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Terça-feira, 24 de maio de 2022

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Travesti lança livro ‘e se eu fosse puRa’ e ministra palestra nesta segunda-feira na UFMT

Foto: Reprodução / Twitter

Travesti lança livro ‘e se eu fosse puRa’ e ministra palestra nesta segunda-feira na UFMT
Travesti, prostituta, doutora em crítica literária pela Unicamp, professora de cursinho, colunista do Mídia Ninja. A campinense ‘multifacetada’ Amara Moira estará em Cuiabá nesta segunda-feira (28) para relançar seu livro ‘E se eu fosse puRa’, ministrar a palestra “Visibilidade trans em tempos de incerteza”, e participar de uma banda de doutorado do Instituto de Linguagens, da doutoranda Ana Paola de Souza Lima.

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O livro, lançado pela primeira vez em 2016, e com todos os quatro mil exemplares esgotados, tinha originalmente o título ‘E se eu fosse puta’, que foi modificado na capa. Dentro, só mudaram algumas palavras, e foram incluídos dois poemas. Os exemplares estarão à venda por R$40, logo após a palestra, que começa às 17h.

O Olhar Conceito conversou com Amara Moira sobre o relançamento do livro, o pioneirismo e o putafeminismo. Leia a íntegra da entrevista:

1 – Você vem pra Cuiabá para ser a primeira travesti a integrar uma banca de doutorado na UFMT. Também foi a primeira travesti a defender uma tese de doutorado na Unicamp com nome social. Como se sente com tantos ‘pioneirismos’? Você acredita que isso abre portas para outras pessoas trans?

Abriu para mim, então acredito que esse exemplo sirva, sim, para outras pessoas trans. Eu precisei primeiro ver pessoas trans ocupando espaços na Unicamp para, só então, sentir que eu tinha não só direito, mas condições de me assumir travesti sem ter que abrir mão desse espaço, do meu direito de estudar. Hoje, no entanto, vejo que vamos nos fazendo referência não só para nosso próprio grupo, mas também para o restante da sociedade, o que é perceptível nos tantos relatos de alunos que se inspiram em nós para decidir os cursos que fazem ou mesmo no fato de nossas produções literárias e intelectuais estarem cada vez mais presentes na universidade. Aquilo que só nós mesmos e mesmas temos conseguido dizer e produzir vai ganhando relevância aos olhos dessa sociedade e, para quem quer entender do mundo que está por vir, vai se fazendo necessário conhecer essas obras. 
 
2 – Sobre o relançamento do livro: porque a mudança do nome ‘E se eu fosse puta’ para ‘E se eu fosse puRa’? O conteúdo também mudou?


Havia algo de muito provocativo no título original, que cumpriu bem seu papel com os 4 mil exemplares vendidos em dois anos. Mas uma parte da população parece que, por mais curiosidade que tenha sobre a obra, por conta desse título ainda não está à vontade para adquiri-la, lê-la. Conversando com a editora então, chegamos à conclusão de que se o simples fato de tirar a palavra "puta" da capa (colocando um "R" maiúsculo, bem rasura, em cima do "t" do título original) fizer com que a família brasileira se sinta menos desconfortável para ler o livro, o cômputo no fim das contas valeria a pena. Até porque o conteúdo é o mesmo, só tendo recebido o acréscimo de uns dois poeminhas e a mudança de uma palavra ou outra. E até porque, convenhamos, o título original segue ainda na capa, só mais disfarçado. A ideia agora, aliás, é mudar o título a cada nova edição, na próxima sendo colocado o "têzinho" de volta em cima desse "érrão", aí um dia vindo esse espaço em branco pra cada pessoa escolher o título que prefere. 
 
3 – Algumas pessoas se incomodam com o termo ‘putafeminista’. Porque você se autodenomina assim?

