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TRADIÇÃO À MESA

Na contramão da era gourmet, Nevaska garante sucesso com centenária receita de sorvete

Da Reportagem Local - Paulo Victor Fanaia Teixeira

27 Nov 2016 - 09:21

Foto: Rogério Florentino Pereira/Olhar Direto

Gilda Terezinha Winter na Nevaska

Gilda Terezinha Winter na Nevaska

O que é preciso para se fazer um verdadeiro sorvete? Talvez alguns digam pistache, limão siciliano, espumas de hortelã e requintadas frutas nórdicas cujos nomes sequer existem na língua portuguesa. Para a Sorveteria Nevaska, entretanto, uma boa fruta comprada na feira, um creme feito com simplicidade e o carinho tem garantido sucesso a uma receita de sorvete que beira seus 100 anos. Consumido por dezenas de famílias diariamente, Gilda Terezinha Winter da Silva e sua equipe provam que, na contramão dos vanguardismos, a tradição tem espaço reservado no paladar cuiabano.

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Encontrei-me com Gilda Winter às 17h20 de uma agitada quinta-feira (24). Procurei por seu nome no balcão de atendimento, aguardando que a proprietária me convidasse para uma sala de atendimento. Para meu engano, me apontaram para o caixa, onde desesperadamente nossa entrevistada despejava trocos às mãos esquerdas de seus clientes, às direitas estavam ocupadas com um cremoso e gigantesco cascão de sorvete. Sentamo-nos à mesa dos clientes.

Ela não disfarça a alegria e revela guardar até hoje o recorte de uma entrevista que concedeu a um jornal impresso do Estado há cerca de 10 anos. “Fico muito feliz de vocês terem vindo aqui”, confessou.

Questionei o segredo do Nevaska, mas Gilda dispensou mistérios. “Acho que a qualidade e o atendimento caseiro. É como se você estivesse chegando a sua casa, estamos de portas abertas. Teve uma época que projetamos colocar janelas de vidro, mas eu disse ‘não, quero um ambiente aberto, nada de vidro’. As pessoas precisam estar livres para entrarem quando quiser, acho isso legal, meu marido reclama que gasta muita energia (risos), mas eu discordo”.

Sorvete com Árvore Genealógica:

Em poucos minutos, Gilda Winter discorreu sobre a centenária tradição do sorvete caseiro apresentado hoje pelo Nevaska. Recebi boa parte da história e decidi pesquisar o resto. Contactei Benedito Carlos Teixeira Seror, que forneceu detalhes dos primordios do sorvete em Cuiabá.

Tudo começou com Miguel Seror, que aos 18 anos deixou sua cidade natal, Zahle, no Líbano, para viver em Chicago, nos Estados Unidos, no início da década de 1920. Lá, conheceu uma família de imigrantes gregos que produziam sorvete caseiro e que decidiram lhe revelar a receita. Em 1924, Miguel Seror volta para o Líbano e se casa. Pouco tempo depois decide se mudar com sua nova família para o Brasil, vindo direto para Cuiabá. 

E foi no fim da década de 1920 que Cuiabá inaugurou sua primeira sorveteria. Com uma receita simples, saborosa, nascia a “Sorveteria Seror”. O produto gelado foi um sucesso e marcou gerações de cuiabanos. Em 1969, Seror decide se despedir do negócio, passa a loja para Sebastião Fanaia (Tico) e, no ano seguinte, falece. Nascia uma nova geração da "Sorveteria Seror", que durou até 1983, quando Fanaia também decidiu fechar o estabelecimento. 
 

* Primeira concha de servir sorvetes de Cuiabá. Acervo família Seror. 

Dois anos depois, Valdir Seror, neto de Miguel Seror, decide retornar a tradição e é precisamente aqui que Gilda Winter entra na história. “Meu marido trabalhou junto com Seror, foi uma sorveteria super tradicional. Eles tinham a fórmula do sorvete, então decidiram formar sociedade com o cunhado de meu marido para lançarem a sorveteria Pinguim, no bairro Boa Esperança, em 1985. O negócio durou 10 anos”, nos conta a entrevistada.

“Abriram em seguida a Antártida, na avenida Historiador Rubens de Mendonça (CPA), do Ricardo Palma, que é outro cunhado do meu esposo. Ricardo trabalhou lá por 15 anos. Quando fechou em 2001, abrimos a Nevaska, que hoje completa seus 15 anos”.

Gilda revela que mantém muito respeito pela receita e a tradição do sorvete trazido pela família Seror e por isso foge dos modernismos. “Acho que as pessoas gostam destas coisas mais antigas, a gente nunca trocou nada da receita, veja só, a quantidade de coco que ‘seu Seror’ usava em 1975, nós usamos hoje. A diferença é que ele trabalhava apenas com os sabores: coco, chocolate, ameixa e outros dois. A gente só acrescentou outros, dentro da mesma receita. Hoje temos 51 opções”, conta Gilda, com orgulho, apontando para o quadro que possui atrás da bancada.

