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Segunda-feira, 28 de setembro de 2020

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José Saramago: entre a tradição oral e a retórica clássica

Autor: Matheus Guménin

21 Dez 2015 - 09:17

Danilo Bezerra

[Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que não é meu objetivo desenvolver aqui, e que não me caberia alcançar em meia página de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

José Saramago (1922-2010) é um dos ápices da literatura ocidental. Há quem concorde com suas visões políticas, há quem veementemente discorde, há quem não queira nem ouvir falar no seu nome, mas nada disso importa. José Saramago é um dos ápices da literatura ocidental.

Isso dito e repetido, conversaremos hoje sobre seu livro ”O ano da morte de Ricardo Reis”.

O livro é estruturalmente complexo, apesar de não ter arroubos esteticamente revolucionários. Sua narração é, aliás, bastante convencional. Os leitores mais desavisados se surpreendem e deixam impressionar pelo famoso uso heterodoxo da pontuação, principalmente (ou quase que só) nos longos diálogos de frases intercalados e, ainda assim, unos, já que ponto final algum as separa, somente as vírgulas cumprem esse papel. Esse artifício narrativo da pontuação, no entanto, não representa grande ruptura estética nem realiza – como já dito acima – arroubos esteticamente revolucionários. O que ele parece representar é uma tentativa de retorno do narrar às suas origens (ou ao menos uma homenagem a elas) – falo aqui da narrativa de caráter oral.

É difícil não se lembrar das histórias contadas de boca em boca, das histórias contadas ainda hoje nas cidades menores quando os familiares, amigos e os nem tão amigos se reúnem para ouvir o ancião contar daquilo que leu e ouviu mundo afora, daquilo que escreveram outros e que escreveu ele, absorvidas essas histórias tanto com os ouvidos atentos quanto com os sedentos olhos ao redor do contador. Essa espécie de função – de protetor, portador e distribuidor tanto da candeia da esperança quanto (e principalmente) dos horrores já acontecidos ou por acontecer – é a função que Saramago parece desempenhar.

Sua escrita, seu esmero formal, seus artifícios narrativos (vide a pontuação acima descrita) estão todos aliados e a serviço de um papel que o artista parece ter de executar, a saber: a função de abrir os olhos, e mais do que isso, de fazer de fato ver o olho já aberto. Daí o desconforto que sua literatura pode causar naqueles que não partilham de suas noções políticas e religiosas (ou melhor: nada religiosas). Por sorte, no entanto, seu esmero formal e sua maestria narrativa elevam suas obras a um patamar no qual estão aquelas que, pelo simples e às vezes desesperador fato de serem geniais, não podem e não aceitam ser ignoradas.

Há vários aspectos formais em suas narrativas que corroboram essa tese de retorno e homenagem às narrativas anteriores à escrita ou mesmo – se nos tempos modernos – paralelas à escrita. É óbvio, no entanto, que, sendo Saramago um escritor, ele lida com as limitações e potencialidades que o texto escrito traz consigo. Seria ingenuidade afirmar simplesmente que Saramago volta à narrativa oral, ponto final. Demonstraria, além de ingenuidade, despreparo de quem o diz. O que parece ocorrer, isso sim, é ser Saramago um escritor que contrapõe as duas tradições narrativas, as coloca em disputa e de cada uma (da oral e da escrita) tira o que de melhor há. Eu chegaria a dizer que a escrita de Saramago opera um movimento dialético entre a tradição de narrativa oral e a tradição de narrativa escrita. Dessa dialética e, mais do que tudo, da exposição sistemática e ostensiva dela por meio do humor, da ironia e de outros artifícios nasce a abrasada modernidade da escrita de José Saramago.

Dito de outra maneira, a escrita de Saramago parece o inusitado encontro dos textos de Antônio Vieira com o contar de histórias de seus avós e bisavós à roda da mesa de jantar. Abaixo um exemplo tirado de “O ano da morte de Ricardo Reis”:

“Gostava que encontrasses um dia um bom marido, Também gostava, mas ouço as outras mulheres, as que dizem que têm bons maridos, e fico a pensar, Achas que eles não são bons maridos, Para mim, não, Que é um bom marido, para ti, Não sei, És difícil de contentar, Nem por isso, basta-me o que tenho agora, estar aqui deitada, sem nenhum futuro, Hei-de ser sempre teu amigo, Nunca sabemos o dia de amanhã, Então duvidas de que serás sempre minha amiga, Oh, eu, é outra coisa, Explica-te melhor, Não sei explicar, se eu isso soubesse explicar, saberia explicar tudo, Explicas muito mais do que julgas, Ora, eu sou uma analfabeta, Sabes ler e escrever, Mal, ler ainda vá, mas a escrever faço muitos erros. Ricardo Reis apertou-a contra si, ela abraçou-se a ele, a conversa aproximou-os devagarinho duma indefinível comoção, quase uma dor, por isso foi tão delicadamente feito o que fizeram depois, todos sabemos o quê.”

