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Livrarias restantes em Cuiabá reduzem lojas, abrem mão de estoque e até do ar-condicionado para sobreviver

Da Redação - Thaís Fávaro

10 Jan 2019 - 14:07

Foto: Thalita Araujo

Livrarias restantes em Cuiabá reduzem lojas, abrem mão de estoque e até do ar-condicionado para sobreviver
A era tecnológica tem feito muitas livrarias perderem clientes e serem obrigadas a  fechar as portas ou se reinventar para sobreviver à “crise”. Em Cuiabá, a livraria Adeptus, em funcionamento há mais de 30 anos, fechou cinco lojas e transferiu uma unidade para prédio próprio na tentativa de reduzir custos.

A gerente Elen Moraes lamenta a desvalorização das livrarias: “Hoje nós não vivemos mais da venda, o que nos mantém funcionando é somente o amor pelos livros”, relata. Um dos desafios das empresas do ramo é despertar o hábito da leitura na nova geração.

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O livro ganhou muitos concorrentes com o passar dos anos. São computadores, jogos, séries e principalmente os smartfones. A geração Z, nascida a partir de 2001, é composta por pessoas mais agitadas, ansiosas, que querem resultados rápidos e não se prendem a um livro impresso por muito tempo. Mas o futuro do livro não está morto. O que vemos são as livrarias e sebos vendendo para quem já tem o hábito da leitura. O que falta para as futuras gerações é adquirir esse hábito, buscar histórias e consumir esse nicho de produto.

A livraria Adeptus, uma das mais tradicionais de Cuiabá, sentiu no bolso essa mudança de cultura. “Saímos do shopping e viemos para esse ponto porque é imóvel próprio e não precisamos pagar aluguel, mas a situação é muito complicada. Tivemos que abrir mão do conforto. Aqui não ligamos o ar condicionado, porque não teria como pagar a conta de luz. As despesas caíram 90%, mas as vendas também. Hoje nós não vivemos mais da venda, o que nos mantém funcionando e atendendo ao público é somente o amor do proprietário pelos livros”, afirma a gerente da livraria.

Para ela, a principal causa desse distanciamento do público com os livros é a internet. “As pessoas não têm a cultura de ler, mas o principal motivo que eu vejo, é a internet. Tudo é na internet. As pessoas não querem mais parar a correria do dia para ler um livro”, ressalta.

Elen é gerente da Adeptus há 15 anos, e conta que hoje a livraria não consegue mais trabalhar com estoque. “Temos livros aqui que foram comprados quando abrimos a empresa, há 30 anos. Querendo ou não os efeitos do tempo para os livros são terríveis. As páginas oxidam e a gente acaba perdendo o material. Não temos condições de manter um estoque. Se o cliente quiser um livro que não tem aqui a gente encomenda, mas nem sempre o valor compensa e eles acabam desistindo da compra”, ressalta.

Mesmo com o risco de perder o estoque com as ações do tempo, Elen conta que já apareceram várias pessoas querendo comprar os livros para abrir sebos, “o proprietário não vende. Ele não se vê abrindo mão disso aqui que ele tanto ama. É a história dele que tem aqui dentro”, conclui.

Mercado de livros usados
 


Para a jornalista Marília Bonna, proprietária do sebo itinerante Rua Antiga, o comércio de livro continuará existindo mesmo que as livrarias acabem fechando. “Com tudo que tem se falado sobre um possível desaparecimento do livro físico, eu acredito que ele vá migrar para o lugar das coisas desaparecidas e o lugar das coisas desaparecidas é  os sebos e os antiquários”, afirma.

Para ela, os sebos não estão com o “futuro ameaçado”, como aparentemente estão as livrarias. “O sebo é um mercado que nunca passa por crise alguma, porque é um mercado marginal, alheio às demandas do mercado convencional: com seu próprio público, seus próprios valores, suas próprias regras. O sebo é atemporal: ele não depende de moda, ele não depende de costumes, ele depende apenas de nostalgias. E os nostálgicos sempre existirão”, comemora.

Marília conclui, “o que quero dizer é: quem é cliente de sebo é cliente de sebo e vai continuar sendo cliente de sebo ainda que possa também, eventualmente, ser um cliente de livraria. Quem gosta de sebo gosta do ambiente, gosta dos preços, gosta de achar coisas que já saíram de catálogo, gosta de descobrir autores, gosta de livros antigos, gosta da possibilidade de encontrar uma raridade. Sendo assim, na minha opinião, livrarias e sebos não se colocam nessa posição de concorrência e é engraçado porque, embora os dois vendam livros, eles definitivamente não vendem a mesma coisa”.

