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Terça-feira, 22 de setembro de 2020

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Clarice Lispector: sua busca em "Água viva"

Autor: Matheus Guménin

08 Fev 2016 - 14:55

Danilo Bezerra

[Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que não é meu objetivo desenvolver aqui, e que não me caberia alcançar em meia página de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

Clarice Lispector (1920-1977) é, como eu já comentei na última coluna que escrevi sobre a autora, provavelmente a mais popular das escritoras e dos escritores brasileiros do século XX. Isso eu não precisava dizer da última vez; não precisava repetir agora. Minha mania de falar o óbvio ataca outra vez.

Da última vez conversamos sobre seu romance de estreia “Perto do coração selvagem”; hoje conversaremos muito brevemente sobre “Água viva”, seu mais experimental e narrativamente complexo livro.

O livro é um enigma já na questão do gênero: o que ele é, afinal? Romance, como consta no catálogo das editoras? Poesia? Monólogo? Prosa poética? Só um fluxo em prosa? Como a basicamente todas as outras perguntas que levantei e levantarei nesta coluna de jornal, para esta eu não tenho a resposta. Nós leitores não temos as ferramentas necessárias para encontrar as respostas a esse tipo de pergunta. Deixemos as respostas a quem as pode dar: aos críticos literários.

No entanto, algumas certezas podemos ter: trata-se de um “eu” feminino na narração, e que se dirige a um “tu” que não se sabe bem o que é (o amado? Deus? O passado? O futuro? O não-mais-existir?), mas se sabe que é um tu masculino. Dessa ligação direta entre um eu e um tu nos termos expressos no livro, pode-se dizer que “Água viva” é um herdeiro distante e heterodoxo da lírica amorosa, principalmente da canção de amigo. Quem é o amigo? Não sei sabe, mas na realidade não importa saber. Deixando o “tu” aberto, a narradora dá a entender que ele é nenhum ao mesmo tempo em que é todos: se nada preenche o espaço do “tu”, tudo o pode ser. Leiamos, por exemplo, o trecho final do livro:



“Aliás não quero morrer. Recuso-me contra “Deus”. Vamos não morrer como desafio?
Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto. Uma coisa eu garanto: nós não somos culpados. E preciso entender enquanto estou viva, ouviu? porque depois será tarde demais.
Ah este flash de instantes nunca termina. Meu canto do it nunca termina? Vou acabá-lo deliberadamente por um ato voluntário. Mas ele continua em improviso constante, criando sempre e sempre o presente que é futuro.
Este improviso é.
Quer ver como continua? Esta noite — é difícil te explicar — esta noite sonhei que estava sonhando. Será que depois da morte é assim? o sonho de um sonho de um sonho de um sonho?
Sou herege. Não, não é verdade. Ou sou? Mas algo existe.
Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não para, viver parece ter sono e não poder dormir — viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito.
Eu não te disse que viver é apertado? Pois fui dormir e sonhei que te escrevia um largo majestoso e era mais verdade ainda do que te escrevo: era sem medo. Esqueci-me do que no sonho escrevi, tudo voltou para o nada, voltou para a Força do que Existe e que se chama às vezes Deus.
Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.
Hoje é sábado e é feito do mais puro ar, apenas ar. Falo-te como exercício profundo, e pinto como exercícios profundo de mim. O que quero agora escrever? Quero alguma coisa tranquila e sem modas. Alguma coisa como a lembrança de um monumento alto que parece mais alto porque é lembrança. Mas quero de passagem ter realmente tocado no monumento. Vou parar porque é sábado.
Continua sábado.
Aquilo que ainda vai ser depois — é agora. Agora é o domínio de agora. E enquanto dura a improvisação eu nasço.
E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero — eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.”


Não há narrativa em “Água viva”, pelo menos não no sentido tradicional da palavra. Em alguns pontos do livro surge um reflexo de narrativa, um relance (alguns dias da semana, o episódio do telefonema a São Paulo, o episódio do cansaço da narradora, o da gata parindo, o do médico). Mas todos esses pequenos episódios morrem assim que surgem; eles mal são enunciados e já somem sem deixar traço algum. São como riscos na areia: somem com a primeira onda do mar, com o primeiro vento forte.

Aqui se pode identificar uma semelhança entre a técnica narrativa presente em “Água viva” e aquela presente em boa parte da música erudita do século XX, a saber: o surgimento numa obra musical de melodias que logo somem para não retornar mais, apresentando assim um grande desafio aos ouvintes – já que eles estão acostumados a ouvir (na música mais tradicional) o desenvolvimento e as variações das melodias dadas. Nessas obras mais modernas, no entanto, o ouvinte não tem o que deseja. O mesmo se pode dizer de “Água viva”.

Então como pode haver narradora se não há narrativa? Se não há narrativa, o que a narradora narra? Para esta pergunta eu tenho a resposta: o “é”. A narradora narra o “é”: o centro negativo, o vazio, o “não-ser”, o “não-estar”, o oposto do “sim” (que não é o “não”).

“Água viva” é uma grande busca. É um livro de busca, de reconhecimento, uma tentativa de achar o “algo”, o “isto”, o “it”, o “é”. De alcançar o que ainda não é nada, ou o que já foi tudo e agora é nada. “Água viva” é um pequeno livro de viagens, mas de um outro tipo de viagem. É uma corrida que não conhece ainda seu ponto final, e que com ele não se importa. Importa-se, sim, com o percurso; não com o seu fim. “Água viva” é como tentar amarrar água ou como agarrar fogo.

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*A coluna Rubrica, publicada às segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Guménin. Matheus Guménin estuda literatura alemã na USP, escreve sobre literatura para jornais do estado de Mato Grosso, é tradutor e escreveu um livro ainda inédito de poemas, que sairá entre 2016 e 2017.


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