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Segunda-feira, 28 de setembro de 2020

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Pepetela: o que foi e o que será Angola

Autor: Matheus Guménin

22 Fev 2016 - 09:29

Danilo Bezerra

[Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que não é meu objetivo desenvolver aqui, e que não me caberia alcançar em meia página de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

Pepetela (1941- ) é um dos mais significativos escritores angolanos dos séculos XX e XXI, partilhando a posição com autores como José Luandino Vieira, Ana Paula Tavares, Agostinho Neto, José Eduardo Agualusa e, mais recentemente, Ondjaki.

Seu romance “Lueji, o nascimento de um império” seria prova disso, se necessária fosse alguma outra evidência de sua grandeza. Em linhas gerais o enredo é o seguinte: o livro se desenvolve em dois planos narrativos, 1) um que se faz em Angola (particularmente em Luanda e Benguela) perto da virada para o nosso século XXI e gira em torno de uma bailarina chamada Lu e 2) outro no reino da Lunda há pelo menos 400 anos – este em torno da rainha lunda Lueji. Os dois planos se contaminam (nas duas direções, já que até mesmo a história antiga de Lueji ganha significações novas a partir da história moderna de Lu) à medida que a bailarina Lu começa a desenvolver um ballet sobre a vida da rainha Lueji.

O enredo acima contado é a semente que germina livro afora em ramificações de personagens, histórias secundárias e uma miríade de detalhes outros que não posso contar aqui – por falta de espaço e para não estragar as surpresas da leitura alheia. Agora, quanto à questão sempre mais interessante em literatura de qualidade – isto é, quanto à técnica ali desenvolvida –, pode-se dizer que a narração do romance é “discretamente revolucionária”, se me permitem a nomenclatura em oxímoro. Ou seja: os avanços estéticos impostos pelo narrador não são ostensivos e podem tranquilamente passar despercebidos pelo leitor menos atento. Assim, o narrar do livro alterna constantemente entre os dois planos históricos, e normalmente de forma bastante brusca: uma frase pode começar se referindo a um plano narrativo e terminar se referindo ao outro, como se pode notar no trecho abaixo:

“Deu uma gargalhada de despedida, bateu no ombro de Uli e saiu. O bailarino ficou a olhar o copo de cerveja. A mão tremia. O Afonso ainda estaria lá? Pensou num relance em pegar o carro e ir verificar. Merda, ciúmes ridículos! Bebeu tudo e ficou quieto, a sentir a cerveja percorrer o seu trajeto. Um rinoceronte branco no mar e não uma kianda. Não é a mesma coisa? Era, sim. O Mabiala podia visitar a Lu quantas vezes quisesse, ele tinha de ser forte e não entrar em pânico, embora a cabeça cortada de Katuya tivesse mesmo criado o pânico entre os Tubungo. Mas pânico maior foi criado pelos mujimbos que indicavam a saída do exército de Tchinguri do Luengue, a caminho de Mussumba. No fundo, os muatas sempre tiveram esperança que Tchinguri não ia ousar fazer a guerra.” (Página 219, Editora Leya)

O parágrafo acima une e contamina as histórias uma com a outra. Ou seja, na frase “O Mabiala podia visitar a Lu quantas vezes quisesse, ele tinha de ser forte e não entrar em pânico, embora a cabeça cortada de Katuya tivesse mesmo criado o pânico entre os Tubungo” se começa com a história de Lu e dos outros bailarinos e – após uma mísera vírgula – surge o reino antigo de Lueji e suas guerras.

Esse artifício narrativo da alternância de planos narrativos pode causar grande desorientação no leitor, que muitas vezes não sabe bem se lê algo sobre a bailarina Lu ou sobre a rainha Lueji (sobre Uli ou sobre Tchinguri, sobre Cândido ou sobre Tchibinda Ilunga) e talvez seja exatamente esse o objetivo do narrador: concretizar a contaminação entre as duas histórias, fazer com que essa contaminação ocorra não só nas páginas do livro, mas também na mente do leitor.

Seriam as duas histórias realmente “duas”? Ou será que o passado sempre se une ao presente numa linha contínua, não em planos opostos? Será que não devemos o que somos hoje àquilo que foram os antepassados? Podemos realmente separar o passado do futuro? Talvez não. A maestria narrativa de Pepetela concretiza diante dos olhos do leitor a união entre passado e presente que fabrica diariamente nosso futuro.

