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Peças descobertas por arqueólogos mostram os “cacos da escravidão” em Chapada dos Guimarães

Da Redação - Katiana Pereira

04 Ago 2013 - 17:10

Foto: Reprodução

Nações africanas

Nações africanas

Escavações feitas por arqueólogos nos anos de 1999 a 2001 em três engenhos de cana-de-açúcar trouxeram informações preciosas sobre o cotidiano dos escravos que viveram em outrora no município de Chapada dos Guimarães, que completou 59 anos de emancipação nesta semana.

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Fragmentos de cerâmicas, louças, vidros e metais descobertos na área do atual reservatório da Usina Hidrelétrica de Energia Manso fornecem pistas das práticas culturais, identidades e crenças desses indivíduos. As decorações dos vasilhames cerâmicos, por exemplo, indicam que as visões de mundo de origem africana foram mantidas pelos escravos nesses locais.

O artigo “Pedaços da Escravidão”, publicado na Revista História da Biblioteca Nacional, escrito por Luís Cláudio Pereira Symansky, desvenda dos mistérios detalhes dessas relíquias históricas.

O texto explica que os engenhos Rio da Casca, Água Fria e Quilombo, ocupados entre os séculos XVIII e XIX, revelaram uma grande quantidade de cerâmicas artesanais, predominando panelas, tigelas, potes e pratos. Louças europeias de baixo custo também foram encontradas, além de garrafas de vidro.

Os arqueólogos descobriram que muitos artefatos encontrados em sítios ocupados por escravos teriam sido confeccionados pelos próprios cativos ou por índios da região, mas também podem ser produto das trocas culturais com os europeus.

A pesquisa mostra que em Chapada dos Guimarães os escravos africanos reproduziram nessas peças não somente os mitos de suas regiões de origem, mas também um corpo africano ideal. Portanto, além de suas funções utilitárias, esses vasilhames serviram para firmar identidades, memórias, representações e sistemas de crenças de origem africana.

Polo agrícola

A existência de engenhos em Mato Grosso está relacionada à decadência da mineração do ouro na região, no final do século XVIII. Muitos dos senhores de escravos foram forçados a remanejar seus plantéis para outras atividades produtivas, como o cultivo e o processamento da cana-de-açúcar.

Foi nessa época, a partir de 1850, que Chapada dos Guimarães se tornou o principal polo agrícola da capitania, devido a suas terras férteis e proximidades com Cuiabá. Nesse contexto, a maioria dos engenhos possuía o número de escravos que variava entre vinte e cinquenta, alguns mantinham plantéis com cerca de 100 escravos, que viviam em senzalas construídas de pau a pique cobertas com folhas de palmeiras de babaçu.

Nações africanas

Benguela, Mina, Congo e Moçambique foram os grupos de procedência africana, as chamadas nações, majoritários na região em diferentes intervalos entre 1790 e 1870.

Mina constituía um rótulo genérico, que poderia se referir a qualquer escravo embarcado no Golfo de Benim. Em Mato Grosso, esses escravos eram principalmente nagôs (povos de língua ioruba) e geges (povos de língua gbe).

Chamavam-se benguelas os escravos embarcados no porto de Benguela, localizado no sul de Angola. Em sua maioria, eram nativos daquela região, sobretudo do planalto ocupado por povos agricultores, conhecidos como ovimbundus.

Congo se referia aos bakongos do norte de Angola e do sul da República Democrática do Congo, bem como outros grupos localizados na bacia do Zaire.

Os moçambiques eram aqueles que tinham embarcado no porto da ilha de Moçambique, na costa oriental da África.

Diversidade cultural


No período em que a diversidade cultural africana na Chapada dos Guimarães atinge o seu pico, entre 1840 e 1862, os cativos apresentaram uma série de inovações, colocando motivos estampados, impressos em tecidos, círculos, além de combinações de diferentes técnicas.

Nesta época, foram registradas 28 nações africanas contra apenas 14 entre 1790 e 1829. Na medida em que aumentou o número de africanos de procedências diversificadas as cerâmicas decoradas se tornavam cada vez mais relevantes.
Quando os escravos nascidos na região passaram a ser maioria, as cerâmicas decoradas referentes ao último terço do século XIX caíram drasticamente em popularidade chegando a 10% nas amostras finais daquele período.

A pesquisa mostra que as cerâmica foi muito mais culturalmente relevante para os escravos africanos do que para os afro-brasileiros. Aos africanos a cerâmica além de ter uma função utilitária serviu como um veículo que expressava identidades diferenciadas.

Seja nas aldeias africanas ou em Chapada dos Guimarães, os ceramistas fizeram esses desenhos para serem olhados, percebidos e entendidos. Os seus vestígios nos fazem compreender um pouco mais do universo da escravidão no Brasil.

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