Olhar Conceito

Sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Colunas

Ferreira Gullar: memória e resistência

Danilo Bezerra

[Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que não é meu objetivo desenvolver aqui, e que não me caberia alcançar em meia página de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

Ferreira Gullar (1930- ) é um dos mais significativos poetas brasileiros da história recente. Livros como “A luta corporal” (1954), “Dentro da noite veloz” (1975), “Poema sujo” (1976) e “Em alguma parte alguma” (2010) testemunham a altura na qual opera o poeta cujo “Poema sujo”, segundo Vinicius de Moraes, “é o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas”.

(Uma pequena edição às 00:00 em ponto do dia 17 para o dia 18 de abril, dia do golpe: o poeta Ferreira Gullar, já há algum tempo, parece ter perdido a lucidez do intelectual cuja poesia social alçara tão alto. Seus posicionamentos, em alguma instância, não nos deixam esquecer do dificílimo momento pelo qual a democracia do país passa. Portanto, para tentar recuperar um pouco daquela poesia do Gullar da década de 70 [e que se faz tão necessária em momentos como esses] a coluna abordará hoje o grande “Poema sujo”.)

Digo sempre (e pressinto que nunca é demais repetir): este texto é apenas uma conversa. Não é uma crítica ou resenha literárias. É a conversa que teríamos você e eu, leitor, se estivéssemos à mesa tomando um café.

Creio que seja importante esclarecer em duas ou três linhas o contexto no qual o livro foi escrito – se isso não acrescenta ou diminui em nada a qualidade do livro, ao menos dá ao leitor alguma noção mínima do que acontecia ao redor do poeta. Gullar escreveu o “Poema sujo” em 1975, em Buenos Aires, durante o exílio político imposto pela ditadura militar brasileira. Duas coisas importantes podemos apreender disso: 1) o poema talvez corporifique o horror e o desespero do exílio (não só geográfico, mas intelectual e principalmente afetivo) e 2) talvez tente erigir no necessariamente deslocado nível da criação poética um local de memória e resistência, de memória e afeição, de memória e perda. Creio que esses sejam bons pontos de partida para a conversa.

Nos dois movimentos do livro (o de luta contra o horror presente e o de criação de uma cidade natal passada) se forma o poema. É importante notar que ambos os “movimentos” fogem do senso comum, a saber: o horror do presente não é negado, como se se quisesse criar um idílio apolítico onde só há o bom e o belo; muito pelo contrário: é afirmado e amargamente reafirmado, é exposto, é denunciado como aquilo que é e que não se pode nem se quer negar: horror. Da mesma forma, a recriação da cidade natal no plano da poesia não é a criação ingênua e um pouco idiota de um local sem males, sagrado, ideal; de forma alguma: é um local onde se realiza o afeto e o amor, mas é também o local do assassínio, da luta de classe, da pobreza e da injustiça – é, em outras palavras, complexo e principalmente contraditório, “sujo” como tudo nessa vida.

Lendo assim o “Poema sujo” como local e realização da memória e tendo em vista que o longo poema tem ‘partes’ (na falta de uma palavra melhor) separadas por espaços em branco que não foram numeradas nem receberam títulos (mantendo assim cada uma sua condição dúbia de ‘parte’ e de ‘todo’) seria possível enxergar a estrutura do livro como um círculo ‘atacado’ ou ‘acessado’ por vários lados. Explico: a memória seria o círculo, o objetivo do poema; cada ‘parte’ seria uma tentativa de recriá-la, tentativa falha por si só, mas bem-sucedida se somada às outras partes; por fim, o livro todo seria, então, a própria tentativa de se recriar a memória: não a memória, mas a tentativa desesperada de recriá-la.

O livro “Poema sujo” como tentativa, como insuficiência e, portanto, memória (memória: insuficiência hoje do que já houve): aí está a grande realização de Ferreira Gullar.

A memória como sempre insuficiente meio de acessar o que houve e o que somos, mas mesmo assim o único meio à nossa disposição: aí está a dor que precisa experienciar o homem e a mulher que nascem, crescem, vivem, amam e morrem. Aí está o “Poema sujo” de Gullar: a turva, insuficiente, suja memória do que fomos; a turva, insuficiente, suja, constatação do que agora somos. Leiamos abaixo o trecho inicial e o final do poema:

“turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu

tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as
folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta
como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras)
como uma entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do
Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já
um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira
e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?
(...)”


***


“(...)
E são coisas vivas as palavras
e vibram da alegria do corpo que as gritou
têm mesmo o seu perfume, o gosto
da carne
que nunca se entrega realmente
nem na cama
senão a si mesma
à sua própria vertigem
ou assim
falando
ou rindo
no ambiente familiar

enquanto como um rato
tu podes ouvir e ver
de teu buraco
como essas vozes batem nas paredes do pátio vazio
na armação de ferro onde seca uma parreira
entre arames
de tarde
numa pequena cidade latino-americana.

E nelas há
uma iluminação mortal
que é da boca
em qualquer tempo
mas que ali
na nossa casa
entre móveis baratos
e nenhuma dignidade especial
minava a própria existência.

Ríamos, é certo,
em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas
de hortelã enroladas em papel de seda colorido,
ríamos, sim,
mas
era como se nenhum afeto valesse
como se não tivesse sentido rir
numa cidade tão pequena.

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra coisa:
o homem, por exemplo, não está na cidade
como uma árvore está
em qualquer outra
nem como uma árvore
está em qualquer uma de suas folhas
(mesmo rolando longe dela)
O homem não está na cidade
como uma árvore está num livro
quando um vento ali a folheia

a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que um pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que um pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo

a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa
cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma

a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas praças e ruas”

--

*A coluna Rubrica, publicada às segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Guménin. Matheus Guménin estuda literatura alemã na USP, escreve sobre literatura para jornais do estado de Mato Grosso, é tradutor e escreveu um livro ainda inédito de poemas, que sairá entre 2016 e 2017.
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