Se incomodam porque seguem vendo a palavra "puta" como xingamento, como a pior coisa que pode acontecer a alguém. Outro dia mesmo falou-se de alguns políticos como "prostitutas do sistema", tratando esses homens no feminino como forma de diminuí-los e como "prostitutas" para desmoralizá-los. Só assim parecem saber conceber a atividade. No entanto, ela está presente em praticamente toda a nossa sociedade e desde tempos imemoriais, cumprindo um papel que convém minimizar para continuarmos mantendo essas trabalhadoras em condições precárias de trabalho, o que barateia seus serviços e faz com que elas se calem. A sexualidade move o ser humano, mas numa sociedade conservadora como a nossa, que se recusa a promover um debate franco sobre o sexo, a responsabilidade por lidar com os desejos que nosso tempo produz recai quase que inteiramente sobre trabalhadoras sexuais. A vulnerabilidade que costumamos ver associada à prostituição não é inerente à atividade, mas decorrência, isso sim, da pobreza e do combo de vulnerabilidades que acompanha boa parte das pessoas que se dediquem a ela... lutando contra o estigma, contra as condições precárias e contra as redes que se aproveitam da vulnerabilidades de certos grupos sociais para compulsoriamente empurrar essas pessoas para a prostituição, seria possível mudar completamente a cara desse trabalho. Cem anos atrás, as jornadas de trabalho na indústria eram de 12h, 14h, às vezes até mais horas por dia, mas isso mudou através da organização desses trabalhadores e trabalhadoras. A prostituição, porém, é pensada sempre como uma atividade irremediavelmente precária, o que coloca quem a exerça sempre como ou vítima ou criminosa. O putafeminismo é a articulação de trabalhadoras sexuais para fazermos com que nossas pautas e demandas afetem a maneira como o feminismo atua, em especial no tocante ao trabalho sexual. É preciso que sejamos protagonistas das ações e reflexões que envolvem essa atividade, uma vez que seremos as maiores afetadas pelas decisões tomadas. 
 
4 – Como você enxerga o crescimento do ‘putafeminismo’ e o aumento do número de prostitutas publicando livros sobre o tema (a exemplo de Monique Prada)?

Assim como no caso das pessoas trans, trabalhadoras sexuais pouco a pouco vão deixando de ser vistas como vítimas ou ameaças e se convertendo em pessoas que podem falar por si e que têm muito a ensinar. Você pode descobrir novas perspectivas sobre, por exemplo, sexualidade lendo Freud, Kama Sutra, Simone de Beauvoir, mas pode fazê-lo também lendo as obras de prostitutas, putafeministas, atentando ao que só elas têm podido dizer. Não são possibilidades excludentes, aliás, um saber iluminando o outro, levando a novos desdobramentos. Aponta-se que o "E se eu fosse puRa" pode ser entendido como um tratado sobre masculinidades tóxicas, por exemplo, e é brilhante a maneira como o "Putafeminista" da Monique trabalha os paralelos possíveis entre a condição da mãe e a da prostituta (que frequentemente são a mesma pessoa). Não falamos só sobre nós, nem é possível falar sobre nós sem, junto, oferecer novos caminhos para entendermos a sociedade que nos criou, a sociedade em que existimos. 
 
5 – Apesar do conservadorismo vigente, a primeira edição do seu livro se esgotou. A que você acha que se deve este paradoxo?

O conservadorismo é uma resposta às conquistas que os movimentos negro, feminista e LGBTI têm alcançado. Não se explica a eleição de Bolsonaro sem fakenews envolvendo esses ativismos (kit gay, mamadeira de piroca, feminista feia, cotas, ideologia de gênero, direitos humanos, etc), o que é um indício de o quanto estamos presentes no imaginário social. Mas já não é possível nos manter isoladas em guetos, caladas, subservientes, já não é possível ignorar nossa existência e a relevância que vamos assumindo. Nunca estivemos tão fortes, nunca fomos tão protagonistas das transformações sociais, mas o preço disso é esse contra-ataque conservador, que tenta frear nossos avanços, que tenta nos fazer voltar ao isolamento. Não conseguirão. 
 
6 – A quanto (R$) será vendido o novo livro no lançamento aqui em Cuiabá? O lançamento será em que horário e local?

Logo após a palestra "Visibilidade trans em tempos de incerteza", que darei às 17h, no Auditório M, 2°andar, do Instituto de Linguagens da UFMT, faremos uma sessão de autógrafos do livro. O mesmo estará à venda no local por R$40,00.
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