Olhar Conceito

Quarta-feira, 28 de julho de 2021

Colunas

Drummond e a última nudez

Autor: Matheus Guménin Barreto

12 Set 2016 - 09:25

Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: ‘Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que não é meu objetivo desenvolver aqui, e que não me caberia alcançar em meia página de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Aviso feito, vamos à conversa de hoje, que será bem breve’.

Há pouco a se falar sobre um dos maiores livros da história da língua portuguesa. Ou melhor dito: há muito o que falar, e esse muito se torna pouco frente ao livro sem tamanho. Apesar de eu não pedir desculpas, o leitor vai me perdoar os arroubos de grandiloquência e os supostos exageros, quanto mais porque logo, logo se juntará a mim neles.

“A vida passada a limpo” de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) saiu primeiro em 1959 na edição da obra completa do poeta até então, e a partir desse momento foi reeditado diversas vezes, sempre ao lado de mais dois ou três livros de Drummond, de modo que só muito mais tarde foi publicado em edição autônoma.

Em minha não tão humilde opinião o livro “A vida passada a limpo” representa o ápice da produção de Drummond principalmente por três motivos: 1) porque nele se encontram e combatem as impressões do poeta engajado que foi Drummond na década de 40 com as reflexões do poeta também engajado (!) que ele foi da década de 50 em diante, ali porém já absolutamente frustrado e desiludido, preso como estava num desespero calmo e apático de quem pressente a total indiferença do mundo e o imutável fracasso da luta de classes; de modo que “A vida passada a limpo” é o resultado desse embate entre utopia e desilusão, esperança e frustração, amor e desesperança; 2) porque ali estão presentes muitos dos mais significativos aspectos tanto formais quanto temáticos da obra do poeta até então; e 3) finalmente porque ali há o poema ‘Nudez’, talvez o poema máximo do século XX brasileiro, que reproduzo abaixo e deixo falar por si mesmo:

NUDEZ
“Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.”

Agora, leitor, minha intenção era continuar a coluna e apresentar alguns dos outros poemas do livro (e alguns deles habitam também o panteão da lírica brasileira), mas isso seria ainda mais inútil e vazio do que já é, normalmente, falar de grandes obras de arte. Não é preciso continuar. Simples assim. Melhor mudar o plano e pedir-lhes que releiam o poema acima, que o releiam até saberem todas as palavras de cor.

--

*A coluna Rubrica, publicada às segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Guménin Barreto. Matheus Guménin Barreto faz mestrado em literatura alemã na USP, escreve sobre literatura para jornais do estado de Mato Grosso, é tradutor e escreveu um livro ainda inédito de poemas, que sairá entre 2016 e 2017.

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