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Quinta-feira, 21 de março de 2019

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Biblioteca com o maior acervo sobre meio ambiente de MT será desativada

Da Redação - Isabela Mercuri

01 Mar 2019 - 11:00

Foto: Da Assessoria

Biblioteca com o maior acervo sobre meio ambiente de MT será desativada
A biblioteca Arne Sucksdorff, que fica dentro da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) e abriga o maior acervo sobre o meio ambiente de Mato Grosso, será desativada para abrigar os técnicos que serão contratados para validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Todo o material, grade parte doado pelo cineasta sueco Arne Sucksdorff, que passou grande parte de sua vida no Pantanal mato-grossense, vai para outros órgãos, como a Assembleia Legislativa e escolas.

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O espaço abriga cerca de 11 mil slides, 20 mil exemplares entre mapas, arquivos de vídeo, livros, CDs-Rom, DVDs, publicações de servidores da Sema e uma imensidão de EIAs e Rimas. Grande parte doados por Arne.

O cineasta nasceu em Estocolmo em 1917. Segundo seu obituário no jornal inglês ‘The Guardian’, veio para o Brasil no final dos anos 50, onde ensinou cinema para jovens (incluindo Glauber Rocha) a convite do governo federal e da Unesco, trabalhou ajudando crianças pobres e fotografou a fauna e a flora do país. Famoso por diversos filmes, incluindo o vencedor do Oscar de melhor curta-metragem ‘Sumphony of a City’ (1947), ele foi a primeira pessoa a produzir conteúdo sobre o Pantanal.

Arne no Pantanal (Foto: Reprodução / Folha do Meio Ambiente)

Em 1971, foi convidado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) para filmar o longa "Mundo à Parte", em quatro episódios: "Os Anos Felizes", "Os Anos na Selva", "Manha de Jacaré" e "O Reino da Selva". O longa foi gravado no Pantanal, quando Arne e Maria [a cuiabana com quem se casou] voltaram da Suécia.

Foram doze anos de produção, sendo que a cada seis meses, durante a cheia, a equipe tinha que levantar acampamento e voltar para Cuiabá. Enquanto Arne filmava, Maria ajudava a catalogar as plantas e os animais. Este foi o primeiro grande trabalho feito sobre o Pantanal.

De acordo com a Secretaria, o acervo da biblioteca setorial “será disponibilizado para o público em geral com o remanejamento dos livros, mapas e estudos científicos para instituições que possam expor e disponibilizar os materiais aos cidadãos mato-grossenses. A proposta foi desenhada a partir da constatação de que o acervo está subutilizado, uma vez que a estrutura física da biblioteca está no interior da sede da Secretaria, limitando a visita da população”. Em 2017, foram 250 atendimentos, e em 2018, 312 visitas.



O plano da Secretaria é enviar o acervo de fotos e vídeos sobre o Pantanal, doados pelo cineasta sueco Arne Sucksdorff, à Assembleia Legislativa de Mato Grosso, os processos que contêm relatórios de EIA-Rima (Estudo e Relatório de Impacto Ambiental) para a Gerência de Arquivo Setorial da Sema para consulta pública, e os mapas para instituições de ensino. As demais publicações e o endereço de consulta 24 horas (PHL) serão disponibilizados à Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer para que esta faça o gerenciamento do acervo e defina a melhor estratégia de disponibilização do material.

"Estamos trabalhando arduamente para entregar resultados cada vez melhores à população mato-grossense e essa reestruturação integra o pacote de medidas para melhorar a eficiência da Secretaria utilizando-se de menos recursos", explica a secretária de Estado de Meio Ambiente, Mauren Lazzaretti.

Os servidores da pasta, no entanto, acreditam que faltou diálogo para tomar a decisão. “Foi de maneira tempestiva, porque ela [a Secretaria] não buscou junto aos servidores ter um diálogo para encontrar um melhor caminho a ser tomado. Ela inclusive já entrou em contato com a Assembleia Legislativa”, lamentou o presidente do Sindicato dos Servidores da Sema (Sintema), Germano Passos.

“Além de ter um dos maiores acervos com relação às questões ambientais, ali estão todos os grandes estudos ambientais desenvolvidos no estado de Mato Grosso, dissertações de mestrado, de doutorado... e é lógico que a biblioteca tem uma característica de ser de cunho técnico, e quem faz mais a utilização de fato são os servidores e profissionais, pela característica técnica. Mas não é exclusivamente técnico, porque tem ali documentos que são de ordem de interesse cultural e ambiental”, completou o presidente.

Na última quinta-feira (28), o sindicato protocolou um pedido para que a gestão crie uma comissão formada por servidores do setor, pelo sindicato, e pela própria gestão, para discutir o caminho a ser tomado. “Existem outros espaços na Secretaria que podem ser viabilizados para fazer essa alocação. O que a gente quer é que tenha diálogo, e o debate que vai aproximar os entes envolvidos na busca de uma decisão mais assertiva. A biblioteca é uma história das questões ambientais do estado de Mato Grosso. Nós queremos achar alternativas pra que a mantenha preservada. Ela tem um peso histórico, um peso social, cultural e ambiental também. E isso nós temos que lutar pra manter”, afirmou.

