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Segunda-feira, 10 de agosto de 2020

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As sensações que só o ‘antigo’ nos permite

Autor: Raul Fortes

09 Ago 2018 - 18:36

Arquivo Pessoal

Em visita ao Memorial Dy Anjos, do meu amigo/irmão Habel Dy Anjos, pesquisador, compositor e divulgador da viola de cocho, entre prosas e uma e outra taça de vinho ao puxar a chave do meu carro deixei cair um pen drive de 16 gigabytes. Curiosamente esse pequeno dispositivo tecnológico caiu próximo a uma estante com várias enciclopédias. Grata surpresa! Na mesma hora me veio a seguinte reflexão: nós estamos com a modernidade a todo vapor e pulsando forte diante dos nossos olhos.

Temos celulares que são verdadeiros computadores. São máquinas poderosas e pequeninas com memórias incríveis e com capacidade de com alguns toques baixar e arquivar um acervo inteiro. Lembrei da velocidade com que tudo se processou nos últimos 25 anos. Falo de kbytes, megabytes, gigas, teras...

E aos poucos a juventude vai deixando de conhecer o prazer de manusear álbuns de fotografia, discos de vinil (LP), fitas K7 e sentir nas mãos uma capa de um livro, gramatura de folhas, fotos, estilos de impressão e o próprio cheiro do papel de um bom livro. E são dos livros que quero falar mais.

Para nós, professores que também são artistas, que nos achamos modernos, mas de coração e algumas rotinas à moda antiga, não há como negar a alegria de visitar um sebo ou uma pequena livraria e encontrar preciosidades que ainda não foram transformadas em livros eletrônicos, os chamados e-books.

Obras antigas com certeza trazem além do cheiro característico, a energia das mãos que as folhearam e muitas vezes até por circunstâncias adversas, foram marcadas com gotas de vinho, marca de batom ou mesmo com o cheiro de um perfume. Tem também aquela curiosidade que nos salta aos olhos quando nos deparamos com uma dedicatória talvez envolvida de emoção pelo simples fato de significar um presente a um ente querido. O livro é um objeto que nos remete à longa duração e cuidado. Temos como exemplos as inscrições cuneiformes sumérias que atravessaram séculos e hoje nos proporcionam estudos para desvendar como era viver em outras épocas não digitais.

Hoje, o sebo é tido por muitos como o resto. A cultura já “usada”. Porém, de forma incrível, é fonte de conhecimento, nostalgia e prazer. Em resumo, tem cheiro de saudade e consegue causar sensações com certo charme que nos deixa sem jeito. Para nós, professores artistas, 'meio antigos', não velhos, livros com páginas de papel tem cara de aconchego do lar. É a surpresa e a novidade para a nova geração.

Para esta juventude recomendo, por exemplo, a loja Raro Ruído, uma pequena livraria e sebo. Livros, discos, gibis estão ali postas como fonte de histórias, palavras e músicas.

Eu entrei e logo de cara vi Billie Holiday, a Lady Day, parada num canto. Ela que foi uma cantora e compositora estadunidense,  da pesada! Trocamos olhares e logo pedi para o proprietário Edson Abreu, um advogado muito gentil e de uma sabedoria admirável, para deixá-la cantar um pouco. Ele pegou o vinil com todo carinho, colocou pra tocar e começamos a falar sobre algumas paixões enquanto a maior de todas as cantoras de jazz soltava a voz. Óbvio que levei Lady Day pra casa. E por um preço que só nós, professores artistas e meio antigos, podemos compreender.

Meu caso de amor por sebos não é de hoje. Já peguei carona em um fusca 1969 há algum tempo. O Fusca Sebo, ou Rua Antiga foi uma paixão à primeira vista, sabe? Além do afeto e de tantas obras raras que dividem o banco do “fusquinha” e a sala da “casinha”, a história da jornalista Marilia Bonna  e do arquiteto Thiago Iusso que deixaram os títulos de lado para comercializar memórias é inenarrável. Deles já tenho em casa várias coisas que os encontros semanais me permitiram. Incluindo a máquina que escrevi a primeira parte desse texto, uma remington 15.   

Sebo hoje é raridade, já que as obras já nascem atualmente na cena virtual. Faz-me falta o deleite do manuseio de cada página e o bate-papo sobre a data da edição ou o ano da gravação do long play. Por isso, brindo aos professores artistas, meio antigos, da Rua Antiga, do Raro Ruído e do Memórial Dy Anjos onde, entre um café, às vezes uma taça de vinho, e um bom papo, apreciam abrir um livro. Já o meu pen drive... está meio de lado, mas não nada contra! Só sou a favor de virar o disco e do calmo folhear de um livro.

*Raul Fortes é músico educador e apresentador.

1 comentário

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  • Judith
    16 Set 2018 às 10:26

    Belíssima reflexão de amor e poesia! É preciso manter viva a memória e a vivência com nosso insubstituíveis livros de papél, discos e máquina de escrever! Uma sensação única!

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