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Quinta-feira, 13 de junho de 2024

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após demissão na pandemia

Com R$ 100 e frigideira emprestada pela mãe, nordestina cria delivery de cuscuz com receitas de família

Foto: Reprodução

Com R$ 100 e frigideira emprestada pela mãe, nordestina cria delivery de cuscuz com receitas de família
Durante a pandemia da covid-19, em 2021, a nordestina Maria Aparecida Bezerra Rodrigues, de 26 anos, foi demitida dos dois empregos que tinha, como entregadora e chapeira em uma espetaria. "Sem chão", como define a sensação do desemprego, Maria se lembrou das receitas de cuscuz e tapioca feitas pela mãe, em Fortaleza (CE), quando ela e os outros cinco irmãos viviam em situação de vulnerabilidade financeira. 


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"Sou nordestina, assim como meus pais. Vim de lá para tentar a vida aqui, enfrentamos muitas dificuldades, trabalhei de tudo quanto é coisa. Já vendi pasta, já fui auxiliar de dentista, entregadora. Já trabalhei de tudo. Na pandemia perdi meus dois empregos, trabalhava de dia como entregadora e a noite como chapeira em uma espetaria. Tinham acabado de assinar minha carteira. Fiquei sem emprego, sem chão, sem nada". 

Com R$ 100 e uma frigideira usada, emprestados pela mãe, ela comprou três sacos de cuscuz e três de tapioca. Maria lembra que, apesar de ter crescido comendo os pratos típicos do Nordeste, não se sentia capaz de criar o próprio negócio. Foi com o apoio da namorada, Laís Cristina Machado, de 37 anos, que ela decidiu fazer as primeiras receitas. 

"Eu já tinha essa ideia no meu coração, mas não tinha coragem. Mas decidi que faria. Fiz um para experimentar, depois fiz o segundo. Apesar de ser algo muito prático para mim, já que como desde que nasci. Minha parceira trabalhava em um salão de beleza e levou para experimentarem. Voltou com uma lista de pedidos. Fiz e nunca mais parei". 

Quando criou a Oxente Cuscuz e Tapioca, Maria ainda morava em uma quitinete, perto do 0km, em Várzea Grande. No começo, Maria era a única funcionária, responsável por administrar, cozinhar e fazer as entregas. Em um dos trajetos, ela encontrou uma casa disponível para alugar, com área externa e cozinha espaçosa. 

"Passando por essa rua, no caminho de entregar um pedido, vi essa casa para alugar. Decidi que alugaria isso e coloquei uma faixa pequena ali na frente. O pessoal começou a chegar. Fui mudando a fachada e crescendo". 



Começo difícil fez Maria pensar em desistir

Atualmente, quem passa pela rua Costa Rica, no bairro Cristo Rei, em Várzea Grande, observa a movimentação de entregadores aguardando pelos pedidos dos clientes da Oxente Cuscuz e Tapioca. No entanto, Maria lembra que nem sempre foi assim. 

Quando decidiu alugar o imóvel, que também é sua casa, ela sequer tinha certeza de como pagaria, mas tinha fé no sabor dos pratos nordestinos que seriam preparados ali. Maria já pensou em desistir por conta do início difícil do próprio negócio. 

"As vezes tinham dias que saiam um ou dois cuscuz. Coloquei uma pequena faixa na frente, o pessoal começou a chegar. Fui mudando a fachada e crescendo. Mas durante um ano, até estabilizar, eu sofri muito. A influenciadora Carla Bora pediu um cuscuz e levei para ela experimentar. Ela divulgou e abriu muitas portas. Vendo muito para hospitais, UPA do Cristo Rei e HMC". 

Com o tempo, Maria começou a decorar o local, que tem algumas paredes pintadas com cactos e gírias usadas pelos nordestinos, assim como "oxente", que dá nome ao negócio dela. O movimento começou a aumentar cada vez mais e, hoje, Maria tem clientes fiéis. Atualmente, ela emprega a namorada, a irmã e dois entregadores fixos. 

"Usamos um fardo e meio de cuscuz por dia, estamos vendendo bastante. Tem dia que é muito corrido e outros mais fracos, mas é tudo no tempo de Deus. Sou muito abençoada, não sei como consegui chegar aqui, mas estou aqui aos trancos e barrancos". 

De família extremamente humilde, como conta, Maria chegou a morar em uma "casa de lona" com os pais quando se mudaram para Várzea Grande. Ela ressalta que não enriqueceu ou possui dinheiro para grandes luxos, mas consegue se sustentar e ajudar a família através do próprio negócio. 

"Minha família é extremamente humildade, nós trabalhamos e o que ganhamos é para sobreviver. Mas não passamos necessidade mais, já moramos em casa de lona, foi uma dificuldade imensa para conseguir estabilizar aqui. Meu pai tem seis filhos com minha mãe. Lutamos muito para nos manter estáveis e agora estou mantendo a minha vida, com isso ajudo eles também". 



Acolhimento em Mato Grosso 

Em Mato Grosso, Maria encontrou acolhimento e conseguiu mudar a própria realidade. Ela mora em Várzea Grande desde os 14 anos, para onde se mudaram com ajuda de uma tia, que se sensibilizou ao ver os familiares passando dificuldade no Nordeste. 

"Nunca passei mais de três meses desempregada, a não ser na pandemia. Lá no Nordeste é tudo muito bonito, mas para sobreviver era muito difícil. Viemos de lá em busca de trabalho. Vim com nove anos e voltei, depois voltei com 12 e voltei de novo. Agora, estou aqui desde os 14 anos e fiquei. Minha mãe com seis filhos, era muito difícil, pesa o orçamento. Ela trabalhava em casa de família".

A escolha das receitas usadas no restaurante remetem à infância de Maria, já que o cuscuz era um dos alimentos acessíveis para a família. 

"É um alimento barato e que deixa sustância. Um pacote de cuscuz comia os seis filhos facinho, misturava com leite, feijão, o que tivesse. As vezes era um pedaço de cuscuz com fio de óleo e dois pedacinhos de torresmo, já virava um almoço ou uma janta. Me lembra muito minha família, traz uma lembrança para mim. Tem cliente meu que compra e fala que sente o gosto do Nordeste. É isso que quero levar para o cliente". 

Maria sonha em abrir o restaurante em um local fixo, já que atualmente ele funciona no mesmo imóvel onde ela mora. Além disso, uma das metas é poder receber os clientes para comer no local. 



"Minha meta é abrir a Oxente em um lugar próprio meu. Aqui é só delivery, mas algumas pessoas sentam no degrau para comer, coloquei duas cadeiras. Alguns motoboys passam e falam que vão comer aqui mesmo. Alguns clientes não ligam, então a gente atende da melhor maneira possível". 

O Oxente Cuscuz e Tapioca funciona das 10h30 às 1930 na modalidade delivery. Para os que desejarem experimentar, Maria conta que um dos carros chefes é o cuscuz sabor "especialidade da casa". 

"Vai carne, queijo, queijo por cima, vinagrete, bananinha e linguincinha. Mas estou planejando novos recheios". 
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