Gourmet? Não, obrigado...

Em meio a tantos anos de história naquelas mesas e nas colherzinhas de madeira, ainda arrisco a provocar Gilda dizendo se já ouvira falar em sorvete gourmet. Ela ri. “Ah...não, eu acho superinteressante, mas acho que é uma coisa passageira. Nós somos tradicionais, aqui é Banana Split, Sunday, sempre nessa linha. Acho interessante, viável, eles tem seu mercado. Mas, gourmetizar o que temos aqui, não”.

Afinal de contas, se é a simplicidade a marca registrada do produto que vende, peço a Gilda a receita do sorvete. “O maior segredo é não usar produtos químicos e gordura. Temos dois tipos de sorvete: um deles é a base de leite, amido de milho, fruta e açúcar. Nesse fazemos uma massa básica que serve para todos os sorvetes. O outro tipo é à base de água, que vai albumina, produto que inclusive já estamos substituindo por emulsificante, que está em fase de testes. Esta mudança é para agradar nossos clientes veganos, que pediram a mudança e nós respeitamos”.

Ingredientes e sabores preferidos:

E os produtos usados? “Uma vez por semana meu marido sai para comprar as frutas. A maioria delas compramos in natura, a fruta mesmo: manga, goiaba, laranja, etc. Polpa usamos apenas quando o sorvete é de uma fruta que não tem na região, como o açaí. Mas sempre que possível, dispensamos a poupa”.

De todos os sabores, fico curioso, qual o preferido do público? “Acho que há muitos sorvetes populares, como o de coco e o bariloche, que é feito com doce de leite, castanha de caju, passas e chocolate meio amargo, além da massa ser mesclada com doce de leite, esse sai muito. Enquanto que há outros que fazemos apenas para oferecer um diferencial, como maçã com pimenta, que ‘dá um marketing’ entre os mais curiosos e vira assunto na cidade”, responde rindo, Gilda.
 

* Fachada Sorveteria Nevaska. Foto: Rogério Florentino.

Crise? Não há...

Em tempos de depressão financeira e fechamentos de comércio em todo o país, pressuponho que a crise tenha lhe afetado, de alguma forma, e questiono apenas o "quanto", mas me engano na pergunta. “Aqui não houve crise", corrige, para minha surpresa. "Eu fiquei bem cautelosa" - admite - "mas não tive acréscimos no preço, aliás, nosso preço não aumenta desde agosto de 2015. Digo a casquinha e o cascão. Tentei balancear o custo trocando de fornecedor e trabalhando com frutas a preços melhores. Estamos na margem, no limite, mas temos consciência que não é o momento de aumentar o preço”.

Grandes aspirações? Talvez mais tarde. “Não penso em expandir, talvez abrir franquia, mas não agora, precisamos antes de uma produção eficiente. Para isso investimos em duas máquinas novas, também estamos contratando uma engenheira de alimentos que irá nos ajudar a economizar com qualidade”.

Equipe, crescendo! 

Pedi para Gilda nos apresentar a turma que trabalha com ela. Ela adianta. “Olha, nossa equipe hoje está bem organizada, viu, antigamente eu era faz tudo (risos), era financeira, cuidava das compras, de tudo! Hoje em dia é meu marido quem faz as compras e cuida da organização. Eu fico na parte administrativa, organizando a loja do shopping (em Várzea Grande). Temos uma financeira também e logo contrataremos essa engenheira de alimentos. Ainda contamos com seis atendentes, uma caixa, uma funcionária de serviços gerais e três parentes que trabalham conosco e fazem de tudo (risos)”.

O que é tradição, afinal?

Para encerrar, peço a Gilda Terezinha Winter da Silva que nos explique o que é tradição. Ela para, fita o horizonte e diz. “Tradição é algo que vocês faz a muito tempo, do mesmo jeito e com carinho. É o atendimento, é conversar com o cliente, manter o que vem lá de trás e permanecer o mesmo. Do Seror até hoje, o freezer, o balcão. Quando o cliente vem, prova, experimenta e é servido... acho que isso é tradição. A maioria da clientela é família. Sorvete é família, encontro de amigos, festinha de aniversário... ah, eu sou muito feliz no que faço... muito feliz!”.

Seviço:

Sorveteria Nevaska fica na Rua Barão de Melgaço, 2169 - Centro Sul, Cuiabá - MT, 78025-300. Telefone: 3622-1550. Aberto entre 13h e 23h.
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