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Sábado, 20 de julho de 2024

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​‘PELOS BRASIS’

Depois de mais de 12 mil km, casal de MT planeja segundo semestre de kombi no Norte

Foto: Reprodução

Depois de mais de 12 mil km, casal de MT planeja segundo semestre de kombi no Norte
Desde que trocaram a “vida tradicional”, com emprego e endereço fixo, para embarcar em uma aventura nômade, os jornalistas Lucas Bólico e Isabela Mercuri, de 33 e 31 anos, já rodaram mais de 12 mil km pelo Brasil na kombi Cuiabana, como apelidaram o veículo. Em quatro meses de viagem, passaram por dez estados brasileiros e a quantidade de cidades visitadas se perdeu pelo caminho. 


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De passagem por Cuiabá, o casal aproveitou para matar a saudade da família, comemorar o primeiro ano de vida dos dois afilhados e fazer alguns reparos na kombi para a segunda temporada da viagem, que vai ser pelas cidades do Norte do Brasil. Isabela conta que, agora, eles decidiram viajar “com mais calma”. 

Eles explicam que assumiram muitos compromissos pelo caminho, como estar no Recife (PE) para o Carnaval em fevereiro, depois para um casamento em Poços de Caldas (MG) em abril e, por fim, retornar para Cuiabá para o aniversário dos afilhados. A correria exigiu muito do motor da kombi, que quebrou algumas vezes pelo caminho. 

“Não sabíamos que seria tão difícil [cumprir o cronograma]. Acho que qualquer carro é complicado ficar andando tanto assim, ainda mais uma kombi. A viagem demora mais porque ela não corre e porque precisamos parar para refrigerar o motor. Quanto mais você exigir dela, mais ela vai exigindo manutenção e gasta mais combustível”, comenta Isabela. 

No plano antigo, o casal planejou estar no Nordeste para ver de perto as festas de São João e, em novembro, eles pretendiam viajar para Petrópolis (RJ) para um festival de música. Com a experiência que adquiriram nos quatro meses de estrada, Lucas e Isabela começaram a perceber a necessidade de desacelerar. 

“A gente já entendeu que deu muito perrengue andar tão rápido de um lado para outro. Agora vamos mais devagar, ficar mais tempo nos lugares e aproveitar mais. Por mais que não dê para conhecer o Brasil inteiro, queremos conhecer bem os lugares que vamos, fazer mais o que gostamos de fazer que é conhecer as pessoas, experimentar as comidas típicas e ir para lugares que não são tão turísticos. A proposta não era fazer correndo”, conta Isabela. 

Lucas e Isabela viajam de kombi com os pets Tieta e Astronauta. (Foto: Arquivo Pessoal)

Os planos da estrada 

Lucas brinca que um dos aprendizados da primeira parte do projeto Pelos Brasis é de que a estrada determina “o que vai rolar”. Por enquanto, a única certeza que eles têm é de que vão passar o resto de 2023 na parte superior do Brasil, onde pretendem conhecer lugares como Jalapão (TO) e os Lençóis Maranhenses (MA), já que querem seguir viagem para os estados do Nordeste que ainda não foram. 

“Depois vamos ver o que fazemos. Estamos mais abertos a possibilidades do que pode acontecer. Foi legal termos feito esse primeiro trajeto, porque conseguimos entender melhor o carro e os problemas que queremos melhorar, para ir agora para uma região que sabemos que não é a mesma estrutura e são distâncias maiores”. 

Uma das mudanças que decidiram fazer na kombi para a segunda temporada de viagens é na parte de captação de energia, que funciona com uma placa solar. Isabela conta que eles vão dobrar a capacidade de armazenamento da Cuiabana. 

“A gente tinha sempre que parar em um lugar com tomada, por isso queremos melhorar essa parte antes de continuar a viagem. Vamos aumentar nossa capacidade de captação e armazenamento de energia, porque a nossa estava dando para um dia mais ou menos”. 

Lucas revela que está ansioso para conhecer as cidades do Amazonas, já Isabela está animada para visitar Alter do Chão (PA). Como viajam com Tieta e Astronauta, dois vira-latas adotados que também estão conhecendo o Brasil, o casal precisa pensar na logística dos passeios. 

“No Jalapão, por exemplo, a gente já sabe que não dá para chegar com a kombi, porque a estrada é muito ruim e só chega de 4x4. Também temos que ver alguém para ficar com os cachorros em Palmas, são coisas que vamos descobrir lá”, conta Isabela. 

“A gente gosta muito de fazer rolê para comer também e a comida do Norte é muito singular, tem uma raiz indígena muito presente, coisa que não foi tão preservada em outras regiões”, diz Lucas. 


Casal deixou vida estável para se aventurar nas estradas do Brasil. (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar dos perrengues que viveram na estrada, como os 500 km que Lucas precisou dirigir segurando a marcha da kombi ou quando precisaram refazer o motor e “moraram” em uma oficina mecânica por alguns dias, o casal comemora os cantinhos escondidos do Brasil gigante que já puderam conhecer. 

