Olhar Conceito

Terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Notícias / Artes visuais

Poesia se revela em obras esculpidas pelos cemitérios e ajuda a contar história da Capital

Da Redação - André Garcia Santana

02 Nov 2017 - 14:35

Foto: Rogério Florentino Pereira/Olhar Direto

Poesia se revela em obras esculpidas pelos cemitérios e ajuda a contar história da Capital
Ofuscada pelo caráter saudoso dos ritos de 2 de novembro, a beleza poética da melancolia se revela em obras esculpidas pelos cemitérios da Capital. No jardim de flores e velas, multiplicadas pela ocasião, erguem-se dos jazigos guardiãs serenas, de olhares vagos e semblantes plácidos. Asas de granito abertas sobre o descanso dos que já partiram. Ao abrigo do mistério eterno, permanecem como registro de transformações sociais, políticas e culturais.

Leia mais:
Cerca de 100 mil pessoas devem passar pelos cemitérios durante o Dia de Finados

O decorrer das décadas enriquece a tradição arquitetônica das catacumbas e mausoléus, heranças da colonização portuguesa. Distribuídos pelo plano paisagístico, epitáfios gravados em mármore lado a intervenções com objetos pessoais, compõe obras de museus a céu aberto. A arte sepulcral mistura as tendências da moda aos movimentos históricos. Mudanças estendidas às homenagens, adequadas à demanda de cada geração.

A prática de colocar arte em lápides já existia desde a idade média, mas ganhou força no século XX entre famílias católicas mais ricas, que tinham condições de financiar as encomendas. Hoje os investimentos do tipo perderam espaço. O escultor Jonas Corrêa, conhecido por diversas obras espalhadas pela Capital diz receber poucas encomendas para lápides e capelas. “Às vezes, as pessoas me ligam e procuram para saber o que fazer, mas é esporádico.”

Ele classifica as obras tumulares como algo mais próximo do barroco.  “Hoje, os mortos não recebem mais homenagens tão pomposas. São lembrados em datas especificas, como Dia de Finados. Mas após isso, ficam esquecidos em suas moradas cada vez mais simplórias e verticais. Um ponto que pode explicar isso, é que hoje em dia as pessoas negam a morte e falar dela se tornou o grande tabu para alguns”, constata Jonas.

Na Capital é possível contar um pouco da história por meio dos cemitérios. O mais conhecido, de Nossa Senhora da Piedade, surgiu junto à então Bom Jesus de Cuiabá, entre os anos de 1817 e 1819. São mais de três mil túmulos onde repousam monarquistas, republicanos, heróis, escravos e imigrantes que construíram o município.

O lugar carrega traços de arquiteturas portuguesas, francesas e italianas, com obras que se diferenciam pelas tendências de ecletismo e historicismo, resgatadas em estilos grego-romano, gótico, barroco e romântico. As características se cruzam com o apelo sacro e progressista do século XIX. Retrato da segmentação social nos séculos XIX e XX, Piedade resguarda trabalhos em mármore carrara, trazidos por artistas italianos da província de Corumbá, de onde vinham também arquitetos portugueses e franceses.



Um dos jazigos mais famosos é o de Augusto Manuel Leverger, o Barão de Melgaço. Francês, ele chegou a Cuiabá navegando pelo rio Paraguai. Aqui, casou-se e permaneceu. Era militar, engenheiro e foi de sua autoria o primeiro mapa de Mato Grosso. Um dos heróis da guerra do Paraguai, Antônio Peixoto de Azevedo, também foi sepultado ali. Na lápide as inscrições: “Ilustre cuiabano coronel Antônio Peixoto de Azevedo, faleceu em 11 de janeiro de 1867 em Coruzu, em batalha defendendo o império contra o governo do Paraguai”.

Pelos corredores do local repousam ainda o historiador Estevão de Mendonça, o coronel Rogaciano Monteiro de Lima, o político Dante Martins de Oliveira, e o comediante Liu Arruda.

De acordo com o historiador Anibal Alencastro, o mármore Carrara, considerado uma das pedras mais nobres para esculturas, chegava ao Brasil pelo Porto de Santos, em grandes blocos vindos do Nordeste da Itália. “As famílias abastadas da cidade escolhiam as preciosidades por catálogos europeus; as esculturas para a decoração de suas sepulturas. Podemos encontrar, mesmo que defasadas, as três fases que passou a arte tumular: a do mármore carrara, do granito e do bronze – latão”, explica.

A valorização deste tipo de obra poderia, na opinião do historiador, fomentar uma modalidade turística pouco conhecida no Brasil. “Esse é um formato de turismo pouco explorado. Existe uma quantidade imensa de obras de arte espalhadas pelos cemitérios, mas que pouca gente conhece.”

Além da Piedade, a Capital conta com mais dois cemitérios históricos: Porto e Coxipó. Atualmente, na Piedade são 12.800 sepultados e 4.900 jazigos, já no Porto são 4.000 sepultados e 2.200 jazigos e Coxipó 3.000 sepultados e 1.002 jazigos. Piedade e Porto não possuem mais espaços para novos sepultamentos. Estes são realizados somente se a família possuir sepulcro.

Com Prefeitura de Cuiabá. 

0 comentários

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Olhar Conceito. É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site Olhar Conceito poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

Redes Sociais

Sitevip Internet