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Cantora aponta que o discurso dos movimentos LGBTQIA+ não dialoga com gordos e pretos da periferia

Da Redação - José Lucas Salvani

29 Jan 2021 - 10:30

Foto: Reprodução/Divulgação

Cantora aponta que o discurso dos movimentos LGBTQIA+ não dialoga com gordos e pretos da periferia
A cantora, atriz e performer transsexual não-binária, Hend Santana, pontua que o discurso dos movimentos LGBTQIA+ não conversam com as bichas gordas e pretas da periferia. Para ela, o discurso falha ao dialogar com essa comunidade. Nesta sexta-feira (29), é comemorado o Dia Internacional da Visibilidade Transsexual e o Olhar Conceito preparou um vídeo especial para contar a história de Hend. Assista abaixo. 

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“A questão racial e estética como pessoa gorda entra muito enquanto movimento LGBT. O discurso desses movimentos não falam com as bichas pretas de periferia. Eles ainda não falam com pessoas gordas”, expõe. Ela afirma que os padrões estéticos impostos até mesmo no meio artístico a fizeram acreditar que não teria espaço para conseguir subir aos palcos.

Os preconceitos enfrentados por ela são inumeráveis. Por ser transsexual, ela já teve problemas por um simples documento, como também enfrentou questionamentos sobre seu gênero: “é homem ou mulher?”, zombaram na rua. Já por conta de seu peso, a dificuldade de frequentar um lugar adaptado para recebê-la é frequente. “A política é voltada para um tipo de corpo só”, desabafa.

Devido a cor de sua pele, aos quatorze anos, ela foi agredida por um policial. Era um dia de semana qualquer, quando ela e seu irmão, que é branco, estavam saindo da Escola Presidente Médici, onde estudavam. Ao ver o ônibus, os dois correram para conseguir entrar. Porém, ao adentrar, perceberam que o veículo não se movia e ficaram indagados pela situação.

Não demorou muito para que uma dupla de policiais entrasse no veículo. Os dois foram em direção aos irmãos, mas direcionaram a fala apenas para Hend, que usava o uniforme da escola. “Por que estava correndo?”, questionaram. Ela respondeu que havia corrido para pegar o ônibus. Um dos policiais não acreditou e lhe deu um tapa. As pessoas que estavam dentro do veículo ficaram sem reação, mas reforçaram a afirmação de Hend. O outro policial que presenciou a cena percebeu a problemática da situação e pediu para irem embora.

“Desde criança a gente aprende que o corpo e pele preta são vistos de forma agressiva e perigosa para as pessoas. Eu sempre tive que aprender. Eu sempre fui muito vaidosa por conta disso, de me vestir bem para não parecer uma pessoa suja e perigosa. Isso a gente acaba tendo que aprender para não sofrer o racismo socialmente”, desabafa.

Carreira

A arte na vida de Hend é presente desde quando era pequena. Seu pai sempre incentivava os filhos no mundo da música e sonhava que formassem uma dupla sertaneja, mas como Hend diz, eles sempre “correram contra o rio”. Ela e os irmãos então se juntaram para criar uma banda na escola, no Colégio Médici.

Inicialmente, ela não ficou encarregada dos vocais. A responsabilidade surgiu quando o vocalista dessa banda precisou sair e um de seus irmãos a incentivou a cantar em seu lugar. Ela passou a fazer aulas de canto, como também passou a se apresentar em festivais, festas locais e carnavais ao lado dos irmãos, sempre acompanhados da mãe.

A banda não foi muito para frente. Em determinado momento, o trio seguiu por caminhos opostos. Um virou barbeiro e outro virou advogado. “Só eu quis continuar na música e até hoje não parei de cantar. É praticamente minha vida cantar. Então parti para a carreira autoral. Saí um pouco desse lance de ser só uma intérprete para ter uma carreira autoral e comecei a escrever também”, explica ao Olhar Conceito.

O primeiro trabalho autoral lançado por Hend é o EP “Música Gorda”, lançado em 2017. Com cinco músicas - “Plus Size”, “Ponto e Vírgula”, “Dilema”, “Achados e Perdidos” e “Distância”, o disco recebeu o nome “Música Gorda” após o jornalista Rodivaldo Ribeiro, que faleceu em 2020, publicar uma matéria sobre um show de jazz que ela havia feito. No título, o jornalista utilizou “Música Gorda” e Hend sentiu total identificação.

“Fazer música em Mato Grosso, não sendo sertanejo, é muito complicado. Tudo gira em torno do que o agronegócio produz. Teve uma época que eu fazia um circuito jazz e o saudoso Rodivaldo Ribeiro, na época, assistia muito esses shows - eu já estava na intenção de fazer algo autoral - e publicou uma matéria, titulando ‘Música Gorda’. Eu pensei ‘pô, está aí um título que me representa muito’”. 

O nome dado por Rodivaldo casou perfeitamente com a proposta que Hend procurava em sua música. A interprete, como mesmo diz, não queria cantar o que todos estavam cantando, dizer sobre “paz e amor”, porque ela nunca conseguiu separar sua condição humana de sua vida artística. “Plus Size” é a canção que melhor sintetiza sua proposta: “é uma música que fala sobre ditadura de corpo, autoaceitação e sobre o que vestir”.



Para conhecer o trabalho de Hend, o EP "Música Gorda" está disponível no Spotify. Siga ela no Instagram

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