“Já fizemos 12 mil km entre 10 estados, muito mais de 20 cidades. Só em Pernambuco, por exemplo, ficamos mais de um mês e conhecemos muito. Conhecemos o sertão, a vegetação, ali perto já é cortado pelo Rio São Francisco e muda tudo. Tem muitos passeios para fazer no rio São Francisco, que é uma coisa linda e impressionante”. 

Para Lucas, ter conhecido Canudos, no interior da Bahia (BA), foi um dos grandes privilégios da viagem. Isabela conta que se surpreendeu com a Serra do Catimbau (PE), onde viu pinturas rupestres de perto e se encantou pela cidade excluída da rota turística. 

“Acho que tenho um lugar preferido em cada lugar que passamos. Na Chapada Diamantina (BA), a Cachoeira do Buracão foi a cachoeira mais linda que já vi na vida, na Chapada dos Veadeiros (GO). Sempre fui uma pessoa de praia, queria morar no litoral, mas nessa viagem conhecemos tantos lugares lindos fora do litoral. Os lugares no interior das cidades me surpreenderam muito, são muitas coisas, histórias… É surpreendente”. 

Redescobrindo a generosidade 

Outra experiência transformadora que o casal viveu na estrada foi redescobrir a generosidade das pessoas. Em muitos dos perrengues pelo Brasil, eles contaram com ajuda de desconhecidos, principalmente nas cidades interioranas, que não negavam um banho ou uma refeição, por exemplo. 

A gente se surpreendeu muito com as pessoas que encontramos pelo caminho. As pessoas são generosas mesmo. Você vê a pessoa servindo uma janta muito humilde e simples, que é só o que ela tem ali, e ela divide com você. Acho que esse é o grande ponto: as conexões que você faz com as pessoas. Invariavelmente as pessoas ajudam e oferecem outras coisas. É enxergar o outro como ser humano mesmo”, comenta Lucas. 

Durante o projeto Pelos Brasil, o jornalista decidiu escrever sobre pessoas “anônimas”. Acostumado a lidar com o meio político quando era jornalista, Lucas também redescobriu a possibilidade de poder ouvir desconhecidos que passavam pelo seu caminho. 

“Todo mundo tem uma história incrível. Esse tempo no jornalismo, a gente ficou tanto tempo buscando uma autoridade, que estava falando sobre algo corriqueiro ou alguém que fez algo muito extraordinário. Agora estamos ouvindo o que as pessoas ‘anônimas’ têm a dizer. Todo mundo tem uma coisa para dizer e ensinar, se você estiver aberto”. 


Isabela conta que primeira parte da viagem ensinou sobre desacelerar e fazer menos planos. (Foto; Arquivo Pessoal)

Para Isabela, as conexões e possibilidades que estão descobrindo durante a viagem de kombi também vão impactar na forma de se relacionar caso eles deixem as estradas. 

“Mesmo que a gente volte a viver da forma ‘tradicional’, acho que vamos ver as pessoas de outra forma. Claro que não é como se não existissem pessoas ruins no mundo e você não tem que tomar cuidado. Mas acho que é o distanciamento que estamos tendo desse hiperfoco das coisas ruins do mundo e olhar por outra perspectiva”. 

Nos mais de 12 mil km rodados, Isabela e Lucas conheceram muitas outras pessoas que, como eles, deixaram carreiras estáveis, família e amigos para viverem como nômades. Desde o “Pedarilho Bacanizado”, um dos viajantes de bicicleta que conheceram na estrada, aos que viajam em micro-ônibus extremamente equipados. 

O casal comenta que o aumento de interessados no modo de vida é um dos sintomas da atual lógica de trabalho que a sociedade está inserida. Isabela afirma que muitas pessoas estão buscando outras formas de se relacionarem com tempo, dinheiro e consumo.  

“É uma forma de vida muito mais minimalista. Temos consciência do privilégio que temos de poder fazer isso, porque obviamente não é qualquer pessoa que pode. Mas existem muitas pessoas que fazem com quase nenhum recurso, que se jogam de carona, bicicleta ou vendendo artesanato. Vemos essa diferença na estrada também, os viajantes são muito diversos. São formas diferentes e cada uma com seu tipo de perrengue”. 

O período de pandemia da covid-19 é descrito como um dos aceleradores da “virada de chave” que muitas pessoas viveram. No caso de Lucas e Isabela, a decisão de viajar o Brasil de kombi surgiu no período crítico em que ficaram trancados em casa e angustiados com as incertezas do futuro. 

“Estamos em um momento de transição e não sabemos ainda muito bem para onde vamos, mas a lógica de trabalho que estamos acostumados já não faz mais sentido. Às vezes a pessoa quer e falta coragem, acho que vale a pena fazer uma viagem curta e ver como é. Não é um caminho sem volta, a gente sabe que não vamos viver em uma kombi para o resto da vida”. 
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