11 comentários

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  • Dora Aventureira
    11 Jan 2019 às 09:40

    Também tem a questão do valor né? O mesmo livro que na internet é vendido por R$ 60 (com frete), aqui em Cuiabá tá R$ 85. Já comprei 3 livros na internet, que saiu mais barato que UMA unidade aqui na capital. Ai não compensa mesmo. Se o preço fosse justo, acredito que melhoria muito.

  • Roberto
    11 Jan 2019 às 08:36

    Eu consumia livros pela internet em formato e-book, mas voltei a frequentar livrarias porque acabava não concluindo a leitura, por perder o foco com notícias de jornal e outras coisas. Como estava perdendo o hábito de ler, percebi também que o conforto visual do livro físico é insubstituível e vejo que não se fala muito disso. Deveriam fazer uma campanha para o consumidor se dar conta de como é bom frequentar livrarias. Largar um pouco o smartphone descansa a cabeça. Acho que as livrarias deveriam investir mais nesse ponto do conforto do livro físico, característica que as pessoas nem se dão conta. Além do mais, passar uma tarde ou uma manhã garimpando um livro é um grande prazer: pode-se ler um monte de coisas naquele silêncio até se decidir por assuntos que a princípio o leitor nem tinha interesse. Já pela internet, mesmo com as amostras de capítulos gratuitos, a garimpagem é infinitamente pior. Gravíssimo para um país selvagem como o nosso o fechamento das livrarias.

  • Tatiane
    11 Jan 2019 às 08:21

    Poderiam ter colocado o horário de funcionamento dos estabelecimentos. Eu nem sabia que a Adeptus ainda existia!

  • Kevin
    11 Jan 2019 às 07:53

    Alguém pode me indicar algum sebo em Cuiabá para venda e/ou troca de livros e revistas

  • Alessandro
    11 Jan 2019 às 00:21

    Estamos vendo o efeito kodak, que não estão se adaptando às mudanças, manter estoque de livros velhos, para dizer que tem estoque ou acervo grande, na verdade é mais um erro de gestão. O livro escrito, no curto prazo não irá acabar, o que precisam e reinventar a gestão, acompanhar mudancas. Muito falam sobre essa nova geração que não leem ( o que é verdade), mas o que estão fazendo para atingir essa nova geração? O que precisa e se reinventarem, mudar a forma de conduzir o negócio, pois, ficar culpando a geração nova não vai mudar nada. A mesma forma que vejo as lojas da janina, só a entrada com livros novos, que o resto só livros velhos, que estão desatualizados e nunca serão vendidos. Vendam os livros velhos para os sebos e reinventem o negócio, trabalhem de forma proativa com os livros.

  • Daniele
    10 Jan 2019 às 21:53

    Eu amo livros, estudar pelos livros, comprar livros. Adoro a Saraiva, Janina kkkkk

  • Maria Auxiliadora
    10 Jan 2019 às 20:07

    Um povo que elege um psicopata que destila ódio todas as vezes que abre a boca e um empresário que já causou a demissão de dois juízes do trabalho por conta de suas falcatruas é um POVO QUE NÃO GOSTA DE LER!!!

  • William
    10 Jan 2019 às 19:11

    O atendimento da Janina do shopping Pantanal era péssimo. Resultado? Fechou. A maioria das livrarias em Cuiabá atendem muito mal. Sou professor e boa parte das livrarias oferece descontos pra livros na área, mas quando peço o desconto, o resultado é cara feia dos atendentes.

  • Juracy Ady
    10 Jan 2019 às 16:19

    Geração WARCRAFT. Jovens burros que não gostam de ler e elegem qualquer um. Vivem na casa de pais e avós e não querem trabalhar.

  • Peterson M. Campos
    10 Jan 2019 às 15:48

    Infelizmente, as livrarias e vários outros comércios não se adaptaram as mudanças culturais e tecnológicas que a população teve nos últimos tempos. Amazon quase todo mês fazendo promoção em livros, quadrinhos. Youtuber e subcelebridades escrevendo e lançandos livros para publico jovem Kindle e tablet e facil acesso a livros digitais Em casos assim, quase sempre cito esse exemplo. https://www.youtube.com/user/pipocaenanquim/featured Um grupo de amigos, fã de quadrinhos, filmes, etc montaram uma editora e tão publicando e lançando excelentes livros.

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