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Conflito de gerações

Café da manhã é “cringe”? Jovem que contribuiu com polêmica envolvendo millennials mora em Cuiabá e explica mal entendido

Da Redação - José Lucas Salvani

26 Jun 2021 - 08:25

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Café da manhã é “cringe”? Jovem que contribuiu com polêmica envolvendo millennials mora em Cuiabá e explica mal entendido
Litrão, cabelo dividido, cerâmica como decoração, “Friends” e café da manhã. Se você gosta de alguma dessas coisas, para a geração Z, os nascidos entre 1996 e 2010, você é considerado cringe, uma pessoa que possui atitudes ou gostos vergonhosos. Moradora do Pedra 90, em Cuiabá, Milena Santos, ou simplesmente @wwwmlna, como é conhecida das redes sociais, é uma das pessoas responsáveis pela definição do que é ser ou não cringe, e ficou impactada com a repercussão da discussão que ultrapassou o Twitter.

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A discussão se iniciou a partir de um tweet feito pela criadora de conteúdo e podcaster, Carol Rocha, com uma pergunta direta aos seus seguidores da Geração Z sobre quais comportamentos dos Millennials, ou Geração Y, eles acham vergonhosos. No Twitter, houveram mais de 3,4 mil respostas, mas algumas acabaram tendo maior repercussão, como de Milena, que definiu ser cringe: boletos, litrão, “Harry Potter”, “Friends”, unha francesinha, minimalismo, ser roqueiro, rir com “rsrs”, café da manhã e fanatismo por café em geral.



“Daquela listinha que fiz, algumas pessoas não entenderam exatamente. As coisas daquela lista não são cringe por si só. Não é cringe ir em um bar e pedir litrão, ou gostar de ‘Harry Potter’, [por exemplo]. O que seria constrangedor é o quanto as pessoas anteriores a nossa geração fazem disso de um traço de personalidade”, defende Milena, que é da Geração Z, ao Olhar Conceito.

Milena explica que enxergou inicialmente a situação como se estivesse respondendo uma amiga, mas que tinha noção de uma possível visibilidade porque ela tem mais de 300 mil seguidores e Carol tem mais de 103 mil. Porém ela ficou surpresa com a repercussão que ultrapassou a rede social do passarinho azul. A discussão chegou em diversas redes sociais e até mesmo Ana Maria Braga comentou sobre o tema em seu programa na última sexta-feira (25).



“Quando eu respondi, por ela ser uma conta grande no Twitter e eu também, eu sabia que o pessoal de lá ia ver. Só que eu não esperava que chegaria nesse ponto, que os millennials iam deixar um espaço tão grande na cabeça deles [sobre isso]. Em momento algum eu falei para as pessoas não consumirem. Pra mim, foi uma situação em que uma amiga minha no Twitter perguntou, eu era o público-alvo da pergunta e respondi. São coisas que eu nunca tweetaria”.

O que poucos sabem é que a resposta de Milena à Carol tem uma pegadinha. Ela não acha cringe tomar café da manhã, muito pelo contrário. O ato de tomar café da manhã se tornou uma questão para Milena por ser intolerante à lactose, fazendo com que ela não possa consumir qualquer produto derivado de leite. “Se eu não posso, vou fazer a geração anterior a minha ficar achando que os adolescentes acham constrangedor. Só porque eu não posso, não quero que as pessoas possam também”, brinca.



Milena conta que fez o tweet e deixou ele “sobreviver” aos seguidores. Depois da publicação, não olhou para o que estavam comentando sobre o que disse, porque ela tem a tendência de simplesmente “jogar no mundo” suas publicações na rede social. Desta forma, ela evita ver possíveis xingamentos ou ataques de ódio direcionados a ela visto que, muitas vezes, uma simples resposta pode causar uma repercussão inimaginável, como sua própria resposta a Carol Rocha.

A usuária ferrenha do Twitter afirma que faria tudo novamente, e ainda brinca que acrescentaria outras coisas, como cantar “Evidências”, música clássica da dupla Chitãozinho & Xororó, e gostar de “O Pequeno Príncipe”. “No geral, não repensei [sobre minha atitude], faria tudo de novo e incluiria ‘O Pequeno Príncipe’ e a música ‘Evidências’”, finaliza.



Choque entre gerações

Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Pamela Ingrid Simioni Costa explica ao Olhar Conceito que “os conflitos sempre vão acontecer porque as gerações são formadas por pessoas constituídas em culturas e contextos histórico-sociais diferentes”. Pamela acrescenta que a própria sociologia evita trabalhar com gerações definidas por períodos específicos justamente por não ser o único fator determinante para definir a qual grupo os indivíduos pertencem.

Nascida em 1999, Milena também acredita que a forma que as divisões são feitas não cabe ao Brasil. Enquanto nos Estados Unidos, a internet se tornou um fator determinante para definir cada uma dessas gerações, no Brasil, com sua chegada tardia, fica complicado definir com o mesmo período. 

Apesar de questões comportamentais e contextos histórico-sociais contribuírem para os indivíduos se identificarem com determinadas gerações, enquanto a tecnologia for tratada como um fator determinante para qualquer região, a tendência é que o espaço de tempo entre uma geração e outra fique cada vez menor. “Cada vez as tecnologias estão evoluindo mais rápido e afetando nossos comportamentos”, esclarece Pamela Costa.

Já quem não conseguiu se identificar com qualquer uma das gerações acaba sendo definido como Zillennial (termo popular), reunindo características de ambas, tanto millennial e Z. Essas pessoas no “limbo” reforçam a ideia de que as gerações não podem ser definidas apenas por períodos de tempo.

“Essa geração, entre aspas, no limbo, realmente tem uma dificuldade de identificação porque não está nem no meio da geração anterior, que reforça os aspectos dos millennials, e nem no centro da geração Z, que sofre as influências das tecnologias e internet. Então realmente fica com dificuldade de se identificar. É comum termos em todas as mudanças de geração o que chamamos de geração de transição, que são bem no meio de uma transformação de comportamentos”.

Termo mais buscado

Segundo o Google, devido à repercussão da temática, o Brasil foi o país que mais buscou o termo “cringe” em todo o mundo, na última semana, resultando em um aumento de 500% pela sua busca. No país, inclusive, a pergunta mais buscada na última semana é “o que é cringe?”. O debate nas redes sociais também fez com que as buscas por geração Z e Y também crescessem.
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