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Segunda-feira, 28 de setembro de 2020

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Luiz Sérgio Metz: os limites da ficção

Autor: Matheus Guménin

18 Jan 2016 - 09:11

Danilo Bezerra

[Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que não é meu objetivo desenvolver aqui, e que não me caberia alcançar em meia página de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

Luiz Sérgio Metz (1952-1996) foi um romancista, contista e jornalista brasileiro. Sua obra é curta, assim como o foi sua vida, e seu legado literário é provavelmente a obra “Assim na terra”, lançada um ano antes de sua morte.

Acerca do poeta Manoel de Barros dissera Geraldo Carneiro que “desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica”. Eu tomaria a liberdade de adicionar Luiz Sérgio Metz à lista dos autores que levaram os experimentos linguísticos e narrativos à beira do abismo – o tão necessário e tão benéfico abismo do avanço linguístico em direção ao qual certos autores caminham levando nos ombros as letras nacionais.

O artista cumpre aqui um papel que alguns erroneamente atribuíram a todo e qualquer artista que valha algo – eu discordo. Nem todo artista precisa testar os limites da linguagem para valer algo. Alguns, no entanto, sentiram a necessidade de empurrar esses limites alguns alqueires à frente, como Metz, Manoel de Barros e Rosa. Eu diria (já que, como vivo repetindo, isto aqui não é uma análise literária nem eu sou crítico literário, e por isso posso me dar à leviandade do discurso "apologético" - para citar Mário de Andrade) que precisamos dos dois tipos de artista: do que cultiva o campo conquistado e do que avança à procura de novos. Que bom que os temos em abundância na língua portuguesa.

Metz é, como dito, do tipo que avança. Seu livro “Assim na terra” é o exemplo máximo disso: poucos livros publicados nas últimas 3 ou 4 décadas foram tão longe no esticar das capacidades da língua portuguesa e da própria narrativa; o que muito quer dizer quando se trata de uma literatura como a nossa, na qual houve recentemente uma dúzia de grandes autores experimentando com a língua e criando obras de uma força invejável (exemplos disso são Orides Fontela, Ferreira Gullar, Herberto Helder, José Luandino Vieira e Maria Gabriela Llansol). Metz pertence a esse rol por ter escrito linhas como as seguintes:

“Em cada indivíduo nasce um tempo como cabelos, e uma tradição e uma ruptura. Ele nem bem está e já foi. O que é o que foi? Nunca e será. O tempo mora na memória quando quer, ele é ela. Não é o tempo que corre. São os ditos que correm, se socorrem no tempo, e nele desaparecem, nos levando. Quanto mais curvo o tempo, mais vivo, bastado. Quando se enterra um homem se enterra o tempo daquele homem num símbolo, o que é tempo naquele homem no símbolo é levado. Quando lembramos o pai é porque já lembramos o nosso fim, é tarde para nós, não sabemos mais esquecer. O fim está voltando. E vem recolhendo. Quando estamos, então, íntimos do futuro, mais passado estamos, de corpo e cabeça passados, nossas mãos beijadas, finalmente faltando tudo, entregues a um memorial. No meu começo, o meu fim. No meu fim, meu começo. Não é um mistério, é um segredo. Assim, pensativos, umedecemos a água. Fazemos o fogo, aquecemos nossas mãos.” (“Assim na terra”, Luiz Sérgio Metz)

Os experimentos de Metz se dão simultaneamente em vários componentes da narrativa, o que eleva muito a complexidade do livro. Há experimentações vocabulares, sintáticas, outras relacionadas à continuidade e à verossimilhança narrativas, à construção de personagens, à citação e até à incorporação de citações das literaturas brasileira, alemã, inglesa, chilena, mexicana, argentina – para citar apenas algumas.

Como se pode observar, o livro é um tipo de emaranhado caoticamente organizado, ou organizadamente caótico, que pega dos autores anteriores o bastão da literatura e corre com ele para passar a um ainda não existente autor do futuro. Mais do que isso, o livro é um monumento ao avanço, seja ao avanço literário ou científico, seja ao avanço do homem em direção a si mesmo.

Por trás ou por baixo do emaranhado citado acima, que a autores e leitores contemporâneos parece no mínimo confuso, pode-se ver uma linha cristalina de narrativa – como um riacho correndo dentro de uma luxuriosa e ostensiva floresta tropical. Trata-se em "Assim na terra" de um narrador em primeira pessoa, que está em busca de si em pelo menos dois níveis: no nível palpável do pampa sulista e no nível evanescente da sua própria mente. “Assim na terra” é um tipo ligeiramente diferente de romance de descoberta ou de desenvolvimento (o “Entwicklungsroman” alemão). Não lhe falta nada, nem mesmo a figura de um mestre, exercida no livro por Gomercindo, um senhor que leva o narrador aos limites de sua linguagem e do autoconhecimento, como no trecho abaixo:

“– Homem nenhum tem ou teve paz – disse depois. – Não há um ser humano que conheceu a si ou a alguém, ou dominou alguém e a si mesmo. Procedemos e processamos e passamos a proceder e a processar. Esse é o desafio. Inventamos uma invenção que nos inventa, ficamos alguns instantes felizes com isso. Logo o mundo acaba e vamos novamente buscar onde não há, mas pode haver. Dependemos do medo para prosseguir e do medo para estancar uma procura exaustiva. Quando chegamos à plena alienação aí sim só trabalhamos o medo, e temos uns instantes de paz quanto maior ele for. É a hora de construir hospitais e cassinos e toda a rede necessária aos seus funcionamentos. Uns são seres sem retorno e outros só de retorno. Muitos erigem sistemas tentando se safar e justificar estarem vivendo a vida de um outro para poderem se suportar. Aí mais se inventam e se infectam de estranhos, que julgamos nascerem de outra pipa, farinha de outro trigo, carne de outras esferas, esferas de um outro mundo cuja chave vamos procurando. Nossa infância está vencida e mesmo assim nos contagia. A maior religião no nosso tempo é a que nos propõe um retorno.” (“Assim na terra”, Luiz Sérgio Metz)

“Assim na terra” é um livro do nosso tempo e é, mais do que isso, um livro que funda o novo tempo. Propõe dificuldades, quebra certezas, diz que o chão firme é inútil e sugere o salto no abismo da linguagem. Se a proposta deu certo ou não, deixemos que os verdadeiros críticos literários respondam (ou tentem responder). Nós podemos – sem medo do elogio exagerado que destrói a crítica séria, já que críticos não somos – nos contentar com o evento linguístico, literário e humano que é o livro “Assim na terra” de Metz.

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*A coluna Rubrica, publicada às segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Guménin. Matheus Guménin estuda literatura alemã na USP, escreve sobre literatura para jornais do estado de Mato Grosso, é tradutor e escreveu um livro ainda inédito de poemas, que sairá entre 2016 e 2017.

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