Olhar Conceito

Sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Colunas

Eu só tenho cinco dias... você sabe o que são cinco dias ?

Arquivo Pessoal

Intrigada com a frase dita de forma agressiva olhei para o lado e constatei que aos berros uma jovem senhora levantara uma das mãos e com os dedos bem abertos mostrava com nítida fúria ao jovem atendente por detrás do balcão da companhia aérea. Inconformada, a dama continuou com um o tom de voz ainda mais alterado: “você esta fazendo eu perder um dia inteiro desses cinco dias, você esta roubando um dia inteiro das minhas merecidas férias e com isso tirando o meu sossego”.

Com uma mescla de calma e apreensão, o rapaz solicitava: “por favor senhora, entenda, todos os voos estão atrasados, a metereologia aponta tempo ruim em várias rotas, infelizmente seu destino é um deles, o avião não recebe autorização para decolar enquanto a torre de destino não liberar”.

Momentos antes desse episódio barulhento e deselegante por parte da jovem senhora eu encontrava-me concentrada na leitura do lindo e misterioso romance “Luna” de Frédéric Lenoir. Não sei se por impossibilidade de voltar a me concentrar diante do alvoroço que se formou, ou por curiosidade mesmo, daquelas que por vezes assola nós mortais, fechei o livro e passei a observar aquela cena dantesca que se desenrolava diante de mim e de mais algumas dezenas de pessoas.

A simpática, além de desolada, grossa e furiosa, instigava aos demais, fazendo com que a desordem só aumentasse. Alguns viajantes entraram na barca dela, saíram do silêncio e passaram a discutir. Interessante ver como um comportamento inadequado e agressivo, contagia o ambiente, nessa hora os afins se unem, sentem-se fortalecidos apoiados uns pelos outros e a energia do local vira lodo. Atitudes pacíficas e equilibradas, também tem o poder de tranquilizar um ambiente conturbado, pena que ainda seja a minoria.

Em meio aquele bate boca, eu pensava: “o que essa louca acha que vai conseguir com isso?” Será que era tão difícil assim de aceitar que o tempo estava ruim, que não era responsabilidade de ninguém além de São Pedro?
Ter seu voo atrasado não era privilégio da bacana, todos nós estávamos na mesma situação, e os atendentes se desdobravam para acalmar a todos. Ok que nem sempre é assim, mas naquele dia chuvoso, acho que o anjo da guarda dos operadores das companhias aéreas já prevendo a confusão os energizou com uma dose a mais de paciência e boa vontade.

Era 23 de dezembro, aeroporto internacional de Brasília, tempo fechado, molhado.
Uma chuva fina se intercalava com verdadeiros dilúvios, chegando a inundar algumas salas de mais um aeroporto mal feito e feito as pressas em um país que vem sendo desconstruído por aqueles que deveriam bem governa-lo.

Quando eu me cansei de assistir aquele sarapatel, procurei um assento longe dali e me perguntei: “o que me levou depois de tantos anos a trair o acordo que eu havia feito comigo mesma, sobre jamais voltar a viajar em períodos de férias, muito menos em véspera natalina”.

Voltando um pouco no tempo...

Naquele dia meu voo estava marcado para sair as 03:45hs. Como boa filha de mineiro, cheguei ao aeroporto as 02:20hs. Sou daquelas que adiantam o relógio em 10 minutos e como esqueço que adiantei, sempre saio com uma boa antecedência, se depender somente de mim, jamais me atraso para qualquer compromisso.

Naquele dia, qual não foi minha alegria ao ouvir da atendente do check-in que o voo foi transferido para as 06:00hs da manhã. Minha ficha demorou um cadinho para cair, mas fazer o que? Voltar para casa para dai a pouco voltar para o aeroporto não me animou, decidi que ficaria ali mesmo aguardando. Despachei a mala, encontrei uma lugar para me sentar, peguei meu livro e vamos aguardar.

O dia raiou, as 06:00hs chegou e o avião não apareceu. Explicação: “mal tempo”. Duas horas a mais de espera e por volta das 08:30hs levantamos voo. Conexão Brasília. O tempo por lá não estava bom mesmo, a aterrissagem não foi das melhores e assim que desci do avião fui direto para o balcão da companhia aérea ver como estava a previsão do próximo voo. Informaram-me que estava previsto para sair as 11:25hs. As 11:25hs não saiu, explicação: “mal tempo”. Eu estava enfadada com aquela situação, até o momento que fui sacudida pelos gritos daquela mulher.

Em todas as situações que passamos, se quisermos, tiramos algo de bom, aquele tumulto quebrou um pouco a monotonia que é ficar horas e horas em uma sala de espera.

Não demorou muito e meu voo foi confirmado e as 17:40hs decolamos, deixando para trás a mulher destemperada. O que será que ela conseguiu provocando aquela perturbação? Não soube e jamais saberei...

Mas o que foi mesmo que me fez mudar de ideia e viajar em 23 de dezembro?

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*Isolda Risso é Personal & Professional Coaching Executive, Xtreme Life Coaching, Neurociência no Processo de Coaching, Programação Neurolinguística (PNL) pedagoga por formação, cronista, retratista do cotidiano, empresária, Idealizadora do Café Com Afeto, mãe, aprendiz da vida, viajante no tempo, um Ser em permanente evolução. Uma de suas fontes prediletas é a Arte. Desde muito cedo Isolda busca nos livros e na Filosofia um meio de entender a si, como forma de poder sentir-se mais à vontade na própria pele. Ela acredita que o Ser humano traz amarras milenares nas células e só por meio do conhecimento, iniciando pelo autoconhecimento.

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