Em entrevista ao Olhar Conceito em abril de 2018, a própria esposa de Arne, Maria Sucksdorff, afirmou que não lhe é dado a devida importância. “Geralmente, não se fala que foi ele que abriu o Pantanal pro mundo. É só visto como um sueco, fotógrafo, cineasta, meio fora da realidade... Porque naquela época era assim que era visto: fora da realidade”, disse.

Maria segurando o livro de Arne (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

Em março, um casal de turistas suecos que veio para o Pantanal somente para seguir os passos de Arne também fez questão de ir à biblioteca, e doaram um armário para que o acervo fosse guardado adequadamente.

Armário inaugurado pelos turistas suecos na Sema (Foto: Assessoria / Sema)

Atualmente a biblioteca ainda pode ser frequentada por técnicos da secretaria que a usam como base de dados para alguns estudos e pareceres na Sema e alguns alunos universitários, além do público em geral. Ela funciona das 8h às 12h e das 14 às 17h de segunda a sexta, mas não é possível precisar até quando estará de portas abertas.

17 comentários

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  • Rita de Cassia
    07 Mar 2019 às 21:54

    Como Bibliotecária sempre fico indignada com a ignorância de gestores que não sabem tratar acervos de tal importância. A memória fica perdida uma vez que o alto custo de digitalização para disponibilizar ao público acaba por reduzir a amplitude do acervo tratado, raramente se finaliza o trabalho. A dispersão de acervos desta natureza empobrece culturalmente e prejudica o trabalho de técnicos. É uma pena que o desconhecimento e falta de expertise continue a fazer vítimas bibliotecas e acervos especializados ou não.

  • Jandira Maria Pedrollo
    07 Mar 2019 às 12:49

    Que absurdo. Estou entendendo que esse gestor não e afeito a informações. Povo informado cobra ações. Até hoje sentimos a falta da fundação Candido Rondon. Porque não utilizar aquele prédio existente dentro do parque mãe Bonifácia para instalar a biblioteca? Ministério público estadual, por favor, se manifeste, não deixe que o acervo ambiental do Estado seja estraçalhado.

  • Maria da Solidade
    05 Mar 2019 às 19:49

    Uma falta de respeito com biblioteca desse porte e com o doador uma vez que a casa e patrimônio desse Estado,

  • Daniel L Filho
    05 Mar 2019 às 10:21

    O importante no caso desta coleção particular de A Sucksdorf é não partilhar ela!. Ela deve e pode mudar de endereço, porém sem dividi-la em mapas p cá e filmes p lá. O valor de uma biblioteca particular consiste na sua integridade. É através desta integridade que o pesquisador poderá situa-la e contextualizar. Separa-la significa destruí-la. Sugestão: pq não doar ela a Biblioteca pública de Cuiabá ou de uma universidade? Obrigado.

  • Jota Alves
    03 Mar 2019 às 16:54

    Ver jota alves Facebook

  • Clara
    02 Mar 2019 às 15:18

    Adicionar o Sr. Valerio Ribeiro, tambem no comentario anterior.

  • Clara
    02 Mar 2019 às 15:15

    Prezados(as) Borba Silva, Vanderlene Silva, Tamires Arruda, Telemaco Seixas, o IP da maquinas dos senhores esta identificado. Estudar e bom e diminui e ate evita a maior doenca que existe na humanidade e chama-se: Ignorancia. Bons estudos.

  • Pedro
    02 Mar 2019 às 15:08

    Nero, mandou colocar fogo em roma, destruir as bibliotecas e matou a propria mae abrinco com uma faca seu ventre. Este ainda e o perfil dos destruidores da memoria de um povo. Ficou para a historia como im vandalo, e sempre e lembrado .

  • Paulo Justos Kuiabano
    01 Mar 2019 às 19:44

    Qual o real interesse em fechar um banco de dados científico ambiental do Estado? Em qualquer pais sério no mundo esse banco de dados e informações continuaria vinculado a instituição em que se encontra porque ali a fonte torna-se fidedigna e acessível. Até o contato com a equipe técnica da secretária facilitaria os trabalhos de pesquisas relativo ao ambiente em Mato Grosso. Será esse o motivo pelo qual estão querendo fechar? Não seria isso uma forma de dificultar estudos e mascarar uma realidade ambiental por aqui que precisa, se ainda não eficaz, pelo menos ser mais respeitoso com o meio em que vivemos!!

  • Curimbatámt
    01 Mar 2019 às 17:06

    MAL AGRADECIDOS PAUS RODADOS!!!! DESTRUINDO A NOSSA HISTORIA. SABIA QUE NO MUNDO SÓ EXISTEM DUAS BIBLIOTECAS, IGUAIS. ESSA EM CUIABÁ, É NA SUÉCIA TERRA DE ARNO SUKSDORF. ISSO É REALMENTE LAMENTAVEL, A DECISÃO DE DESATIVAR A BIBLIOTECA, PARTE DE UM POVO QUE CERTAMENTE NÃO TEM HISTORIA

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