Afinal, como o grande T. S. Eliot já anunciara em 1936, “O tempo passado e o tempo presente / Estão ambos talvez presentes no tempo futuro / E o tempo futuro contido no tempo passado. / Se todo tempo é eternamente presente / Todo tempo é irremediável.” (do poema “Burnt Norton”, aqui em tradução de Ivan Junqueira).

Além da questão individual que a contaminação entre passado e presente traz, há a questão “comunitária” ou “coletiva”. Angola era independente havia poucos anos quando o livro foi publicado. Que passado comum une aquilo que hoje é Angola? Que personagens antiquíssimos são base comum aos homens todos daquilo que hoje é Angola? Que elementos, mulheres e homens formaram a República de Angola atual? É importante pensar na importância política da publicação de um livro como “Lueji” em 1989, míseros 14 anos depois da Independência de Angola. Quão importante é a grande reflexão acerca do passado, do presente e do futuro que é o livro “Lueji”? Será que é de fato importante? Será que é possível em pleno século XX (ou XXI) pensar em “identidade nacional”? Se sim, como? Caso não, por quê? São questões evocadas pelo inquietador romance “Lueji” e nele concretizadas.

O longo trecho abaixo (o final de uma conversa entre Lu e Jaime) dá uma boa dimensão daquilo que o livro “Lueji” realiza ou procura realizar:

“Esta é a estória verdadeira do que passou na Cahama. Do que passou todos os dias no nosso Sul, mítico-verdadeiro. Vem um gajo, resolve mudar tudo. Claro, aconteceu o que tinha de acontecer. Os espíritos que com os nossos estavam na Cahama se revoltaram, sabotaram tudo e adeus espetáculo. Se ao menos o checo tivesse feito oferendas aos espíritos, nos tivesse deixado pôr bacias de água à entrada para os deter... Nada! Nem queria ouvir falar, vem da terra da lógica matemática, da racionalidade elevada ao infinito, não pode entender os improfissionais que nós somos. Improfissionais feiticistas. Quer realismo, mas recusando o realismo de Kafka, e não entendeu qual é o realismo aqui, o animista. Se fodeu e nós com ele.
- É uma versão.
- Que explica muito, tens de concordar. Numa terra de muitas verdades, esta é tão verdadeira como as outras.
Lu foi caminhando pela Marginal, a frase de Jaime martelando na cabeça. Por que não? Numa terra de muitas verdades, quem pode dizer que uma é menos verdadeira? Por qual necessidade lógica ou ilógica Lueji tinha de ser filha do mesmo pai e da mesma mãe que Tchinguri? Aí estou com ela.
A baía de Luanda tinha cor tão azul quanto o céu. Água absolutamente parada, como um lago. Para o ser faltava no entanto muita coisa. Faltava retirar dela os navios e as plataformas de petróleo vindas para revisão e que a poluíam, faltava acrescentar fetos e begónias e sobretudo rosas de porcelana. A terra vermelha em cima, nas vertentes das barrocas, já a tinha. Lu olhou a baía com saudade, sonhando com um lago oval.” (Página 72, Editora Leya).

É também interessante notar a presença do narrador-personagem (vide "Aí estou com ela." no parágrafo aqui citado), um escritor colega de Lu, para quem a moça mais tarde conta toda a história que ele mais tarde narra (apesar de constantemente a figura desse narrador-personagem se fundir à do personagem que preside cada cena em questão). Como se pode ver, o tecido narrativo de “Lueji” é bastante complexo – apesar de discreto, como já mencionado anteriormente.

Várias outras são as discretas experimentações narrativas em “Lueji”, mas meu espaço diminuto neste jornal não permite um comentário mais detalhado. O leitor atento de “Lueji” certamente encontrará os pequenos baús de ouro discretamente enterrados narrativa afora – ou narrativa adentro. E talvez nesses baús (no passado e presente que eles guardam) o leitor encontre o futuro da complexa República de Angola – complexa como qualquer outra nação.

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*A coluna Rubrica, publicada às segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Guménin. Matheus Guménin estuda literatura alemã na USP, escreve sobre literatura para jornais do estado de Mato Grosso, é tradutor e escreveu um livro ainda inédito de poemas, que sairá entre 2016 e 2017.

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