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Muito barulho por tudo: O silêncio no cinema atual e a valorização do diálogo explicativo com o passar dos anos

Autor: Thales de Mendonça

07 Jan 2014 - 13:22

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Como meio de comunicação repleto de recursos que é, o Cinema sempre se destacou por sua experimentação no que diz respeito às formas de dialogar com o público. Do cinema expressionista alemão, onde os diretores primavam pelos jogos de luz e sombra de maneira a criar atmosferas e emoções para emular as palavras, até o verborrágico Woody Allen com seus personagens compulsivos e dispostos a monologar com frequência, o cinema vem tentando de mil maneiras usar as palavras – e as imagens – para evocar emoções em seus espectadores.

Após o advento do som nos anos 20 e em seguida o Tecnicolor que coloria as películas, houve de uma forma geral uma supervalorização da palavra no cinema. Calcado sempre na proposta de acompanhar os avanços tecnológicos de forma a estruturar melhor as narrativas, a fala trouxe consigo uma demanda de obras repletas de música argumentação.

    
(O retrato de Dorian Gray (1945), Alma no Lodo (1930), A Cadela (1931) – Todos são Adaptações Literárias)

Nas adaptações de obras literárias muito comuns na primeira época do cinema falado, os filmes costumavam valorizar os longos diálogos e a narrativa como recurso de inserção de informação. “O Artista”, filme francês que ganhou a estatueta de melhor filme em 2012 gira em torno de uma estrela do cinema mudo que vê sua vida virar do avesso com a chegada do cinema falado, e luta contra a mudança que engolfou o cinema mudo.

   

Contudo, devemos lembrar que o cinema, sempre experimental em sua essência, manteve-se ao longo desses anos de hegemonia da fala uma série de outras obras silenciosas que continuaram a desenvolver um estudo no uso da simbologia e da imagem para expressar ideias no cinema, mas num âmbito mais experimental e artístico. Para as grandes bilheterias e grandes produções cinematográficas, com o tempo migramos dos épicos mitológicos tão comuns no começo do cinema para as superproduções visuais.

Instaurado nos anos 70 por “Tubarão” de Steven Spielberg e “Jornada das Estrelas” de George Lucas, o posto de “carro chefe” do cinema – abocanhando milhões nas bilheterias e abastecendo o cofre daqueles que incentivaram o cinema - tem sido desde então as superproduções para toda família, espeficamente as lançadas no verão. Essas, com estruturas de fácil assimilação para o grande público, são as que mais se favoreceram com o uso da palavra e a experimentação visual no cinema.

      
(Tubarão (1975), Guerra nas Estrelas (1977), “Inferno na Torre” (1974) – Superproduções de Grande Bilheteria)

Utilizando o poderio visual criado pelos efeitos gráficos e visuais aprendidos com o cinema de contra cultura dos anos 70, as superproduções norte americanas ajudaram a perpetuar de vez o diálogo explicativo no cinema para o grande público, e primaram por utilizar o alto controle visual apenas como elemento de apreciação da vida cotidiana em moldes cinematográficos. Filmes catástrofe, jornadas estrelares, contatos alienígenas e monstros assassinos criaram narrativas que atraíam todo tipo de curiosos buscando impressionar-se com a magnitude visual do cinema. “Tubarão”, devido à sua repercussão mudou de uma vez a maneira de divulgar e criar narrativas para o grande público. Spielberg criava aí o filme de aventura que conhecemos hoje.

Dos filhos das grandes produções dos anos 70 que vem conquistando as salas do cinema anos após ano com sua fórmula simples e divertida de fazer cinema, o mais rentável deles, e o mais rentável de todos os filmes da história, “Avatar” de James Cameron é o exemplo máximo da supervalorização da palavra e utilização da imagem não como simbologia, mas como apelo visual com a única função de impressionar e divertir. Com diálogos explícitos que mastigam a trama e exigem pouco de seu corpo de atores – enraizados nos maiores clichês dos filmes de aventura: o general mal, a índia sexy e inocente, a cientista preocupada com o meio ambiente, personagens tão rasos que são meras caricaturas para fazer a trama rolar – o filme presa apenas pelo entretenimento, e cumpre seu papel em divertir sem cansar e entreter sem politizar, mas entretenimento por entretenimento é a única coisa capaz de tomar o topo das bilheterias? Atualmente sim, mas isso pode mudar.

Numa era onde grandes bilheterias são ditadas como obras como “Avatar”, um cinema silencioso e preocupado na experimentação da imagem tem surgido entre os festivais e encontrando um público através da internet, às vezes até alcançando as prateleiras das quase extintas locadoras, e neste mercado mais amplo, longe das mãos do público alvo da internet que busca este material, o silêncio e a contemplação para interpretação tem encontrado uma barreira, a aversão.

Grandes nomes como Terrence Malick, Baz Luhrman, David Cronenberg e de outros diretores não tão conhecidos como Alejandro Gonzáles Iñarritu e Kim ki Duk, tem encontrado resistência do grande público quando alcançam – devido ao prestígio em festivais pela crítica especializada – as grandes telas, ou as prateleiras, sejam virtuais ou físicas das locadoras. Muito dessa aversão é proveniente da elitização do cinema arte e da perpetuação da noção do cinema como entretenimento, mas também se dá devido a essa supervalorização da narrativa explícita e pouco simbólica oriunda da diversão para toda família que acostumamos a processar.

     
(Biutiful (2010), Árvore da Vida (2011), Fonte da Vida (2006) – Produções reflexivas calcadas em grandes estrelas)

Apoiando-se em atores consagrados e famosos entre o grande público, estas não tão suntuosas produções, e não tão custosas também, buscam atrair o público cativos desses atores para obras mais complexas e mais contemplativas, recheadas de imagens simbólicas que quando agregadas à música, evocam reflexões a respeito do comportamento humano e da sua forma de expressar-se no mundo, indo no sentido contrário das grandes produções para mero entretenimento, mas nem sempre triunfam em seus intentos de divertir grandes plateias.

Públicos para ambas as produções – sejam as reflexivas ou as para diversão - sempre existirão, mas terão as obras reflexivas espaço nas telonas e público para incentivar suas produções? O reconhecimento destes novos diretores, o crescimento deste público gerado na internet e o constante crescimento deste cinema silencioso mostram que talvez, esse falatório explicativo todo no cinema seja muito barulho por nada, e que talvez estejamos aprendendo a assistir os filmes no sentido de fazer parte de suas reflexões, e não meramente admirar suas jornadas.

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