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Tradicionais mangueiras que ainda restam em Cuiabá "aguardam" chuva para dar frutos

Da Redação - Isabela Mercuri

29 Jul 2018 - 08:09

Foto: Rogério Florentino Pereira/Olhar Direto

Tradicionais mangueiras que ainda restam em Cuiabá
Está na música, na mesa, nas telas, nos quintais. A manga faz parte da história e da cultura cuiabana, e não há aquele de ‘tchapa e cruz’ que não se lembre de uma longa conversa à sombra de sua árvore. Tradicionalmente, sabe-se que a florada da mangueira começa em setembro, logo após a famosa ‘chuva da manga’. No final de julho e no mês de agosto, no entanto, é possível observar o desabrochar das flores pela cidade.



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Um dos cuiabanos que tem a mangueira como parte de sua memória afetiva é o secretário de Cultura, Esporte e Turismo do município, Francisco Vuolo. Nascido no Porto e criado no Coxipó, ele traz a manga no coração. “Nós jogávamos bola na beira do rio, embaixo do mangueiral. A casa do meu pai - todos se lembram - ali no Verdão, na região do Jardim Primavera, era toda rodeada de mangueirais. As pessoas iam ao quintal lá de casa, ali do bairro Santa Izabel, papai abria o portão para que elas colhessem manga, as pessoas iam lá, catavam as mangas no chão pra poder levar pra casa. (...) Sempre que eu vou aos bairros, as pessoas mais antigas se recordam disso,
e eu me lembro muito bem dessa época”.

Quadro do artista plástico Adir Sodré; mangas à direita da imagem

E não é só ele.  A Cuiabá antiga, marcada por grandes casarões, tinha espaço para essas árvores grandiosas. Mas a realidade tem mudado. “Cuiabá mudou muito, a cidade cresceu, hoje já existe todo um reordenamento imobiliário da cidade. Os terrenos já foram muito desmembrados, então é raro você encontrar grandes lotes, grandes áreas, a não ser na região do Coxipó e algumas regiões um pouco mais afastadas. Em razão disso, essa tradição que era natural do povo cuiabano vai se perdendo e se substituindo”, lamenta o secretário.

Vuolo (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

O problema se estende para fora das casas. Nas ruas de Cuiabá, também não há espaço para uma árvore com raízes e copa tão grandes, e com frutos tão pesados. Para o doutor em agronomia e professor de fruticultura da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Glaucio da Cruz Genuncio, o ‘problema’, em si, não está na mangueira. “Quaisquer plantas (árvores) podem ser plantadas na cidade, porém existem plantas que atraem morcegos, que atraem abelhas, por exemplo. O caso ‘problemático’ da mangueira é seu porte (parte aérea e sistema radicular extensos), além de seus frutos, que podem pesar até 600 g e podem causas danos. Assim, ao plantarmos árvores - perceba que não é somente a mangueira - em cidades, temos que imaginar a área final que ela ocupará. Por exemplo, não se recomenda plantar mangueiras em canteiros ou calçadas menores que 8 metros de largura (diâmetro da copa de 4 metros). Resumindo, não é a mangueira que seria o problema, e sim a falta de planejamento urbanístico para o plantio de arvores que é o problema nas cidades brasileiras, principalmente em se tratando de espécies frutíferas”, afirma.

Vuolo concorda. “Isso deveria constar dentro de um plano de urbanização, onde pudessem ser pelo menos identificados esses nicho, onde existem grandes mangueirais, e pudessem de alguma forma ser observados, para garantir que esses espaços não se percam ao longo do tempo. Ou, se vier por uma necessidade de expansão, de crescimento da cidade, que haja um repovoamento dessas árvores, uma replantação em outros locais”.

A árvore

Podendo atingir até 30 metros de altura, a mangueira tem uma copa arredondada e simétrica, raízes profundas que dão boa sustentação e capacidade de sobreviver a tempos de estiagem, e frutos de diversos ‘tipos’. Em Cuiabá, as mais famosas são a manga rosa e a manga Bourbon.

Gláucio explica que o período ideal para o plantio da árvore seria entre setembro e março, ou seja, na chuva. “Mas por ser uma planta bem adaptada ao Mato Grosso, o plantio no período de seca é viável, quando se faz uso da irrigação. As podas de formação são necessárias em todos os dois casos”.

Glaucio (Foto: Reprodução / Internet)

Essa ‘predominância’ da árvore no estado se explica pela definição das estações secas e chuvosas, aliada às altas temperaturas e curtos períodos de frio. “A mangueira, para florescer, necessita de condições específicas, tais como estiagem (período de seca), calor seguido de um período curto de frio, fotoperíodo específico (dias longos e dias curtos em sucessão). É importante ressaltar que na produção comercial, quando a associação destes fatores é inexistente, existe a necessidade de indução floral com produtos específicos. Assim, é notória a grande adaptabilidade da mangueira ao clima regional”, explica o professor.

Ele também garante que a famosa ‘chuva da manga’ não é só folclore ou mito. “A chuva da manga, assim como a chuva do caju, funciona como um ‘sinalizador’, que indica para a planta que ela passará por um período de estresse hídrico (falta de água) e temperaturas baixas (fatores associados que induzirão a floração da mangueira em nossas condições climáticas). Funciona como um marcador temporal e fisiológico para a planta”.

A famosa chuva deve cair nos próximos dias para que os frutos possam aparecer. Mas o professor lembra: naturalmente, apenas de 1 a 1,5% destas flores realmente se tornam frutos.

Vuolo espera por uma precipitação maior do que a do ano passado. “Estamos aguardando essa chuva pra brotar os frutos de forma mais forte e as mangas estarem novamente enriquecendo os quintais cuiabanos”, finaliza.

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