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Colunas

Qual é o piano que você carrega?

Isolda Risso

Minha mãe antes de morrer fez um pedido ao meu pai: cuide dela (no caso eu) você sabe que ela nunca teve a cabeça boa. Na ocasião eu contava 40 anos.A partir desse dia, sempre que o nome da minha mãe surgia, papai repetia como uma espécie de mantra: “eu sei que você é boa da cabeça, mas sua mãe antes de morrer pediu para eu cuidar de você e eu vou cuidar enquanto viver”.Papai... Que saudades eu sinto de você!

Então... As rusgas entre mamãe e eu se davam pelo fato de pensarmos diametralmente oposto na maioria das situações, em termos as nossas convicções e defendê-las firmemente. Mamãe não era fácil, eu também não fui uma filha fácil.Éramos semelhantes ao sol e a lua, uma era água a outra vinho, uma vivia o dia a outra a noite.

Mamãe em sua adolescência queria ter estudado piano e meu avô materno não teve condições de favorecê-la, eram muitos filhos, a vida não era fácil e era necessário garantir o estudo de base a toda prole.
Não havia espaço para complementações culturais. Desde criança eu me interessei por pintura, gostava de fazer meus rabiscos coloridos, mas fui obrigada a estudar piano “sem direito”aoutra atividade que não fosse ele e a escola fundamental.

Nunca soube porque mamãe fez isso e jamais saberei.
Falta de condições financeiras não foi, presumo que sabida como ela só, mamãe devia imaginar que eu não iria muito longe com o piano se me envolvesse com a pintura.


Não consegui fazê-la enxergar de que eu como pianista clássica, seria a expressão da mediocridade, então tentei convencê-la a me deixar fazer piano popular.
Não teve jeito, não consegui escapar do conservatório e suas longas horas de estudo de escalas. Minha professora colocava uma moeda em cima das minhas mãos e ali ela tinha que permanecer sem escorregar até a conclusão da aula. Foram muitos os dias que um nó se estabelecia em minha garganta e a partitura embaçava com minhas lágrimas.

Passaram-se os anos e enfim chegou o dia da minha formatura. Acho que nuncauma data foi tão aguardada. A festa foi bonita, com certa pompa e muitas apresentações. Todos estavam bem vestidos e traziam um sorriso estampado no rosto. Pais, padrinhos, tios e avós orgulhosos de seus filhos, netos e afetos. Bem, os filhos não posso dizer o sentimento que carregavam na alma, o meu era de libertação.
Assim que a entrega dos diplomas foi concluída, fui até mamãe e dei o meu á ela e daquele dia em diante nunca mais me sentei em piano algum.Não me sentei, mas carreguei-o por muitos anos como parte da decoração da sala, até o dia que decidi me libertar completamente dele e o doei a uma instituição que investe em formação de jovens carentes. Meu coração se encheu de alívio, tirei um peso de cima de mim, ali sim ele seria útil, favoreceria e alegraria alguém.

Entre nós duas tinha um agravante(para ela) pelo fato de eu passar horas olhando as nuvens. Esse meu comportamento além de irritá-la profundamente era o demonstrativo da minha quase insanidade.
Eu tentava explicar que olhar as nuvens é assistir um espetáculo ao vivo, é como estar diante de um palco assistindo um balé que muda a cada instante e conforme mudam, novos cenários surgem e novos bailarinos aparecem.Mamãe foi uma boa mãe, sempre foi muito correta em tudo, ensinou a mim e aos meus irmãosa sermos gente. Dona Maria Zélia era uma mulher prática, concreta e racional, a complexidadedas emoções que compõe a paisagem interna das pessoasintrospectivas, reflexivas,era algo que ela não entendia, não aceitava e não administrava nada bem.
O meu silencio, o meu recolhimento, os finais de semana em que eu escolhia ler ao invés de sair com amigos, ela para ela ofensivo.
Enfim, família é assim, composta por seres diferentes e ser diferente não é defeito. Havendo respeito e vontade que a relação, seja ela familiar, profissional ou afetiva de certo, seres diferentes convivendo juntos podem e muito se auxiliarem.
Podem crescer tendo objetivos diferentes, abrir a mente para o novo entrar. Crescerem com perspectivas diferentes sendo saudavelmente diferentes. Não consigo imaginar um mundo onde todos pensem iguais, queiram iguais, seria um desserviço á todos.
Uma pena que nem todos pensem assim e os relacionamentos empobrecem com isso, realmente é uma pena, todos perdem em não aceitar as diferenças.Em casos de pessoas muito resistentes em aceitar que o outro não seja como ele deseja, a psicologia alega que a raiz dessa resistência esta em “não aceitar-se”. Deve ser isso mesmo, a aceitação destrona o ego, “o senhor da razão”.

Um abraço

Isolda

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*Isolda Risso é Personal & Professional Coaching Executive, Xtreme Life Coaching, Neurociência no Processo de Coaching, Programação Neurolinguística (PNL) pedagoga por formação, cronista, retratista do cotidiano, empresária, Idealizadora do Café Com Afeto, mãe, aprendiz da vida, viajante no tempo, um Ser em permanente evolução. Uma de suas fontes prediletas é a Arte. Desde muito cedo Isolda busca nos livros e na Filosofia um meio de entender a si, como forma de poder sentir-se mais à vontade na própria pele. Ela acredita que o Ser humano traz amarras milenares nas células e só por meio do conhecimento, iniciando pelo autoconhecimento.
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