“O ano da morte de Ricardo Reis” é um exemplo magistral do embate e da sempre provisória união da narrativa oral com a narrativa escrita. O narrador se move sem grandes problemas pelas várias camadas narrativas, às vezes lhe é obrigatório observar tudo de fora, às vezes ele consegue narrar exatamente o que se passa na cabeça de um ou outro personagem, às vezes ele fica no meio do caminho (aí vem o nosso velho “nel mezzo del cammin”), entre o exterior e o interior de uma personagem. O que se mantém, no entanto, é o humor mordaz do narrador, que tudo comenta e volta a comentar, que ironiza personagens, acontecimentos políticos e até mesmo o autor do livro, José Saramago (principalmente o seu “Memorial do convento”, outro de seus ápices literários).

Ricardo Reis – o mais elitista dos heterônimos de Fernando Pessoa, o esteta de Pessoa – se vê em “O ano da morte de Ricardo Reis” de volta a Portugal e às voltas com um país que já não lhe pertence e nem ele ao país, se é que algum dia pertenceram-se um ao outro. Reis contentava-se em, afastado, assistir ao espetáculo do mundo; precisa agora, no entanto, ver de frente o rosto brutal da guerra, o rosto silencioso da ditadura e o rosto confuso daquilo que por falta de nome melhor se poderia chamar de amor (ou solidão).

“Addis-Abeba está em chamas, as ruas cobertas de mortos, os salteadores arrombam as casas, violam, saqueiam, degolam mulheres e crianças, enquanto as tropas de Badoglio se aproximam. Mussolini anunciou, Deu-se o grande acontecimento que sela o destino da Etiópia, e o sábio Marconi preveniu, Aqueles que procurarem repelir a Itália caem na mais perigosa das loucuras, e Eden insinua, As circunstâncias aconselham o levantamento das sanções, e o Manchester Guardian, que é órgão governamental inglês, verifica, Há numerosas razões para serem entregues colónias à Alemanha, e Goebbels decide, A Sociedade das Nações é boa, mas as esquadrilhas de aviões são melhores. Addis-Abeba está em chamas, as ruas cobertas de mortos, os salteadores arrombam as casas, violam, saqueiam, degolam mulheres e crianças, enquanto as tropas de Badoglio se aproximam, Addis-Abeba está em chamas, ardiam casas, saqueadas eram as arcas e as paredes, violadas as mulheres eram postas contra os muros caídos, trespassadas de lanças as crianças eram sangue nas ruas. Uma sombra passa na fronte alheada e imprecisa de Ricardo Reis, que é isto, donde veio a intromissão, o jornal apenas me informa que Addis-Abeba está em chamas, que os salteadores estão pilhando, violando, degolando, enquanto as tropas de Badoglio se aproximam, o Diário de Notícias não fala de mulheres postas contra os muros caídos nem de crianças trespassadas de lanças, em Addis-Abeba não consta que estivessem jogadores de xadrez jogando o jogo do xadrez.”

Através do virtuosismo discursivo o narrador acompanha então Ricardo Reis quando de seu retorno a Portugal, quase (o narrador) lutando esgrima ou jogando xadrez – para usar uma metáfora do próprio livro – com os fatos, com Ricardo Reis e com os outros personagens; contra si mesmo. O narrador vence sempre. Isso não significa, no entanto, que os outros percam.

Com “O ano da morte de Ricardo Reis” (e “Memorial do Convento”, “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e “Ensaio sobre a cegueira”) alcança José Saramago os píncaros da literatura ocidental – isso tudo é repetir o óbvio. Saramago – ele e Lídia Jorge, Maria Gabriela Llansol, Sophia de Mello Breyner Andresen, António Lobo Antunes – alça, além disso, a própria literatura portuguesa a um patamar inaudito. Agora nos resta ver aonde esse novo patamar os levará.

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A coluna Rubrica, publicada todas as segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Guménin. Matheus Guménin estuda literatura alemã na USP, escreve sobre literatura para jornais do estado de Mato Grosso, é tradutor e escreveu um livro ainda inédito de poemas, que sairá entre 2016 e 2017.

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