele, que é espanhol, algo que facilitou a jornada em um país que, até então, era completamente estranho para o cuiabano. 

“Muitos brasileiros pensam que é fácil chegar e começar a trabalhar, mas é muito difícil. Naquela época foi difícil, agora está ainda mais com a crise. Consegui o documento para poder trabalhar, mas mandava currículos em supermercados, restaurantes e nada”. 

Foram dez longos meses sem nenhuma resposta para os currículos enviados. Em um dos dias repletos de ansiedades e incertezas sobre o futuro, Milton conheceu o ex-marido, que é sueco. Depois de conversarem e se conhecerem melhor, ele embarcou para a Suécia. 

“Na terceira vez que fui visitá-lo, fiquei… Casamos e ficamos juntos acho que por quase oito anos. Nesse período eu trabalhei em restaurantes como garçom e lavador de pratos, depois em uma companhia de cruzeiros bem pequenininha, que liga a Dinamarca e a Noruega”. 

Milton conta que o trabalho era muito desgastante, já que precisava ficar até oito dias a bordo do navio. Depois da mudança para um novo país, ele precisou se dedicar para aprender a falar dois novos idiomas: inglês e sueco.

“O sueco é muito difícil, o estado que eu vivia faz parte da Dinamarca, então é mais complicado ainda. Só que eu estava vivendo ali. Ou a gente aprende ou aprende. Apliquei para trabalhar no navio e, pela graça de Deus, consegui passar na entrevista. 

Depois de cinco anos de casamento, o marido de Milton recebeu uma proposta para trabalhar como comissário de bordo durante seis meses no Havaí. Como não queria ficar na Suécia sozinho, o cuiabano decidiu voltar para a casa da mãe em Barcelona. Durante o período, descobriu a paixão pela aviação enquanto trabalhava fazendo check-in no aeroporto do país. 

“Como venho de uma família humilde, eu sempre quis crescer. A gente recebia uniforme bem parecido com o da tripulação mesmo estando ‘em terra’. A gente tinha que estar bem arrumadinho, é uma vida glamorosa… Queria muito aquilo para mim. Eles são muito respeitados”. 

Cuiabano sonhava em viver fora do Brasil, mas a meta parecia ambiciosa demais por conta da realidade financeira da família. Hoje, Milton já conheceu mais de 27 países. (Foto: Arquivo pessoal)

Transformações e renovações 

O contrato como responsável pelo check-in acabou em 1ª de janeiro de 2020. Milton ainda não sabia as profundas transformações que seriam provocadas pela pandemia da covid-19. Meses antes do lockdown, ele terminou o relacionamento e deixou a Suécia. Foi através de um amigo, morador do CPA, mas que estava vivendo em Dublin, na Irlanda, que novos caminhos se abriram. 

“O lockdown na Espanha foi uma coisa surreal. Tenho um cachorrinho que está com minha mãe, desci uma vez para passear com ele, policiais me pararam e perguntaram de onde eu vinha e para onde estava indo. Foi muito puxado e muito severo. Como não sou muito fã da Espanha, fiquei durante um mês e meio”. 

Em 26 de abril de 2020, ele aceitou o convite do amigo cuiabano para passar um tempo em Dublin. Durante o período, Milton chegou a atuar em uma fábrica que produzia kit test para covid-19. No local, ele chegou a ser líder de um time de nove pessoas. 

“Na Irlanda tem muitos brasileiros que vão para lá para aprender inglês, porque é muito barato e dão o documento que permite trabalhar, então são muitos brasileiros. Isso foi maravilhoso para mim, porque na Suécia não era assim. Fora o frio, na Suécia fazia -19ºC no inverno”. 

Depois de trabalhar na fábrica, onde permaneceu por 11 meses, Milton entrou na Accenture, empresa que presta serviço para o Facebook. Fotos da época mostram que o cuiabano também se divertia no trabalho. Entre as histórias, ele lembrou da vez em que um colega pegou um report do cantor Paul McCartney. 

“Trabalhava com documentos legais, quando alguém reportava um perfil ou comentário de alguém, a demanda vinha para mim. Graças a Deus não trabalhava vendo conteúdos pesados, acho que não teria estômago para isso. Um colega pegou um report do Paul McCarteney, todo mundo vibrou no escritório”. 

 

Vida nas nuvens 

O atual emprego como comissário de bordo internacional chegou depois de um ano e nove meses. Milton conta que já não se sentia mais realizado profissionalmente com o trabalho na Accenture e decidiu aplicar para uma nova vaga. Dessa vez, o sonho de fazer parte de uma tripulação falou mais alto. 

“Deixei a Accenture em 29 de março, em 30 de março mudei para a Inglaterra e em 3 de abril comecei o treinamento com a companhia aérea. Meu primeiro voo foi em 1º de maio. Ainda é uma mudança bem recente. Meu primeiro voo foi para Nova Iorque”. 

Ele conta que já tinha visitado Nova Iorque para comemorar o réveillon com o amigo cuiabano que mora em Dublin. No entanto, a segunda experiência no país foi como parte da tripulação. 

“Vou para um destino diferente cada vez que faço um voo. Em maio estive quatro vezes em Nova Iorque. Temos 26 horas depois que chegamos para fazer o que quisermos. Geralmente a equipe fica no bar do hotel mesmo ou aproveita para descansar”. 

Para Milton, que sonhava em desbravar o mundo para além do bairro Pedra 90, em Cuiabá, o trabalho como comissário de bordo internacional significa a realização de um sonho. Ele conta que pretende crescer ainda mais profissionalmente, mas quando lembra que já passou por 27 países e cinco continentes é impossível segurar a emoção. 

“A palavra que define o que sinto é: realizado. Sempre sonhei e sempre quis mudar minha realidade. Mas eu ainda quero mais, quero conhecer o mundo  inteiro, porque a única coisa que vou levar comigo são minhas memórias e lembranças”.
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